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CAI O PANO

A morte de Antunes Filho, na noite de quinta, aos 89 anos, em São Paulo, encerra a trajetória de um encenador que reformulou o teatro brasileiro e teve papel essencial na formação de gerações de atores


postado em 04/05/2019 05:10

O diretor Antunes Filho brinca com máscaras de teatro no Sesc Consolação, sede de seu Centro de Pesquisa Teatral (foto: PATRÍCIA SANTOS/ESTADÃO CONTEÚDO)
O diretor Antunes Filho brinca com máscaras de teatro no Sesc Consolação, sede de seu Centro de Pesquisa Teatral (foto: PATRÍCIA SANTOS/ESTADÃO CONTEÚDO)



Difícil encontrar hoje algum profissional das artes cênicas no Brasil que não tenha trabalhado ou sido influenciado por Antunes Filho e sua visão do teatro. O diretor paulista, que morreu na noite de quinta (2), no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, em decorrência de um câncer de pulmão, formou gerações de atores e firmou seu nome como um dos mais importantes no universo teatral brasileiro em todos os tempos.

Antunes, que completaria 90 anos em dezembro, fez parte da primeira geração de encenadores dissidentes do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), onde começou como assistente de direção, em 1952, tendo lá trabalhado com nomes como Ziembinski, Adolfo Celi, Luciano Salce, Ruggero Jacobbi e Flaminio Bollini.

O ator e diretor Eduardo Moreira, do Grupo Galpão, não chegou a trabalhar diretamente com Antunes, mas certamente foi influenciado pelo seu estilo. “Para mim, ele foi o maior diretor de teatro deste país. Sempre que podia, eu ia a São Paulo conferir algum espetáculo dele. Todo artista, sobretudo da minha geração, teve-o como grande referência”, afirma.

Eduardo Moreira destaca entre os espetáculos do diretor a sua versão de Macunaíma, inspirada na obra homônima de Mário de Andrade, que estreou em 1978 e projetou nacionalmente seu nome. “Assisti a essa peça várias vezes. Foi uma revolução no teatro brasileiro. E, por uma feliz coincidência, o Galpão foi trabalhar anos depois com o (ator) Cacá Carvalho, que foi o protagonista dessa montagem”, conta. Cacá Carvalho dirigiu o Galpão em Partido (1999).

Outro diretor que bebeu na fonte de Antunes Filho e que esteve em trabalhos com o grupo mineiro foi Ulysses Cruz. “Tanto ele quanto o Cacá trouxeram essa linguagem e esse jeito único do Antunes nas nossas parcerias. O que fica para mim é esse rigor com o teatro, com o trabalho e com a formação do ator”, aponta Eduardo Moreira.

Novo rumo


José Alves Antunes Filho, seu nome de batismo, chegou a entrar na tradicional Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, mas desistiu do curso para estudar artes dramáticas. Sua estreia no teatro se deu em 1953, com a peça Weekend, de Noel Coward. Em 1958, fundou a companhia Pequeno Teatro de Comédia e dirigiu o espetáculo O diário de Anne Frank, que lhe rendeu prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e da Associação Carioca de Críticos Teatrais (ACCT). Ficou na companhia até o início dos anos 1960, quando voltou ao TBC.

Sua busca pela perfeição e a disciplina dos atores deram a Antunes Filho a fama de diretor muito exigente, além de ter ficado notório por desenvolver um método teatral experimental no qual diversas gerações de atores foram formadas. Nos anos 1980, criou o Centro de Pesquisas Teatrais (CPT), grupo de produção, formação e desenvolvimento de métodos de interpretação para o ator, que dirigiu até sua morte.

Seu trabalho é fortemente ligado à renovação estética, política e cênica do teatro brasileiro surgido nos anos 1960 e 1970, sobretudo com Macunaíma. Antunes Filho se tornou o primeiro diretor a empreender uma obra dramatúrgica e cenicamente autoral e dirigiu produções antológicas de Nelson Rodrigues e William Shakespeare.

Vários atores de renome passaram por sua supervisão, como Luís Melo, que foi protagonista de vários espetáculos, como Trono de sangue e Vereda da salvação, além de Giulia Gam, Alessandra Negrini, Camila Morgado, Bete Coelho, Renata Jesion, Ondina Clais Castilho, entre outros. Também influenciou Laura Cardoso, Eva Wilma, Raul Cortez, Stênio Garcia, Denise Stoklos, Marco Braz, Samir Yazbek e Lee Taylor.

A atriz e diretora paulista Juliana Galdino, que está em cartaz no CCBB-BH, da Praça da Liberdade, com o espetáculo Fedra, teve Antunes Filho como um mestre e uma figura fundamental em sua formação como atriz e indivíduo. Quando completou 25 anos ou “um quarto de século”, como gosta de frisar, ela resolveu tentar uma vaga no Centro de Pesquisa Teatral (CPT). “Aquele foi o momento em que eu precisava decidir tomar um rumo. Lembro-me de que, quando o vi pessoalmente pela primeira vez, eu tremia igual vara verde e estava com uma cara de tragédia. Talvez por isso eu tenha sido escolhida (risos)”, recorda.

Foram sete anos ao lado do diretor, período em que ela encenou espetáculos como Fragmentos troianos, Antígona e Medeia, que lhe valeu o Prêmio Shell de melhor atriz em 2002. Juliana não se esquece da dedicação de Antunes nesse período e de como ele esteve presente em todos as leituras, ensaios e espetáculos de que participou. “O rigor andava junto com o amor. O amor é um ato de devoção tremenda e é colérico. Quando você ignora, você não ama. E ele fez questão de passar tudo que ele sabia a quem conviveu e trabalhou com ele. Uma generosidade impressionante. Não tem como você passar pelo Antunes e ser indiferente. Todos que passaram pelo Antunes Filho carregam um pouco dele, porque ele extraiu o melhor de nós”, afirma.

Juliana Galdino participou do velório do diretor na manhã de sexta (3), antes de embarcar para Belo Horizonte. Ela comenta também sobre a influência de Antunes em seu marido, Roberto Alvim, diretor de Fedra. “Apesar de o Roberto ter passado pelo Centro de Pesquisa Teatral anos antes de mim, tudo estava entrelaçado. Roberto o ama tanto quanto eu e se guia muito por ele. Antunes Filho era único, um ser humano acima da média em todos os aspectos. Não tem ninguém parecido com ele”, opina.

CINEMA

Antunes Filho teve uma única experiência no cinema, em 1973, quando dirigiu o filme Compasso de espera, um drama sobre racismo protagonizado por Zózimo Bulbul e Stênio Garcia. Sua última produção no teatro foi a peça Eu estava em minha casa e esperava que a chuva chegasse, texto do dramaturgo francês Jean-Luc Lagarce, que estreou no teatro do Sesc Consolação, na capital paulista, em setembro do ano passado. O corpo do diretor foi cremado numa cerimônia fechada para a família e amigos mais próximos no fim da tarde de ontem no crematório da Vila Alpina, Zona Leste de São Paulo. Antunes Filho deixa um filho, quatro netos e dois bisnetos. (Com Agência Estado)



 

"O rigor andava junto com o amor. O amor é um ato de devoção tremenda e é colérico. Quando você ignora, você não ama. E ele fez questão de passar tudo que ele sabia a quem conviveu e trabalhou com ele. Uma generosidade impressionante. Não tem como você passar pelo Antunes e ser indiferente. Todos que passaram pelo Antunes Filho carregam um pouco dele, porque ele extraiu o melhor de nós”

. Juliana Galdino,
atriz, protagonista de Fedra, em cartaz no CCBB-BH


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