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Segunda temporada de 'O mecanismo' adota mais tons de cinza na trama

Série da Netflix inclui mais nuances em sua versão ficcional da política recente no Brasil. Os oito episódios serão liberados nesta sexta (10). Diretor José Padilha critica Moro e Bolsonaro em entrevista


postado em 09/05/2019 05:13

Selton Mello em cena de O mecanismo em que seu personagem, o ex-delegado da PF Marco Ruffo, vai até o Paraguai, no encalço do ex-doleiro Roberto Ibrahim (Enrique Diaz) (foto: Netflix/Divulgação)
Selton Mello em cena de O mecanismo em que seu personagem, o ex-delegado da PF Marco Ruffo, vai até o Paraguai, no encalço do ex-doleiro Roberto Ibrahim (Enrique Diaz) (foto: Netflix/Divulgação)


Rio de Janeiro – “Se gritar pega ladrão/Não fica um meu irmão/Se gritar pega ladrão/Não, não fica um.” Na abertura da segunda temporada de O mecanismo, que será disponibilizada nesta sexta (10) pela Netflix, realmente não fica um. De Tancredo Neves (1985), o presidente eleito que morreu antes de tomar posse, a Michel Temer (2016-2018), todos os mandatários brasileiros pós-ditadura militar (1964-1985) aparecem sob os versos de Reunião de bacana (Ary do Cavaco e Bebeto Di São João).

Além dos presidentes, ministros, governadores e empresários envolvidos nos subsequentes escândalos de corrupção em 34 anos de regime democrático são retratados na abertura. As imagens levemente distorcidas de tantas personagens da vida nacional, acompanhadas dos versos do samba, acabam fazendo humor. Com um gosto amargo, diga-se de passagem.

“Tudo muda, então é natural que o mecanismo mude. Isto está refletido na abertura. Todos operaram o mecanismo, sem exceção, tenho certeza disto”, afirma José Padilha. Criador e produtor-executivo da série  que refaz ficcionalmente a Operação Lava-Jato, Padilha recupera dois anos da vida nacional (2014, com a prisão dos empreiteiros, a 2016, com o impeachment de Dilma Rousseff) nos oito novos episódios.

A temporada tem início no ponto em que a anterior terminou. O ex-delegado da PF Marco Ruffo (Selton Mello) vai atrás da secretária da Miller e Bretch, a única capaz de revelar um setor de propina da empreiteira. Com isso, a delegada Verena Cardoni (Caroline Abras), à frente da operação, vai prender todos os empreiteiros do país, incluindo o mais graúdo deles. Apresentado quase como um sociopata, Ricardo Bretch (Emilio Orciollo Netto) vê seu papel crescer nesta segunda temporada.

Em meio ao percurso principal, a série resvala por dois outros caminhos. Um ganha o tom de thriller. Em sua vendeta pessoal contra o ex-doleiro Roberto Ibrahim (Enrique Diaz), Ruffo faz absolutamente tudo para não deixá-lo escapar. Segue-o até o Paraguai, onde vai encontrá-lo num bordel traficando cigarros.

A outra ponta da série é a política. Se no primeiro ano O mecanismo tinha um tom um tanto maniqueísta, neste segundo a série ganha nuances.

MAQUIAVÉLICO


A cisão política da sociedade brasileira nesta década se reflete nos personagens. A partir do momento em que o juiz Paulo Rigo (Otto Jr.), apresentado como vaidoso e maquiavélico, libera os áudios conseguidos via escuta ilegal do ex-presidente Gino (Arthur Kohl) com a então presidente Janete (Sura Berditchevsky), vemos os próprios policiais da Lava-Jato questionarem a si próprios, bem como ao juiz e aos procuradores da Lava-Jato.

“Acho que esta temporada é menos polêmica do que a primeira. Na anterior, ainda existia a esperança de o Lula continuar na política. Agora, não há mais isso. O cara está condenado, a Dilma não se elegeu”, afirmou Padilha, em encontro com a imprensa na terça-feira (7), no Rio de Janeiro. O diretor vai esperar o lançamento para ver se haverá retaliações – a despeito do barulho que a primeira temporada teve nas redes sociais, não houve nenhum processo contra a série.

Como adora uma provocação, Padilha está curioso para saber como vão repercutir alguns dos cacos que entraram no roteiro. Entre eles, há uma fala do senador Lúcio Lemes (Michel Bercovitch), a versão ficcional do atual deputado federal Aécio Neves. Em determinado momento, o personagem afirma que vai “estancar essa sangria”.

No ano anterior de O mecanismo, a mesma expressão saiu da boca do personagem Gino, a versão ficcional do ex-presidente Lula. Na vida real, essa expressão foi usada pelo ex-senador Romero Jucá, numa conversa com um delator, a respeito da necessidade do impeachment. Na época, até a ex-presidente Dilma foi a público criticar a inclusão da frase. “Até agora, ninguém reclamou”, disse Padilha.

Durante o encontro com a imprensa, Padilha não se furtou a criticar o atual governo. As principais críticas do cineasta foram dirigidas ao ex-juiz e atual Ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro, que “saiu de herói nacional para um salame fatiado entregue em pedaços ao Centrão para garantir a reforma da Previdência”.

A gestão Bolsonaro também não ficou de fora. “O Bolsonaro nunca foi politicamente capaz de participar de roubalheiras como a Lava-Jato. Isto não o exime de nada, pois ele sempre esteve ligado à polícia do Rio de Janeiro. É quase que um final do Tropa de elite 2, quando a milícia chegou à Brasília, um nível que eu jamais imaginei que o Brasil fosse chegar.”

Mesmo não fazendo parte da trama, Bolsonaro aparece no derradeiro episódio, na votação do impeachment. “Por um Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos”, afirma um parlamentar,  espelhado na fala do atual presidente.

Em 2019, a Lava-Jato continua em curso. Padilha, no entanto, não sabe se haverá uma terceira temporada de O mecanismo. “Espero que sim”, afirmou. Tudo vai depender da audiência deste segundo ano. Caso a série ganhe sua terceira temporada, Padilha acredita que um novo ano deverá se desenrolar até a prisão de Lula. “Estamos seguindo tudo o que aconteceu, pois a série é inspirada em, infelizmente, fatos reais.”
A repórter viajou a convite da Netflix


O MECANISMO
A segunda temporada, com oito episódios, estreia nesta sexta (10) na Netflix



“Nunca fui ativista, não entendo de política e a série me deu uma libertação de ser quem sou. Foi um alívio. Quis o destino que me caísse na mão um Zé Padilha com uma série de alto teor político. Meu primeiro movimento foi dizer: eu não vou fazer isso. Mas falei: não, é uma chance de deixar minha zona de conforto. Eu disse ao Padilha e prometi que ia dizer isso (em público): foi um crescimento. Foi um trabalho muito doloroso, desagradável muitas vezes de fazer. E foi assim que construí o Ruffo”


>> Selton Mello,
intérprete de Marco Ruffo


“Achei interessante, até um exercício de empatia e escuta, até para expandir e ir um pouco além de nossas próprias ideias. Às vezes, tenho a sensação de que a gente prega muito para convertido. A série é bem colorida nesse sentido, pois reúne diferentes pessoas pensando de diferentes formas. Isso alarga nossas próprias ideias para sair dessa coisa egoica e de verdades absolutas que a sociedade está vivendo neste momento”

>> Caroline Abras,
intérprete de Verena Cardoni


“A série tem um hibridismo que confunde e é interessante ao mesmo tempo. Entendo a reação das pessoas (que criticaram a primeira temporada), pois estamos vivendo um momento decisivo, em que as pessoas precisam gritar, e isto faz parte da liberdade de expressão. Mas, na segunda temporada, muita gente vai poder ver um ponto de vista diferente. Meu personagem é um suposto cara normal, mas, ao mesmo tempo, um coringa, um crítico do sistema todo, que não se apega a nenhum ponto de vista. Não é nem herói nem vilão”


>> Enrique Diaz,
intérprete de Roberto Ibrahim


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