Continue lendo os seus conteúdos favoritos.

Assine o Estado de Minas.

price

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Estado de Minas

Democracia em escombros

Em livro, cientista político alemão alerta para a necessidade de reação diante do tsunami populista em nações de peso, como o Brasil, e analisa a onda conservadora


postado em 06/05/2019 05:12

"A democracia sofre de uma doença crônica aguda. As fontes da crise democrática são antigas, mas é agora que os sintomas mais dramáticos estão aparecendo. Mas o paciente não está morto ainda" (Yascha Mounk) (foto: facebook/arquivo pessoal)
O título do livro de Yascha Mounk é dramático: O povo contra a democracia: por que nossa liberdade corre perigo e como salvá-la (Ed. Cia das Letras). Para o cientista político alemão, formado em Harvard e professor da Universidade Johns Hopkins, o panorama da situação mundial é preocupante. Com agudeza, ele faz um mapeamento crítico ao observar que as quatro maiores democracias do mundo (Estados Unidos, Índia, Rússia e Brasil) são governadas por líderes populistas. Aponta três fatores essenciais para que os cidadãos elejam inimigos da democracia: estagnação dos padrões de vida, medo da democracia multiétnica e supremacia das mídias sociais.

Yascha, de 37 anos, fez um prefácio especialmente sobre a situação brasileira para o lançamento no Brasil. Escreve de maneira límpida e acessível. Não faz apenas papel analítico, mas sugere reações: “Se você se importa com a proteção de sua liberdade, é seu dever solene exercer seus direitos antes que o novo presidente os tire de vez”. Nesta entrevista exclusiva, Yascha fala sobre as razões que levaram à recessão democrática no mundo, as transformações do Brasil, a influência das redes sociais e as estratégias para lutar pela liberdade.

Que diagnóstico você faz da democracia atualmente no mundo?
Diagnóstico não é uma palavra boa. Eu diria que a democracia sofre de uma doença crônica aguda. As fontes da crise democrática são antigas, mas é agora que os sintomas mais dramáticos estão aparecendo. Quando você olha ao redor do mundo, vê que as quatro maiores democracias estão sendo tocadas por líderes populistas, incluindo o Brasil. E quando você olha para a Europa, por exemplo, pode dirigir pela Polônia, pela Hungria, pela República Tcheca e pela Itália e ter a sensação de que não deixou um país. Todas essas populações já fizeram um estrago enorme na democracia. A doença está aguda, mas o paciente não está morto ainda.

Como chegamos a essa situação em que o povo se coloca contra a democracia?

É muito importante achar uma explicação comum: há duas raízes particularmente importantes da crise democrática. Uma das coisas relevantes é a crise de legitimidade. Em vários momentos da humanidade, houve um aumento do padrão de vida de uma geração para a outra. Mesmo nos primeiros anos da democracia brasileira, apesar de alguns problemas, as pessoas tinham uma fé residual nas instituições políticas. O que vemos agora é uma profunda estagnação econômica em vários países, especialmente nos EUA e em parte da Europa, onde os padrões de vida não melhoraram nos últimos 30, 40 anos para a maioria das pessoas.

De que maneira isso afeta o Brasil?
Você vê isso no Brasil também, que até viu melhora no padrão de vida, mas agora há profundo desencantamento com a corrupção, com a maneira como as instituições não conseguem ser responsivas para a demanda das pessoas e o medo do futuro. O segundo fenômeno importante é a rápida transformação demográfica e cultural em muitas democracias. Quando eles foram estabelecidos e consolidados, muitos desses países eram relativamente homogêneos e hierárquicos. Nas últimas décadas, isso começou a mudar por causa da imigração, das desigualdades e por causa de coisas como a igualdade das mulheres e o sucesso dos movimentos gays.

Isso é bom ou nocivo para o equilíbrio social?

Pessoalmente, acho que são coisas muito boas, e por isso é fácil esquecer que, para algumas pessoas, isso significou perda de status social e de vantagens e privilégios. Pense em um homem comum, de uma cidade média comum. Há 20 ou 30 anos, ele poderia dizer que uma quantidade pequena de homens era homossexual, que havia maioria de nativos. Hoje, possivelmente, a pessoa que o representa no Parlamento pode ser um imigrante; sua chefe, uma mulher. Isso é, claro, uma conquista maravilhosa, mas essas pessoas não apreciam isso e o que veem no populismo é um conjunto de pessoas que recusam a perda desse status social, que foi perdido ou desafiado.

Por que a democracia, que parecia consolidada no Brasil, revelou-se tão frágil?
O Brasil sofre de causas óbvias do populismo que parecem ter um grande papel em vários contextos. Pode ter sido surpresa o crescimento de Jair Bolsonaro. Mas acho que houve também transformações rápidas que ajudam a dar sentido a isso. Primeiro, foi a completa deslegitimação do sistema político por causa dos escândalos de corrupção. E como não há ‘ninguém confiável’ nesse meio, um completo outsider pode vir e, como diria Donald Trump, drenar a lama. O segundo ponto é o quão rápido foi a transformação dos valores econômicos e sociais. Catolicismo perdeu influência, direitos humanos, das mulheres e dos gays cresceram. Isso deixou uma distância para a população que perdeu com esse desenvolvimento.

Por que candidatos que atacam as instituições democráticas têm atraído tanto os eleitores?
Algumas dessas pessoas que menciono no livro, como Bolsonaro, Maduro e Hugo Chaves, são de espectros muito diferentes. Mas o que esses populistas têm em comum é a alegação de que todos os partidos políticos e instituições são corruptos e precisam ser retirados de cena e que eles – e apenas eles – representam as pessoas comuns. E acham que o resto é ilegítimo: os políticos da oposição que criticam o governo são ‘traidores’, jornalistas que cobrem escândalos políticos são ‘inimigos’, instituições independentes que tentam conter o poder do presidente, como cortes constitucionais, são ‘ruins’. É usando essa linguagem, prometendo devolver o poder ao povo, por se dizerem eles mesmos a encarnação do povo, que os próprios líderes populistas acabam por minar direitos individuais, instituições independentes.

Qual o peso das redes sociais na nova configuração política do mundo globalizado? Elas propiciaram a emergência de um novo tipo de populismo?
Há três causas principais para o populismo. Mudanças econômicas e culturais são muito importantes, mas desde que as mídias sociais se tornaram politicamente ativas, 20 ou 30 anos atrás, boa parte da mídia tradicional tinha a habilidade de definir o que era ou não parte do sistema político. Quando as pessoas tentavam divulgar mentiras, posicionamentos racistas ou discriminatórios, eles tentavam empurrar esse tipo de discurso para as margens do sistema político. O aparecimento das mídias sociais minou a habilidade da mídia tradicional de atuar junto a esses gatekeepers. E com muitas pessoas desapontadas com a classe política, desorientadas com as mudanças sociais, isso se torna perigoso coquetel.

Qual a análise que você faz do caso brasileiro?
Com a eleição de Jair Bolsonaro, vemos no Brasil um manual clássico do populismo autoritário. Bolsonaro, na campanha, deixou claro que acredita ser o único e verdadeiro representante do povo, denegriu a oposição, atacou a legitimidade de instituições independentes e falou em bons termos do passado autoritário. Fica claro que isso o qualifica como um populista. E as pessoas que usaram um registro similar ao dele no passado corromperam o sistema político de maneira substancial. Uma minoria desses líderes populistas deixou o cargo quando vieram as eleições. Isso me deixa extremamente preocupado quanto à estabilidade da democracia brasileira.

Que sinais vislumbra na luta pela democracia?
Estamos nos estágios iniciais da ascensão de governos populistas em vários países ao mesmo tempo. A evidência é que talvez a maioria vá se organizar para defender suas instituições democráticas, ao menos a curto prazo. Mas outros, como a Hungria ou a Turquia, caminham para uma ditadura. Devemos ser otimistas ou pessimistas? Acho que é a pergunta errada. Ainda não podemos saber o que o futuro reserva, não podemos também ter a democracia global como garantida. E essa é uma razão para se energizar e lutar por valores políticos, porque o futuro pode depender de como atuarmos agora. (Colaborou Nahima Maciel)


Publicidade