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Dia do Trabalho


postado em 01/05/2019 05:05

 

 

Quando saí da escola, fiquei em casa algum tempo sem fazer nada, poucos meses. Família grande, necessidade de batalhar, levou minha mãe a se preocupar com minha ociosidade. Resolveu me levar para buscar um emprego, logo no Instituto da Previdência, onde grande parte dos funcionários pertenciam à minha família. O presidente da época era um grande amigo, Mário Magalhães, que não teve dúvida: não dava mais para colocar nenhum parente no órgão, mas ele não me deixaria sem emprego. Pelas mãos dele, fui trabalhar em uma empresa paralela que tinha, que fazia seguros. Não relutei, aceitei logo e passei bem uns três ou quatro anos preenchendo apólices, uma mesmice sem tamanho. Comecei na Avenida Amazonas, depois o escritório passou para a Rua São Paulo.

O trabalho era tão automático que sua única atração era ir e voltar para casa, numa lotação que parava na Rua Tamoios, ao lado da Igreja São José e em frente à Padaria Boschi. Gostava de comprar pão com salame, e foi de lá que veio a Padaria Savassi, que acabou dando nome à região quando a Boschi foi fechada. O primeiro salário que recebi na seguradora foi um sucesso, comprei um sapato branco, salto alto, na Sloper, que era a loja mais alinhada da cidade. Cumpri um desejo que me acompanhou durante toda a vida, sempre gostei de sapato novo. Quando ia à Europa, o que mais comprava era Salvatore Ferragamo, últimos exemplares que poupo até hoje.

Cacifada, comecei a circular mais e acabei, levada pelas mãos de meu grande e querido amigo Fredy Chateaubriand, fazendo coluna social no Diário da Tarde, que o progresso fechou e ele dirigia com rara alegria. Nessa missão, em que estou há 60 anos, tenho tarimba para falar o que significa trabalhar com o que se ama. Nos primeiros tempos da minha lida na imprensa, a oficina onde os jornais eram rodados ficava no térreo do prédio da Rua Goiás – que só faltava desabar quando a rotativa começava a rodar. Mas foi na redação que encontrei e fiz muitos amigos, e onde enriqueci minha vida, meus sentimentos, minha vida em comum com um jornalista como eu – mas coberto pela graça da inteligência, da cultura, do bom gênio, da competência.

Então, lá se vão 60 anos e gosto de me lembrar do tempo em que a mudança de impressão do jornal nos obrigava a trabalhar até as 2, 3 da madrugada, conferindo os originais, o modelo past-up que dava um trabalhão danado. Encarávamos as horas extras com alegria, sem reivindicar aumento de salário, era mesmo a total dedicação pela profissão. Depois, passamos para o computador e sempre querendo mudar, avançar, fui a escolhida para ocupar o primeiro computador que chegou à redação do Estado de Minas. Não tinha tantas especificações como tem hoje, resultado dos meus enroscos cotidianos na tecnologia que só avança, curiosamente mais do que a minha idade, que tropeça neles o tempo todo.

Com toda essa vida profissional, gosto de escutar o que os jovens falam e o que mais me espanta é a canseira generalizada, a contagem para a aposentadoria, a vontade de ficar à toa na vida, isso sim, um fim de vida. Não sei se é tédio, se os ambientes de trabalho não ajudam, o certo é que, no dia de hoje, só posso louvar o tempo que tenho dedicado a essa ocupação que preenche a minha vida, enriquece minhas memórias, solidifica minhas saudades e me faz pensar até quando Deus vai me dar essa graça de trabalhar diariamente.


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