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Estado de Minas

'Mormaço' aborda o verão que mudou a cara do Rio e o corpo de uma mulher

Longa de Marina Meliande, que estreia nesta quinta (9), busca o tom da fábula para abordar o impacto das mudanças violentas na paisagem das metrópoles sobre os corpos de seus moradores


postado em 09/05/2019 05:14

Marina Provenzano é Ana, defensora pública cujo prédio está na rota das desocupações para a Olimpíada de 2016 e que presta assistência a comunidades ameaçadas(foto: Vitrine Filmes/Divulgação)
Marina Provenzano é Ana, defensora pública cujo prédio está na rota das desocupações para a Olimpíada de 2016 e que presta assistência a comunidades ameaçadas (foto: Vitrine Filmes/Divulgação)

Quanto a transformação de uma cidade altera também nossos corpos? Esse é o questionamento principal na trama de Mormaço, da diretora carioca Marina Meliande, que estreia nesta quinta-feira (9) em Belo Horizonte. O longa-metragem, filmado e ambientado no Rio de Janeiro no momento em que a cidade se preparava para receber a Olimpíada de 2016, mostra a capital fluminense chacoalhada pelas obras e parte de sua população sofrendo com ordens de despejo e abusos do poder público e econômico.

Nesse contexto, uma mulher faz jus à expressão envolver-se “de corpo e alma”, quando sua defesa da moradia de uma comunidade ameaçada e o caos instalado na rotina dos cariocas começam a estabelecer uma relação misteriosamente direta com sua pele. Como se nota, a história mistura acontecimentos reais com fantasia e suspense.

Ana (Marina Provenzano) é uma defensora pública. O prédio em que vive – antigo e de classe média – está na rota das desocupações para dar lugar a um moderno hotel. Enquanto isso, ela trabalha para proteger a comunidade da Vila Autódromo, que sofre com a mesma situação, porém em termos mais agressivos. Nesse desgastante processo de enfrentamento com forças políticas e empresariais, ela passa a lidar também com uma transformação enigmática em seu corpo. O que parecia ser uma alergia ou sintoma de alguma doença vai se tornando um fenômeno misterioso e complexo, relacionado aos acontecimentos do cotidiano da cidade.

“Eu queria uma protagonista feminina que levasse essa história com ela, como parte de um profundo sentimento de desconforto sobre a minha cidade, que passava por um processo urbanístico violento. Queria que fosse uma personagem que lidasse com isso”, afirma a diretora, que assina também o roteiro, com a colaboração de Felipe Bragança. “Minha principal pergunta era como os corpos reagem a essas mudanças, porque nem sempre reagimos racionalmente e nossa pele também é instrumento de mediação do mundo”, diz.

Segundo a diretora, a personagem principal “foi desenhada junto com a cidade”. “Como um corpo feminino reage a esse acúmulo, num calor enorme, úmido, ao longo do verão mais quente da história do Rio, numa cidade cheia de poeira, imersa nesse mormaço que cria uma sensação de sufocamento e pressão, que é também a pressão do que acontece politicamente?”, diz Meliande, ao descrever a situação em que Ana se encontra.

O resultado é uma mulher competente em sua luta pela Vila do Autódromo e que, ao mesmo tempo, lida com a própria incerteza habitacional e de sua vizinhança, que ganha a companhia temporária do arquiteto Pedro (Pedro Gracindo), responsável por avaliar os imóveis. A presença dele é outro fator que torna a trajetória de Ana ainda mais complexa.

DESPEJO A relação da profissional com os moradores da Vila Autódromo é sustentada em muitos acontecimentos reais. O local, próximo ao circuito de Jacarepaguá, foi alvo de ordens de despejo justificadas pelas obras do Comitê Olímpico Internacional, com seguidas ações da guarda municipal contra os moradores que não abriam mão de permanecer nas residências. Marina Meliande explica que, no roteiro inicial, a história se passaria numa vizinhança fictícia e que foram feitas pesquisas em várias vilas cariocas ameaçadas pelos despejos. No entanto, um motivo especial inclui a do Autódromo no filme.

“Nessa comunidade, especificamente, fiquei impressionada em ver como os moradores se organizaram, com muitas lideranças femininas. Mulheres fortes, inteligentíssimas, com estratégias de ocupação desse espaço e resistência contra a prefeitura, que destruía casas já abandonadas e deixava os escombros, para criar um ambiente péssimo e forçar os outros a sair. Eles organizavam eventos e debates de nível acadêmico sobre as remoções”, conta a cineasta.

Segundo Marina, o envolvimento da população local com o projeto foi grande. “Sentíamos que fizemos o filme com eles, não apenas sobre eles”, conta. Além disso, ao descobrir que uma moradora tinha experiência em atuação teatral, ela a convidou para fazer parte do elenco. Sandra Maria interpreta a líder comunitária Domingas.

Paralelamente à movimentação na vila, que inclui imagens reais de remoções e despejos, as mudanças no corpo de Ana vão ganhando uma dimensão surreal de fantasia, incompreensível para os médicos e mais difícil ainda de lidar para a própria personagem.

“Gosto muito do cinema fantástico. Vejo muito um paralelo da transformação do corpo com a transformação da cidade. A fantasia me ajuda a achar uma poesia para falar dos tempos atuais e da situação política complexa, até chegar nesse tom da utopia e da resistência de forma menos literal, num tom de fábula urbana”, afirma a diretora e roteirista. Mormaço estreou no Festival de Roterdã, em 2018, e foi exibido também nos festivais de Gramado, do Rio e na Mostra Internacional de São Paulo.


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