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Estado de Minas

'O jogo da amarelinha' ganha nova tradução de Eric Nepomuceno

Lançada em 1963, obra-prima de Julio Cortázar se mantém como um dos livros mais revolucionários da América Latina. Cartas reveladoras do autor enriquecem a edição


postado em 29/05/2019 04:07



"Como escrever um romance, quando primeiro seria preciso des-escrever, des-aprender, começar à neuf, do zero?”

. Julio Cortázar, escritor


“O que estou escrevendo agora será (se algum dia eu terminar) algo assim como um antirromance, uma tentativa de romper os moldes em que esse gênero está petrificado. Penso que o romance ‘psicológico’ chegou a seu fim, e que, se havemos de continuar escrevendo coisas que valham a pena, é preciso arrancar em outra direção. O surrealismo, em seu momento, indicou alguns caminhos, mas ficou na fase pitoresca”. Esta descrição de algo totalmente inovador do ponto de vista literário foi escrita há 60 anos. É o trecho de uma das cartas de Julio Cortázar a Jean Barnabé. Datada de junho de 1959, a correspondência fala sobre o processo criativo de Rayuela, que no Brasil ganhou tradução literal – O jogo da amarelinha –, e faz parte da nova edição lançada pela Companhia das Letras, com tradução do jornalista e escritor Eric Nepomuceno.

Publicado em junho de 1963, o “antirromance” do autor argentino, nascido em Bruxelas, não perdeu sua originalidade com o passar do tempo. Ainda subverte as estruturas narrativas tradicionais, possibilitando várias ordens de leitura – uma convencionalmente linear e outra com capítulos embaralhados, iniciando-se no 73º. Dividida em três partes, a trama trata da trajetória do protagonista Horácio Oliveira em Paris (Do lado de lá) e em Buenos Aires (Do lado de cá). A outra parte se chama De outros lados, definidos também como Capítulos perecíveis.

Em pouco mais de 500 páginas, essa trama subjetiva é permeada por música, filosofia, romance e aspectos da sociedade da época, enquanto o argentino Horacio convive com outros expatriados na capital francesa. Realidade bem conhecida por Cortázar, que viveu nas duas cidades.

Eric Nepomuceno diz que a edição traz uma tradução absolutamente nova. Experiente – traduziu obras de Gabriel García Márquez e Eduardo Galeano –, ele ressalta duas particularidades do processo. “A complicação do Cortázar, especialmente n’O jogo da amarelinha, é a fluidez e o coloquialismo do texto, com palavras repetidas e outros detalhes. Buscar o tom foi a grande dificuldade, tecnicamente falando. Na literatura, como na música, há melodia, dissonância, harmonia, tonalidade. É complicado manter isso, sobretudo num livro de mais de 500 páginas, mas ele mantém isso de maneira magistral. Depois de mais de 50 anos, o livro continua impactando pela inovação e pelas alterações entre humor, melancolia e romance, sem perder a atmosfera”, argumenta.

A outra dificuldade é o fato de não poder mostrar o trabalho a Cortázar (1914-1984), de quem chegou a ser próximo. “Queria muito poder ligar pra ele e falar: ‘Olha, você me pediu e eu consegui’. Mas ele foi embora... Sempre soube que ia terminar a tradução sem poder fazer isso”, revela o brasileiro.

TRIÂNGULO

Eric Nepomuceno não se considera tradutor profissional. “Sou um escritor que traduz os amigos e o que me inquieta”, afirma, definindo tradução como “um triângulo conjugal” em que todos os lados têm que ser fiéis. “Tenho que ser fiel ao castelhano, idioma original do autor e do livro. Tenho que ser fiel ao português brasileiro, o meu idioma. E ainda ser fiel ao livro. O maior elogio que um tradutor pode receber é quando alguém diz: ‘Nem parece tradução’. Quando consigo isso, vale mais que um Jabuti”, afirma Nepomuceno, que ganhou esse prêmio literário três vezes.

O jornalista e escritor, que morou em Buenos Aires, exalta as características que fizeram O jogo da amarelinha se destacar na época que a América Latina conquistou o mundo por meio das obras do colombiano Gabriel García Márquez, do peruano Mario Vargas Llosa e do argentino Jorge Luis Borges. “Quando saiu, esse livro foi uma revolução. Era uma sequência de contos que rompia toda a sequência da escrita pela linguagem coloquial, a transição entre dois mundos, e depois por sugerir uma segunda leitura alterando a ordem dos capítulos. Muito inovador, muito perfeito. Também há a carga meio política, meio premonitória. Os personagens falam do exílio dos argentinos, o que viria a acontecer 13 anos depois do lançamento do livro. Claro que há menções a coisas antigas, algumas que nem mais existem, mas a obra impacta. Ela não envelhece justamente por ter essência moderna, que é permanente. Esse livro vai ser moderno daqui a 30, 40 anos”, garante.

Além do texto original integralmente traduzido por Eric Nepomuceno, a edição da Companhia das Letras inclui cartas relativas à obra, algumas do próprio Cortázar. “Como escrever um romance, quando primeiro seria preciso des-escrever, des-aprender, começar à neuf, do zero, em uma condição pré-adamita, por assim dizer? Meu problema, hoje em dia, é um problema de escritura, porque as ferramentas com as quais escrevi meus contos já não me servem para isso que eu gostaria de fazer antes de morrer”, confidenciou ele ao amigo Jean Barnabé.

Além das cartas de Cortázar, há textos de Haroldo de Campos, Mario Vargas Llosa, Davi Arrigucci Jr. e Julio Ortega sobre o livro. “Escrever é o mais solitário dos ofícios. Cineastas, músicos, pintores podem ver as reações das pessoas a suas obras. O escritor entrega um livro para o editor e sabe-se lá o que acontece. Sobretudo naquele tempo das cartas, é muito reveladora a sinceridade e a mescla rara de singeleza e plena certeza naquilo que se faz, como mostra a correspondência do Cortázar com amigos dele. É algo muito valioso e revelador. É impressionante como ele se abre e se revela”, observa Eric Nepomuceno.

A nova edição de O jogo da amarelinha, com projeto gráfico de Richard McGuire, chega às livrarias em 7 de junho.


O JOGO DA AMARELINHA
. De Julio Cortázar
. Tradução: Eric Nepomuceno
. Companhia das Letras
. 592 páginas
. R$ 109,90


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