Conteúdo para Assinantes

Continue lendo ilimitado o conteúdo para assinantes do Estado de Minas Digital no seu computador e smartphone.

price

Estado de Minas Digital

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas digital por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Estado de Minas

Educação para o futuro


postado em 05/05/2019 05:08






Todo cuidado é pouco no campo da constituição e formação do ser humano para a vida. É a tarefa mais difícil que qualquer um de nós já se aventurou a realizar. Educar é simplesmente preparar para a vida de adulto uma criança que nasce sem noção de certo e errado, do corpo e não deseja de livre e espontânea vontade perder a naturalidade e simplesmente ser e fazer o que quiser, como quiser, na hora que for.

Assim, educar é frustrar, privar, castrar, repetindo inumeráveis vezes aquilo que irá proteger aquela criança. Cortar mimos e caprichos e não deixar o amor por aquele nosso pedacinho nos cegar para o fato inegável de que ele deve aprender que não será tratado como um ser especial que merece privilégios, e que não existe liberdade, senão dentro da lei.

Se pensa que é livre, é porque não foi educado ou não aprendeu a lição. Nossa liberdade é restrita e só vai até onde existe um outro que também deve ser respeitado. Mas aquele pedacinho nosso só admite cortes no seu narcisismo onipotente por amor. Então, sem amor nada feito.

Precisam aprender a pensar e a expressar de modo que possa ter coragem de perguntar, compreender e discordar. Devem questionar valores. Perceber por que motivos escondidos se impõem ideias que ele deve adotar. Se por conveniência, desejo de poder, cobiça, inveja, utilitarismo, interesses financeiros etc.. É necessário discernir entre eles. Fazer escolhas.

É preciso criticar nosso tempo e os interesses capitalistas de hoje, falsos valores que escondem a verdade sobre o que precisamos para uma vida mais digna com valores fundadores do caráter.

A educação jamais pode incentivar resultados práticos em detrimento de ensinar a pensar, a questionar a realidade e relativizar verdades estabelecidas pelo outro que tem o poder de comandar no momento. Muitos já nos levaram para o buraco por nos tornarmos massa de manobra fácil. Resistir é importante.

Pensar é necessário. Pode incomodar muito. Pode fazer girar a lógica imediata toda. Move o mundo desde a Grécia antiga, de onde vieram grandes pensadores. De onde vieram filósofos, matemáticos, físicos e pessoas incríveis que tinham coragem para indagar e questionar os grandes mestres, fazendo andar o pensamento. Muitos morreram pelo que acreditavam.

Aristóteles considerava a Terra o centro do universo em forma de uma cebola, com tudo girando em ordem. As verdades preestabelecidas eram apoiadas pela igreja e disto não se podia duvidar. Galileu, ao dizer que a Terra não era o centro do universo, e sim o Sol, foi condenado à morte pela heresia e, para sobreviver, desmentiu sua descoberta. Na hora de sua morte, porém, repetiu que a verdade era aquela da qual abrira mão e tinha provas telescópicas.

Kepler, com telescópios mais sofisticados, constatou a rotatividade elíptica do movimento terrestre e nos tirou, de novo, do eixo. Quantas vezes retificamos verdades absolutas reconhecendo preconceitos do passado e admitindo o novo como verdade? E somente o fizemos e fazemos ainda hoje porque pensamos.

Por exemplo, a psicanálise deve muito à filosofia. Descartes inaugurou a ciência moderna despindo o homem de qualidades, adjetivos, atributos imaginários, deixando restar apenas o cogito: Penso, logo sou.

Daí veio a possibilidade de construção do sujeito do inconsciente. Um sujeito considerado efeito do discurso. Não é um corpo, um organismo, pessoa ou individualidade. Ele surge entre as palavras ou cruza nossa mente num flash ligeiro, ao qual nem sempre damos ouvido, e geralmente é ali que está uma verdade íntima e singular. Quando não damos importância a esta vozinha frágil e ligeira, nos damos mal, porque ela nos alerta para verdadeiro desejo. Guia imprescindível na vida.

Por isto, a escola, como educadora e aliada dos pais neste difícil caminho de formar pessoas melhores e capazes, não pode abrir mão de ensinar seus alunos a pensar, duvidar, incomodar aqueles que têm propósitos ideológicos ocultos.

Dinheiro não é tudo, como querem nos fazer crer os capitalistas e a indústria de propaganda que trabalha a seu favor. O capitalista trabalha para preencher sua ‘falta a ter’ em detrimento do ser, da humanidade e do desejo singular do sujeito, impondo a todos um engodo comprável por uma felicidade fugaz e passageira, aumentando o buraco existencial a cada relançamento desse engodo. Compre de novo, de novo, acumule, acumule: eis o mantra moderno.

Disse García Lorca, em 1931: “Que os homens desfrutem de todos os frutos do espírito porque o contrário seria convertê-los em máquinas a serviço do Estado, seria convertê-los em escravos de uma terrível organização social”.


Publicidade