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Estado de Minas

Em dia com a psicanálise


postado em 26/05/2019 04:09

É necessário encarar os fatos. É condição sine qua non para nos tornarmos adultos produtivos que alguma coisa falte. Somente o incômodo nos retira do conforto do ninho para nos fazer andar e nos tornar adultos responsáveis, dispostos a pagar o preço de participar da cultura. Gostaríamos de ser exceção. Claro! Porém, isso significa passar a vida demandando ao outro pagar uma conta que não queremos pagar.

Se estamos inseridos no discurso que faz laço social, que nos permite participar de uma comunidade, somos parte dela e precisamos contribuir no sentido de aceitar suas condições. Isso inclui compartilhar, tolerar, aceitar falhas do sistema e trabalhar muito.
No filme Alfa (2018), disponível na Net, um pai de uma tribo nômade na Era do Gelo ensina ao filho que ele deverá caçar e não esperar que alguém faça por ele. Deixo aos curiosos o segredo do filme. O segredo de toda vida: sobreviver por conta própria. Vale a pena conferir a metáfora.

Sair da adolescência, perder o amparo dos pais, deixar a demanda de receber do outro eternamente, ser defendido. Ora, cada um de nós precisa fazer isso por si mesmo ou não sobreviverá de modo digno.

É dever dos pais e educadores ensinar a lidar com a falta. Saber jogar seu filho para fora de sua proteção, para que ele faça seu papel de adulto, e aqueles que não fizeram assim, erraram feio. Não são poucos. Mas é preciso reverter, reconhecer a necessidade de deixar o outro se virar.

Não é falta de amor, é amor de verdade. A parte mais difícil da educação que obriga o educador também. Ele perde o narcisismo de dar aos filhos tudo que seus pais não lhe deram e poderiam ter dado. Pretende, para compensar o que lhe faltou, dar tudo que não teve. Impossível. Tampa a cabeça e descobre os pés. Nossa herança é um real sempre faltoso, nunca o paraíso.

Separar é preciso. Dar conta da vida para sair da obscenidade imaginária da eterna maternagem. Mesmo que a mãe insista e esteja sempre pronta e alerta para completar o que te falta. Prefira a falta à ilusão frequente da fusão com o outro para ser poupado.

Distribuir a tarefa de ser protegido e odiar o limite do outro é fácil. Difícil é encarar. Deixemos cair a ficha mesmo com mil desculpas para continuar na culpa. Na angústia da falta de limites. A angústia vem quando falta separação, quando o outro está em cima demais nos esmagando, nos subjugando a servir e faz a vida não valer a pena.

É fácil? Não! Mas é preciso sair com leveza deste embaraço. Cada um é inventor de seu próprio jeito de lidar com o desamparo fundamental no qual nasceu. Melhor entender que viveu pelas mãos do outro, mas isso tem prazo. Ninguém pode carregar para sempre a conta do que veio por suas mãos, que não quer crescer e aceitar a realidade de que tem de se virar sozinho. Pode ter certa ajuda em algum momento, mas não toda e sempre.

Freud nos avisou muito tempo atrás: pais, não mimem seus filhos, pois eles exigirão do mundo e de você a mesma atenção e ficarão despreparados diante de qualquer falta. Estarão selando o insucesso desta cria por causa deste engano amoroso.

Para sempre arcarão os pais e os filhos com o preço de uma cobrança indevida. E a criança crescerá na ilusão de que o mundo lhe deve mais, lhe deve o mesmo quantum de amor a que foi habituada a receber. É seu direito. Ferraram os pais, ferraram-se os filhos.
Precisamos nos responsabilizar pela vida integralmente e não viver de ideais nos quais se espera encontrar num futuro que nunca chega. O futuro é hoje. As contas vencem. Contas relativas à própria vida e à vida comum. Viver recomeçando o que não deu certo e, portanto, sempre pedindo que os pais suportem mais um pouco pelos seus descaminhos é jogar a conta no bolso do outro.

Estaremos expostos também aos sintomas desta construção imperfeita, efeitos colaterais da existência de um real que sempre traz um furo na harmonia ideal; isto é bom, nos prepara para a sermos livres do outro. Doador perene de afeto, dinheiro, ou seja lá do que for, não existe. Não há colo eterno. É preciso sair da condição de eterno fragilizado, eterno injustiçado. A vida, embora seja dádiva, não é um presente para saborearmos: é conquista e luta.


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