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Estado de Minas

Mesa imperial


postado em 03/06/2019 04:13

Sou a feliz proprietária do livro Os banquetes do imperador, de autoria de Francisco Lellis e André Boccato, que faz parte da exposição histórica Menus da Belle Époque – a coleção de menus de D. Pedro II e a Belle Époque de Paris (coleção particular de André Boccato), que desde ontem está sendo apresentada em Tiradentes e que virá também para a capital. A mostra pode ser visitada na Galeria do Sobrado Ramalho, na cidade histórica, e é composta de cardápios de restaurantes e jantares do século 19, reproduzidos em painéis fotográficos, colecionados por D. Pedro II e, posteriormente, por André Boccato. Em 11 de julho, a exposição será inaugurada em BH, na sede do Iphan. Os cardápios impressionam não só por sua riqueza de detalhes e beleza gráfica, mas por serem um retrato da sociedade de uma época. São verdadeiros documentos que revelam costumes, gostos e padrões estéticos, entre outros aspectos, além das origens da gastronomia brasileira.

A mostra é baseada na pesquisa que André Boccato realizou por nove anos, o que resultou em sua própria coleção de menus parisienses da Belle Époque, e no livro Os banquetes do imperador, uma alusão a D. Pedro II, também um grande colecionador de cardápios. Entre os itens curiosos da coleção, há um cardápio da época em que Paris ficou sitiada, durante o cerco pelos prussianos. Foi feito então criativamente um menu com pratos à base de carne dos animais do zoológico parisiense: elefante (filé de elefante), camelo, urso, jacaré, além de cachorro e cavalo (cavalo à moda). Nele, há ainda a seguinte menção: “Os clientes devem trazer seu próprio pão”. A exposição apresenta também menus de navios, de recepções oficiais, de restaurantes, de hotéis e de cafés.

Os menus no Brasil são documentos que extrapolam a curiosidade estética e tronam-se testemunhos históricos do nascimento da cultura gastronômica brasileira. São cardápios que incluem banquetes de estado, inaugurações de estradas de ferro e eventos sociais no Rio de Janeiro, em São Paulo e em outros estados. Um exemplo é o Menu Abolicionista, no qual ocorre a primeira citação que se tem notícia do “churrasco do Rio Grande” e do famoso “banquete da Ilha Fiscal”.

Nos menus brasileiros, nota-se uma autêntica luta por reproduzir o que já era sucesso na Europa, ainda que existissem tentativas de valorização de ingredientes locais. Nesta época, foi editado O cozinheiro nacional, um livro que propagandeava, nos jornais cariocas, uma cozinha finalmente liberta das influências europeias. Contraditoriamente, suas páginas demonstram a impossibilidade de uma culinária de fato brasileira, seja pela incontornável técnica dos afrancesados profissionais, seja pela dificuldade de uso dos ingredientes locais. Os menus são bastante parecidos e, no conjunto, representam um retrato fiel da gastronomia no século 19.

Fotógrafo, jornalista, chefe de cozinha experimental e editor de livros de gastronomia, André Boccato iniciou sua carreira em jornais alternativos da década de 1970, até abrir sua primeira editora em 1980, especializada em poesia e arte. Ainda na década de 1980, foi diretor do MIS – Museu da Imagem e do Som de SP, e diretor das Oficinas Culturais Oswald de Andrade. Nos anos 1990, foi professor de fotojornalismo na PUC- SP e, na ECA-USP, de editoração. Recentemente, lecionou antropologia da alimentação na Universidade Estácio de Sá, em São Paulo. Representou o Brasil em grandes eventos internacionais, como Ano do Brasil na França, e Brazilian Taste Festival, durante a Copa do Mundo na Alemanha.

A convite da Câmara Brasileira do Livro (CBL), para a Bienal do Livro de São Paulo, como curador de gastronomia, criou o evento Cozinhando com palavras, também apresentado na Feira do Livro de Frankfurt (outubro de 2013) e no Salão do Livro de Paris (março de 2015). É também colecionador de menus franceses do período da Belle Époque, tendo feito exposições e publicações sobre o tema. É diretor da Editora Boccato, com mais de uma centena de publicações, várias delas premiadas no Brasil e no exterior, dentre as quais Os banquetes do imperador – Prêmio Jabuti 2014 (melhor livro de história e gastronomia) e Cookbook Gourmand Awards 2014. Atualmente, André Boccato coordena o Observatório da Gastronomia da Prefeitura de São Paulo.


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