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A historiadora Heloisa Starling lança hoje em BH Campus UFMG, livro em que narra os bastidores da instalação da cidade universitária na Pampulha, suas grandes conquistas e algumas lendas que envolvem a vida no espaço


postado em 11/05/2019 05:09

Vista do conjunto de lagos em frente ao prédio da Reitoria da UFMG. A história do projeto arquitetônico, que foi alvo de polêmica, é contada no livro de Heloisa Starling (foto: Bianca de Sá/Papelícula/Divulgação)
Vista do conjunto de lagos em frente ao prédio da Reitoria da UFMG. A história do projeto arquitetônico, que foi alvo de polêmica, é contada no livro de Heloisa Starling (foto: Bianca de Sá/Papelícula/Divulgação)


Como estudante, professora e vice-reitora (gestão 2006 a 2010), Helosia Starling tem uma relação mais do que catedrática com a Universidade Federal de Minas Gerais. Historiadora das mais reverenciadas do país, seu mais novo livro narra de modo particular uma história que envolve política, aspectos importantes da urbanização de Belo Horizonte e afeto. Nas 158 páginas de Campus UFMG, o 33º livro da coleção BH: A cidade de cada um, da Conceito Editorial, que tem lançamento neste sábado (11) em Belo Horizonte, Heloisa conta como se deu a formação da sede da instituição federal de ensino na Pampulha, a partir de visões pessoais, registros documentais e também algumas lendas.

“Queria uma narrativa que levasse os membros da comunidade, servidores, professores e, especialmente os estudantes, a conhecer o lugar em que eles estão vivendo e também mostrar que ele não é um local só de passagem”, diz a autora. Ela própria revela ter aprendido essa lição desde cedo, com a tia Isa Starling, a quem dedica a obra e agradece pelos ensinamentos “dos caminhos do Campus”. “Vivi a UFMG intensamente de três maneiras e juntei tudo numa história só, que reúne jeitos pouco usuais de contar sobre o Campus”, afirma a professora titular do curso de história e coordenadora do Projeto República: núcleo de pesquisa, documentação e memória da UFMG.

Cronologicamente, a narrativa começa muito antes da experiência pessoal da historiadora. Embora não o faça de maneira sistemática ou institucional, ela resgata as origens do Campus, que começou a ser construído em 1946, em um terreno descrito no texto como “um lugar desimportante na periferia da cidade. Inóspito, o solo erodido, a vegetação rala, brejo, cerrado e capim”. Dá destaque para as motivações para a formação de um “centro universitário”, idealizado pelo primeiro reitor, Mendes Pimentel, que, segundo a autora, só viria a ganhar a denominação de Campus na década de 1980. A história inclui as movimentações políticas, urbanísticas e outros detalhes de bastidores que levaram à formação da estrutura que conhecemos hoje.

Outros tipos de relato dão à prosa um ritmo distante dos relatos históricos formais. No capítulo O assobio do saci: árvores, gramados, flores e passarinhos, o leitor tem uma boa dimensão da diversidade ecológica presente no Campus, com casos reais e outros presentes no imaginário coletivo da comunidade universitária. Além de lembrar de episódios como os protestos estudantis em defesa da Estação Ecológica, durante os anos 1990, Heloisa lista personagens inusitados, como o saci que supostamente vive na área de preservação. “O saci é famoso no Campus. Quando tomei posse na vice-reitoria e fui com o reitor (Ronaldo Tadêu Pena) à estação, nos contaram essa história. Brinco que é um segredo que o reitor passa para outro reitor.”

AVES

A autora também descreve passagens curiosas sobre a fauna local, sobretudo as aves, que despertavam nela um interesse particular. “Ficava pensando por que será que os urubus sempre escolhiam o telhado da Fafich (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas). Ouvi dos especialistas do ICB (Instituto de Ciências Biológicas) que é porque eles não fazem ninhos e procuram fendas para pôr os ovos. Então subi lá para conferir”, relata a historiadora, que diz “ter dado muito trabalho para os seguranças” enquanto preparava seu livro.

Em outra ocasião, curiosa pela história do pássaro mãe-da-lua, de hábitos noturnos, ficou até de madrugada no Campus para observar a espécie confundida por alguns com uma assombração. “Ele é branco, meio acinzentado e não faz barulho. O sujeito vê aquilo e pensa que é um fantasma. Uma vez consegui ver, mas fui abordada pelo segurança: ‘Professora, a senhora está fazendo o quê aqui às duas da manhã?”, relembra Starling.

Em alguns momentos, ela insere perspectivas imaginárias em casos reais, como no episódio em que o gramado do prédio da reitoria foi cercado para proteger o ninho dos quero-quero que ali viviam. No texto, ela diz que a única pessoa que tinha “relações cordiais” com as aves, conhecidas por dar rasantes em qualquer um que passe por ali, foi a vice-reitora Rocksane Norton (2010-2014), responsável pessoalmente pela iniciativa protetiva. “A história do cercamento é verdade, mas, certamente, a ideia de que os quero-quero recebem educadamente a vice-reitora é por minha conta”, revela.

As liberdades que Heloisa tomou em seu livro têm a ver com o alcance que ela ambiciona para ele. “É uma história que eu queria contar para o maior número possível de pessoas. Não só para os acadêmicos. É hora de os historiadores e todos na universidade falarem para um maior número possível de pessoas. Esse livro foi uma pesquisa enorme, sou historiadora e foi um trabalho nesse sentido. Usei uma preciosidade, que é o Boletim UFMG, e há uma bibliografia completa no final, com os textos e outras fontes que utilizei. Quando entram especulações ou versões, isso é avisado ao leitor”, explica Heloisa.

O tom bem-humorado de muitos dos registros e casos reunidos não ofusca o aspecto que talvez seja o principal na publicação. Os cinco capítulos se iniciam com uma história de movimentação política, seja de resistência ou enfrentamento. Isso inclui duas tentativas de intervenções governamentais arbitrárias, uma de Getúlio Vargas, nos anos 1930, e outra da ditadura militar, em 1964, evitadas pelos reitores Mendes Pimentel e Aluísio Pimenta, respectivamente.

Outras figuras importantes, que inclusive dão nome às vias do Campus, têm suas histórias contadas, como a pesquisadora do ICB Conceição Ribeiro da Silva Machado. Ao receber o título de professora emérita, em 31 de outubro de 1997, ela surpreendeu e emocionou quem estava presente com um discurso sobre as bruxas e como o conhecimento produzido pelas mulheres foi queimado no passado.

AUTONOMIA

 “Contei sobre as formas de imaginação no Campus, que tem fantasmas, bruxa, saci. Mas, sobretudo, quero atrair as pessoas para conhecer a história da UFMG e de como a universidade construiu seu caráter, no sentido de garantir a autonomia universitária, de se opor a qualquer forma de ingerência das religiões, do governo, de construir valores ligados ao meio ambiente e de como espalhou a ideia de liberdade e de soberania da comunidade universitária em tempos sombrios”, afirma a autora.

Para a atual comunidade da UFMG, Heloisa dirige um lembrete. “A experiência no Campus é de pluralidade do conhecimento. As pessoas passam o dia todo aqui. Elas têm que pensar naquilo que estão construindo aqui. Posso passar o dia no meu laboratório, mas, quanto mais áreas se encontram, mais rico é o processo. O Campus é um lugar de manifestação da cultura e discutir as divergências é fundamental. Para entender cada questão, é fundamental conhecer o ponto de vista de várias áreas. Por exemplo, os acontecimentos em Brumadinho. O que as humanas pensam? Quais estudos o Instituto de Geociências (IGC/UFMG) possui a respeito? Como a saúde pode atuar? Várias áreas do conhecimento contribuem com a sociedade e, no Campus, elas se encontram almoçando na Praça de Serviços, indo a um evento cultural, seja um show ou uma peça de teatro no auditório da Reitoria”, diz.

Diante dos recentes anúncios por parte do governo federal que indicam cortes de 30% no orçamento das universidades federais, a historiadora que exerceu o cargo de vice-reitora na última década espera que a história contada por ela sobre a UFMG seja um instrumento a mais de valorização e defesa da instituição. “Na universidade federal há uma vitalidade enorme na produção do conhecimento. Ela produz, distribui e dissemina. Se nós perdermos isso, perdemos um projeto de país. Se queremos um Brasil que consiga criar recursos e distribuí-los de forma equânime para gerar bem-estar e minimizar as dores da sociedade, um dos lugares onde isso é feito é na universidade pública, nas diversas áreas do conhecimento que ela abriga. Nenhuma instituição democrática se defende sozinha. Todas as vezes que a UFMG foi ameaçada, ela recebeu apoio da sociedade”, argumenta Helosia Starling, que conclui: “A história da UFMG é uma história bonita. O estado e o país devem sentir orgulho dela”.

TRECHO
“Hoje em dia o prédio da Reitoria está cansado e precisa de reformas. (…) Mas convenhamos: é a mais bela edificação do campus. Não há reitor que não se sinta um pouco mais jovem e um tanto sonhador quando entra ali no primeiro dia de trabalho. E essa é só uma parte da história do prédio. Se você subir ao último andar ou, melhor ainda, conseguir engambelar o Roanan ou o Ian na portaria – uma dura empreitada, pois os dois são espertos e –competentes naquilo que fazem – para chegar até o telhado, onde existe uma espécie de terraço de acesso restrito, respire fundo e experimente olhar para baixo. Aprecie a surpresa. O conjunto de lagos em frente ao edifício reconstrói simbolicamente a bandeira do Brasil. Está lá o losango, o círculo, a faixa que o atravessa e até as estrelas evocadas pelas pedras empilhadas a partir do fundo do lago.”


Campus UFMG
Heloisa Murgel Starling
Conceito Editorial
(Coleção BH. A cidade de cada um; 158 págs.)
R$ 25

Lançamento neste sábado (11), às 11h, na Livraria do Ouvidor (Rua Fernandes Tourinho, 253, Savassi).  
Entrada gratuita.


"Se queremos um Brasil que consiga criar recursos e distribuí-los de forma equânime para gerar bem-estar e minimizar as dores da sociedade, um dos lugares onde isso é feito é na universidade pública, nas diversas áreas do conhecimento que ela abriga. Nenhuma instituição democrática se defende sozinha. Todas as vezes que a UFMG foi ameaçada, ela recebeu apoio da sociedade"

. Heloisa Starling,
historiadora


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