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Estado de Minas

É O FIM

Game of thrones termina hoje com uma dura batalha sendo travada fora da tela para reconquistar a admiração de fãs da série, decepcionados com os rumos desta temporada final. Roteiristas são criticados por ações dos personagens consideradas incoerentes com sua trajetória


postado em 19/05/2019 04:09

A reviravolta na personalidade de Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) exibida no quinto e penúltimo episódio da série foi motivo de indignação para muitos fãs de Game of thrones(foto: FOTOS HBO/DIVULGAÇÃO)
A reviravolta na personalidade de Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) exibida no quinto e penúltimo episódio da série foi motivo de indignação para muitos fãs de Game of thrones (foto: FOTOS HBO/DIVULGAÇÃO)

O último episódio de Game of thrones, que será exibido neste domingo (19), às 22h, pela HBO, coloca o ponto final na maior produção televisiva já realizada, considerando-se os recordes de audiência, orçamento e prêmios recebidos nas sete temporadas anteriores da série. Além de números expressivos, a produção criada por David Benioff e D. B. Weiss, baseada nos romances de As crônicas de gelo e fogo, de George R. R. Martin, conquistou uma legião de fãs intensamente apaixonados pela trama.

Porém, ter cativado tanta gente tornou a dupla de produtores perigosamente responsável pelas expectativas de quem aguardava há quase dois anos pelo desfecho de sua história predileta. Depois de cinco dos seis capítulos finais irem ao ar, o grand finale chega cercado de reclamações, desapontamentos e críticas, feitas por quem mais amava o seriado.

Os acontecimentos da temporada final foram tão inaceitáveis para uma parte do público que até uma petição on-line foi criada pedindo sua completa refilmagem. O documento ultrapassou as 500 mil assinaturas no site Chance.org na quinta-feira passada, três dias portanto antes do episódio final. Além desse protesto formalizado, as redes sociais foram tomadas nas últimas semanas por comentários de desaprovação.

Muitos dos comentários eram recheados de termos técnicos como “arma de Tchekhov” (segundo o dramaturgo russo Anton Tchekov, se uma arma é mostrada no primeiro ato de uma peça, ela deve reaparecer até o último) e “Deus ex-machina” (este para se referir a um conflito encerrado com uma solução simples e inesperada), entre outros argumentos para condenar as falhas dos roteiros. As discussões, dignas do futebol, no qual qualquer torcedor costuma arriscar palpites mais elaborados sobre o tema, mostram que o interesse do público pelas minúcias da produção audiovisual está em alta.

“O povo está mais atento. Hoje, o público sabe o que é uma trilha, um arco de um personagem. Sabe identificar quando o roteiro extrapola em algum ponto e por quê. É um fenômeno que ocorre em várias áreas. Na medicina, por exemplo, qualquer um pode entrar no Google e ficar sabendo de milhares de informações sobre uma doença. Estamos muito mais bem informados. O mesmo acontece com roteiro. Até uma criança já sabe o que é um flashback”, afirma o roteirista Doc Comparato. Com décadas de carreira, Comparato se tornou uma espécie de guru quando o assunto são técnicas de roteiro. Ele acaba de lançar uma versão atualizada de seu livro Da criação ao roteiro: teoria e prática (Summus). A nova edição inclui aspectos como criação para streaming, realidade virtual, webséries, game e inteligência artificial.

“Você pode ter contradições, mas nunca incoerências. São palavras mágicas. Pode ser ficcional, mas nunca perder a credibilidade”, afirma Doc Comparato, que diz acompanhar Game of thrones “apenas por alto”, por não apreciar fantasias. Para o roteirista de séries nacionais como Mulher (1998), O tempo e o vento (1985) e Lampião e Maria Bonita (1982), a insatisfação em casos como o de GoT se deve também ao comportamento passional dos espectadores.

INFANTILIZAÇÃO “Todo mundo se acha roteirista. Isso é normal. E aí você tem uma expectativa muito alta e não vai satisfazer o público por completo. É impossível. Mas, mesmo assim, as pessoas assistem. Não sei o que elas buscam, o que elas querem. Mas há também o processo da infantilização do adulto. As pessoas estão tão preocupadas com Game of thrones. Não sei se talvez deveriam estar mais preocupadas com outras coisas. A humanidade sempre teve esse processo de fanatismo e fãs sempre pedem mais, nunca estão satisfeitos, mas também nunca abandonam o produto”, diz ele.

A julgar pelas declarações de muitos fãs nas redes sociais, o que eles queriam era um desfecho mais condizente com o que foi apresentado nas temporadas anteriores e com as motivações de cada personagem. Muitos estranham, por exemplo, o confronto contra o Rei da Noite (Vladimir Furdik), chamado ao longo de toda a trama de “A Grande Guerra” ter sido sumariamente resolvido. Outros questionam o destino da rainha Cersei (Lena Headey), vilã mais poderosa e cruel da trama, que não teria tido um fim à sua altura, além de algumas profecias que foram desprezadas.

No penúltimo episódio, exibido domingo passado, a personagem Daenerys Targaryen (Emilia Clarke), uma das protagonistas e muito querida pelo público pela personalidade forte em sua trajetória de conquistadora e libertadora, decepcionou muita gente ao se enfurecer e matar várias pessoas inocentes.

Ainda que Game of thrones tenha como características mais exaltadas as reviravoltas imprevisíveis e a complexidade de personagens, quase nunca totalmente bons ou maus, as surpresas dessa vez não agradaram. Os principais alvos da insatisfação foram David Benioff e D. B. Weiss, mentores da série e roteiristas dos últimos três episódios, precisamente os mais criticados. Os dois primeiros da atual temporadaforam escritos por Dave Hill e Bryan Cogman, respectivamente). A temporada final de Game of thrones também foi criticada por falhas técnicas, como um episódio escuro demais e até um copo de café esquecido no set, que acabou aparecendo em uma das cenas.

Por outro lado, no entendimento de Doc Comparato, o calor do momento também pode influenciar nas avaliações do público. “É preciso pensar quando o roteirista escreveu isso. Há mais de um ano? Às vezes, agora a cabeça e o coração estão em outro lugar. O maior prazer do roteirista não é o produto feito, mas quando se escreve. Quando o produto é finalizado e exibido, depois de um tempo, muita gente muda de opinião. Existem três juízes do nosso trabalho: o público, a crítica e o tempo. Se você vencer este último, você venceu. Muitas coisas são consideradas um fracasso quando saem, mas depois viram sucesso. Numa série, você pode fazer algo só para agradar aos fãs, ou o tempo pode provar que você estava certo”, defende o roteirista brasileiro.

Com sua relação com os maiores admiradores de Game of thrones posta à prova nesta temporada final, D & D, como são chamadas os dois realizadores, devem lidar com outro público muito complexo em breve. A dupla será responsável por uma nova trilogia de Star wars, que deverá ser lançada em 2022, em continuação à trama que se encerra ainda neste ano com o Episódio IX: A ascensão de Skywalker, cuja estreia está marcada para dezembro.


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