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Estado de Minas

'Graças a Deus' mostra drama de crianças assediadas por padre francês

Filme dirigido por François Ozon, em cartaz no Festival Varilux, dá voz às vítimas de religiosos acobertados pela Igreja Católica francesa. Tribunal condenou cardeal por omissão


postado em 08/06/2019 04:14

Swann Arlaud faz o papel de Emmanuel Thomassin, cuja vida foi destruída pelo pelo assédio que sofreu quando era criança(foto: Califórnia Filmes/Divulgação)
Swann Arlaud faz o papel de Emmanuel Thomassin, cuja vida foi destruída pelo pelo assédio que sofreu quando era criança (foto: Califórnia Filmes/Divulgação)


Rio de Janeiro – Em 7 de março, o cardeal Philippe Barbarin, arcebispo de Lyon, de 68 anos, importante autoridade da Igreja Católica francesa, foi condenado a seis meses de prisão. Três semanas antes, em 16 de fevereiro, o filme Graças a Deus, de François Ozon, havia conquistado o Urso de Prata, prêmio concedido pelo júri no Festival de Cinema de Berlim. O timing é impressionante.

Em seu novo longa-metragem, Ozon acompanha três homens que foram vítimas, quando crianças, do padre Bernard Preynat, de 73. Até 1991, quando comandava um grupo de escoteiros na região de Lyon, o religioso teria abusado de dezenas de meninos. O cardeal Barbarin foi condenado por ter se calado, omitindo-se de denunciar as agressões sexuais cometidas por um padre de sua diocese.

Um dos principais filmes da 10ª edição do Festival Varilux de Cinema Francês, em cartaz até 19 de junho, Graças a Deus terá uma série de exibições em BH ao longo das próximas semanas (veja nesta página). As sessões serão uma prévia para o lançamento no circuito comercial, previsto para 20 de junho.

O francês Swann Arlaud veio ao Brasil promover o filme. Vencedor do César 2018 de melhor ator por O pequeno fazendeiro, de Hubert Charuel, ele interpreta Emmanuel Thomassin, a mais frágil das vítimas de Preynat. Se os dois outros homens destacados no longa, Alexandre Gúerin (Melvil Poupaud) e François Debord (Denis Ménochet), mesmo traumatizados, conseguiram seguir com a vida, ter uma carreira e formar uma família, Emmanuel não. A despeito do QI muito acima da média, ele tem um relacionamento tóxico com a namorada, nunca conseguiu trabalhar e sofre convulsões sempre que o assunto do abuso vem à tona.

O personagem de Arlaud foi inspirado em Pierre-Emmanuel, um dos denunciantes dos abusos de Preynat. “Na verdade, apenas um dos nomes foi mantido, pois François Ozon misturou a história dele com a de outra vítima”, explica o ator, que só conheceu o personagem real terminadas as filmagens. “Nós nos encontramos depois da projeção feita para a equipe. Isso foi ideia do Ozon, porque ele queria que os atores estivessem livres para criar. Foi um encontro comovente. O Pierre-Emmanuel me abraçou e disse que 99% (do que estava na tela) havia sido a vida dele.”

Pedofilia na Igreja Católica é tema recorrente na produção contemporânea. Os exemplos mais recentes são os premiados Spotlight – Segredos revelados, de Tom McCarthy, vencedor dos Oscars de melhor filme e roteiro em 2016, e O clube, do chileno Pablo Larraín, que levou o Urso de Prata em Berlim, em 2015. O longa norte-americano acompanha a investigação do jornal The Boston Globe, que denunciou a pedofilia na Igreja Católica nos EUA. O clube retrata um grupo de religiosos que carregam um passado de abusos e vivem fechados em uma casa no interior do Chile, mantida pela própria Igreja.

Por sua vez, Graças a Deus traz a visão das vítimas e como o trauma afetou não só as próprias vidas, como a daqueles que lhes são próximos. É um ponto fora da curva na filmografia de François Ozon.

MULHERES Um dos mais prolíficos cineastas franceses da atualidade, Ozon vem pautando sua obra por protagonistas femininas (Swimming pool, Jovem e bela) ou narrativas com forte cunho psicológico e sensual (O amante duplo, exibido na edição de 2018 do Varilux). Politizado, Graças a Deus é filmado com sobriedade – são os personagens, e suas histórias, que interessam.

“Quando François Ozon me convidou, fiquei orgulhoso. Mas quando ele me disse que seria uma história de pedofilia, fiquei pensando onde isso iria parar. Respondi que só poderia confirmar depois de ler o roteiro. É um diretor que se expõe por meio de seus filmes. Neste, apresentou o distanciamento necessário. Ele está completamente a serviço da história”, comentou Arlaud.

Ozon fez extensa pesquisa para construir o roteiro. Denúncias das pessoas que inspiraram os personagens Emmanuel, Alexandre e François vieram a público por meio da La Parole Libérée, associação criada em 2015 para dar apoio a vítimas de pedofilia que integravam o Groupe Saint Luc (o grupo de escoteiros, fundado em 1970).

“Os objetivos da associação são finalmente reconhecer os traumas que essas crianças sofreram e também levantar o véu sobre a responsabilidade do arcebispo de Lyon” – assim se apresenta a La Parole Libérée. O site www.laparoleliberee.fr traz testemunhos de vítimas – cerca de 70 homens foram identificados como vítimas de Preynat.

TRIBUNAL Em fevereiro, Graças a Deus chegou aos cinemas da França fazendo barulho. A defesa do padre Preynat entrou com ação pedindo o cancelamento da estreia e que a produção fosse exibida depois do julgamento. Mas o filme estreou no dia marcado e não demorou a atingir a marca de 1 milhão de espectadores.

“Vários cinemas organizaram debates tanto com vítimas quanto com pessoas da associação e da própria Igreja. O importante é que a história deixou de ser um caso episódico e tomou dimensão universal”, acrescenta Arlaud. A condenação de Barbarin foi uma vitória considerável, ainda que o cardeal cumpra a pena de seis meses em liberdade. A Justiça francesa passou a considerar “ofensa contínua” a omissão em denunciar o abuso sexual de menores.

Mais polêmica foi a decisão do papa Francisco, que não aceitou a demissão do arcebispo de Lyon, alegando “presunção de inocência”. A despeito disso, o cardeal Barbarin se afastou da arquidiocese. Já Preynat continua livre, pois seu julgamento ainda não foi marcado.

*A repórter viajou a convite da produção do evento




SILÊNCIO E TRAUMA

Outro filme da programação do Varilux também trata de pedofilia. Lançado em 2018 durante o Festival de Cannes, Inocência roubada (foto), do casal Andrea Bescond e Eric Métayer, acompanha a bailarina Odette, interpretada pela própria diretora. Adulta, ela procura uma psicóloga porque as memórias da infância começam a atormentá-la. Na infância, Odette foi abusada durante anos pelo melhor amigo de seus pais e nunca falou nada para ninguém. O trauma acabou por lhe trazer instabilidade emocional. A narrativa ficcional nasceu da própria experiência de Bescond, que sofreu abusos quando menina. O filme, que levou dois prêmios César em 2018, é adaptação da peça Cócegas ou a dança da raiva, que deu à diretora, atriz e bailarina o prêmio Molière em 2015.


FESTIVAL VARILUX DE CINEMA FRANCÊS
Graças a Deus será exibido nos cines Ponteio (neste sábado, 8, às 18h15; sexta, 14, às 14h; e quarta, 19h, às 21h); Belas Artes (sábado, 15, às 18h; segunda, 17, às 20h10; e terça, 18, às 14h); Cinemark Pátio Savassi (domingo, 9, às 18h; segunda, 17, às 18h45); e Humberto Mauro (terça, 25, às 17h). Programação completa: variluxcinefrances.com/2019.





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