Conteúdo para Assinantes

Continue lendo ilimitado o conteúdo para assinantes do Estado de Minas Digital no seu computador e smartphone.

price

Estado de Minas Digital

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas digital por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Estado de Minas

De novo o bloco na rua

Diverso, genial %u2013 e mesmo assim relegado ao lado B da MPB %u2013, obra de Sérgio Sampaio ainda ecoa 25 anos após sua morte. Cantor e compositor sofreu com pecha de maldito


postado em 18/05/2019 04:12

Em 1972, compacto do artista vendeu mais de 500 mil cópias, mas o fato de não se enquadrar no perfil das gravadoras foi fatal (foto: SARAVÁ DISCOS/DIVULGAÇÃO %u2013 28/10/11)
Em 1972, compacto do artista vendeu mais de 500 mil cópias, mas o fato de não se enquadrar no perfil das gravadoras foi fatal (foto: SARAVÁ DISCOS/DIVULGAÇÃO %u2013 28/10/11)


Talvez pela profusão de grandes artistas, o Brasil se permita, em uma injustiça cruel, relegar ao lado B um compositor diverso e genial como Sérgio Sampaio, morto há exatamente 25 anos. Turrão e inquieto, Sampaio era aquele que disse “eu quero é botar o meu bloco na rua”. E botou, mas não só. Lançou, em vida, três discos sólidos e inventivos e deixou também um trabalho póstumo de qualidade reconhecida.

Mesmo assim, ficou escanteado quando o assunto era o primeiro time da MPB, marcado com a pecha de maldito, longe das listas então ditadas pelo marketing das gravadoras. O interesse pela obra do compositor se reacendeu nos últimos anos. Relançamentos em LP dos três discos dele em vida e um documentário em produção provam que o “velho bandido” continua atual e necessário.

Sampaio, já disseram, era o Garrincha da MPB. Os dribles tortos se manifestavam na briga contra o óbvio, na verve afiada e — por que não? — no bom humor cínico e irônico. Como Garrincha, o botafoguense Sérgio Sampaio conheceu o sucesso, o ostracismo e a lama, muito por causa dos excessos, mas também por causa do brilhantismo e da recusa a se entregar a um sistema com o qual não concordava. Morreu aos 47 anos, vítima de uma pancreatite, mas até o fim continuou produzindo.

Pouco antes de morrer, Sampaio estava animado, apesar da doença, para gravar o primeiro CD — os anteriores foram lançados em LP. Acreditava nas canções que levaria para o estúdio e com elas esperava, de um certo modo, recomeçar. A irmã, Mara Moraes Sampaio, lembra com emoção a despedida de Sérgio. Já debilitado, ele passou algumas semanas com a família em Cachoeiro de Itapemirim (ES).

DESPEDIDA

Em 4 de abril de 1994, Sampaio foi embora para o Rio de Janeiro, onde faria as gravações do novo álbum. Antes de sair, autografou uma foto e deixou para Mara — o que nunca havia feito. A relação dos dois era de muita proximidade. “Enquanto a gente se abraçava, ele falou no meu ouvido: ‘Eu vou para o Rio, vou gravar meu CD, eu vou ganhar dinheiro e mandar para você, porque você não vai ter a vida sofrida que a nossa mãe teve. Eu não vou deixar’”, recorda.

A personalidade difícil e a teimosia, diz Mara, eram uma herança do pai, Raul Sampaio, também músico — autor de Cala a boca, Zebedeu, gravada pelo filho “Sérgio não era fácil. E ele começou a beber com 16 anos. Era um boêmio. Dormia muito tarde e acordava tarde também. Aí, ninguém podia falar com ele, porque ele não conversava com ninguém até tomar o café. Quando voltava a tomar uísque é que começava a ser mais sociável”, lembra.

Megassucesso, mas ‘fora da caixinha’

Sampaio se destacou no cenário nacional em 1972, com Eu quero é botar meu bloco na rua, apresentada inicialmente no IV Festival Internacional da Canção. O compacto com a música vendeu cerca de 500 mil cópias. Esperava-se daí que Sampaio fizesse, em série, músicas com o mesmo potencial mercadológico, mas não era para isso que tinha saído adolescente de Cachoeiro de Itapemirim — cidade do Espírito Santo, que é também terra natal de Roberto Carlos e Rubem Braga. Sampaio fez o que queria, deu de ombros para a estrutura de divulgação da gravadora e ficou malvisto pelos executivos da música.

“Eu gosto de pensar que ele foi agente da própria carreira e que essas escolhas foram conscientes. Ele abriu mão do que estava se prometendo ali para ele, porque não era naquilo que ele acreditava”, diz o filho, João Sampaio, 36 anos. “Eu tenho um puta orgulho disso. Mostra que ele era um cara que, além de tudo, tinha princípios muito firmes. É claro que ele sofreu o peso das escolhas que fez”, completa.

Por causa desse perfil e da música de vanguarda — misturando samba, blues, choro, uso de efeitos sonoros atípicos e uma poesia cortante e precisa —, Sampaio foi classificado pelas gravadoras como maldito, ao lado de nomes como Luiz Melodia e Jards Macalé. “Malditos por quê? Para quem? Eles eram benditos, na verdade, porque receberam um talento grande demais e souberam usar”, questiona o cantor e compositor Xangai, amigo e compadre do cantor. “Sérgio Sampaio era uma espécie de vulcão, sempre efervescente, sempre um excelente compositor.”

Foi Xangai quem, no fim da vida do artista, conseguiu recolocar Sampaio nos eixos, conta o músico e atesta João Sampaio. “Ele bebia demais, fumava demais. A gente quer que as pessoas talentosas tenham saúde para mostrar o que fazem. Então, um dia eu ralhei com ele, repreendi muito duramente. Amigo não é só quem fala o que a gente quer ouvir, não. É quem fala o que precisa ser dito. Desse dia em diante, ele nunca mais bebeu”, detalha Xangai. A história se passou no início dos anos 1990.

Mas já era tarde, diz João. “A partir daí, as coisas meio que se clarearam. Esse foi o momento de maior sobriedade do meu pai, quando ele foi de fato o que ele era, mas quando ele pisou no freio, não era mais suficiente.” Sampaio morreu em 1994.

João reconhece a atualidade da obra do pai, mas lamenta que as letras mais duras de Sampaio façam tanto sentido hoje, em tempos de intolerância e obscuridade. “Preferia que ele ficasse datado, e a gente não precisasse viver as letras dele na pele. Fico triste de saber que caminhamos para viver o que ele escreveu em Filme de terror e não em Quem é do amor”, diz. Apesar de tudo, ainda resta esperança, porque, como o próprio Sampaio escreveu, “o pior dos temporais aduba o jardim”.



DISCOGRAFIA

Sessão das 10 (1971)
• Cultuado disco gravado com Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Miriam Batucada e Edy Star (Sociedade Grã-Ordem Kavernista). Fruto também da relação de amizade entre Sampaio e Raul. 12 faixas. Polysom. Preço médio em LP: R$ 110

Eu quero é botar meu bloco na rua (1973)
• Primeiro disco solo. O álbum traz a música título e outros clássicos, como Pobre meu pai, Eu sou aquele que disse e Não tenha medo, não. 12 faixas. Polysom. Preço médio em LP: R$ 110. Disponível nas plataformas digitais

Tem que acontecer (1976)
• Álbum em que explora mais as possibilidades do samba. Tem canções como Velho bandido, Cada lugar na sua coisa e Cabras pastando. 12 faixas. Noize Record Club. Esgotado em LP. Disponível nas plataformas digitais

Sinceramente (1982)
• Disco independente. Último lançado em vida, com as faixas Nem assim, Sinceramente, Homem de trinta e Na captura. 11 faixas. Três selos. Preço médio: R$ 120. Disponível nas plataformas digitais

Cruel (2006)
• Álbum póstumo, lançado a partir de demo recuperada por Zeca Baleiro. Estão no disco Brasília, Quem é do amor, Roda morta, Em nome de Deus. 12 faixas. Saravá Discos. Disponível nas plataformas digitais

Memória

Canções recuperadas

No momento de sobriedade, com apoio de Xangai gravou as fitas-demo para um disco novo. Não conseguiu lançar o álbum, mas o registro foi recuperado pelo cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro, que colocou Cruel nas ruas em 2006. “Para mim, ele é um dos maiores da constelação musical brasileira. Sérgio foi um compositor brilhante, um poeta porreta, um melodista primoroso e ainda era um baita cantor! Se estivesse vivo, não tenho dúvidas, sua plateia hoje seria feita de jovens curiosos”, diz Zeca. Entre as canções divulgadas por Baleiro está Brasília, uma das mais belas homenagens em música à capital federal. “Sei que preciso aprender/Quero viver para saber/E conhecer Brasília”, escreveu Sérgio. A composição é fruto de uma temporada de Sampaio na capital federal em 1993. Ele foi recebido pelo amigo Roberto Valadão, então deputado federal pelo Espírito Santo, em apartamento funcional na 302 Norte. Sóbrio, vivia momento de vigor criativo.


Daqui para o futuro

Vem aí documentário

Está em produção documentário sobre Sérgio Sampaio. O filho, João Sampaio, e o cineasta Hugo Moura tocam o projeto. “A ideia é que seja um filme em que ele se torne narrador da própria história, fugir daquele padrão comum de documentário musical. Deve ser lançado no ano que bem”, conta João. “Com muita pesquisa, Hugo conseguiu imagens raríssimas, que ninguém fazia ideia que existissem.” Recentemente, foram relançados os três LPs de Sampaio. Eu quero é botar meu bloco na rua e Sinceramente ainda podem ser encontrados nas lojas. O segundo disco, Tem que acontecer, saiu no fim de 2018, mas já está esgotado. Todos os álbuns podem ser ouvidos nas plataformas digitais.


Publicidade