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Estado de Minas

Multiartista revisitado

Longa Tunga, o esquecimento das paixões celebra a obra do escultor e desenhista, morto em 2016, e destaca 'identificação humanitária' no trabalho do pernambucano


postado em 12/05/2019 05:07

Por meio de desenhos, esculturas e performances, Tunga mergulhou no universo da literatura, filosofia, psicanálise, teatro, cinema e ciência(foto: Gabi Carrera/Divulgação)
Por meio de desenhos, esculturas e performances, Tunga mergulhou no universo da literatura, filosofia, psicanálise, teatro, cinema e ciência (foto: Gabi Carrera/Divulgação)

Em cartaz no Cine Belas Artes, o longa-metragem Tunga, o esquecimento das paixões não é um documentário convencional. “Não é jornalístico, artístico, nem sobre a obra. É mais uma criação que fiz da personalidade artística e criativa do Tunga e de seu pai, Gerardo, personagens que sempre me interessaram”, afirma o realizador Miguel De Almeida.

Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão (1952-2016), o Tunga, é um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira. Sua obra trata de literatura, filosofia, psicanálise, teatro, cinema e ciências por meio de desenhos, esculturas e performances. “Sua visão de cultura não é territorial ou geográfica. Sua obra tampouco busca uma identidade nacional, mas, sim, uma identificação humanitária”, continua Miguel ao falar sobre o pernambucano nascido em Palmares.

É por intermédio de suas ações criativas e do seu pensamento que sua trajetória vem à tona. As imagens são intercaladas com a voz de Tunga, a narração da cantora Marina Lima (que atua como um alter ego do próprio Miguel De Almeida) e depoimentos de pessoas que conviveram com ele – como os artistas Miguel Rio Branco e Cildo Meireles e o criador do Museu Inhotim, o empresário Bernardo Paz.

Mas o diretor não entrega o jogo facilmente. Os personagens não são identificados (somente nos créditos aparece quem é quem). “Uso as frases deles para construir uma narrativa, tanto que as falas não estão coladas nas imagens, não são causais”, detalha Miguel, acrescentando que o longa não é um “filme para iniciados” na obra do Tunga. “É um filme para pessoas que não conhecem arte, que não tenham ideia de quem seja Cildo ou Bernardo, que vão vê-los como personagens que trazem informações interessantes e narrativas, mas não jornalísticas.”

Miguel entrou no projeto por causa de sua proximidade com Tunga e seu pai, Gerardo. Gerardo Mello Mourão (1917-2007) é um personagem deveras interessante. Poeta e jornalista cearense, chamado de “o nosso Dante” por Hélio Pellegrino, foi integralista – esteve preso inúmeras vezes durante o Estado Novo, de Getúlio Vargas. Chegou a ser acusado de colaborar com os nazistas – Oscar Niemeyer, comunista notório, foi um dos nomes que saíram em sua defesa. Já na Ditadura Militar foi acusado de comunista, quando voltou a ser detido.

Miguel foi muito amigo de Gerardo. A amizade com Tunga veio, segundo o diretor, “herdada”. O projeto do filme nasceu com Tunga ainda vivo. “Nossa ideia era a de fazer um documentário fake, em que ele seria um personagem hipotético que andaria por vários lugares do planeta atrás de material para a construção de uma obra. Seria, então, uma ficção mentirosa sobre um trabalho que jamais existiria”, relembra o diretor. Com a doença de Tunga – morto em junho de 2016 em decorrência de um câncer na garganta – Miguel teve de rever o projeto.

PERFORMÁTICO O filme traz trechos de uma conversa que o diretor havia feito com o artista e o registro de algumas performances. Também reúne muitas imagens em Inhotim – a instalação True Rouge foi a primeira obra no centro de arte em Brumadinho, que, além de ter recebido performances de Tunga, inaugurou em 2012 a Galeria Psicoativa, dedicada ao trabalho do artista.


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