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Estado de Minas

Teatro ganha as ruas de BH

Intervenções em diversas regiões da capital, encenadas pela Cia. Quinta Marcha e Teatro&Cidade, propõem mudar o olhar das pessoas sobre urbanização, cotidiano e caos da cidade grande


postado em 29/04/2019 05:08

 Intermitentes ou vai e vem encenado em um ponto de ônibus(foto: FOTOS: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)
Intermitentes ou vai e vem encenado em um ponto de ônibus (foto: FOTOS: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)


Com o objetivo de fazer intervenções cênicas pelas ruas e chamar a atenção da população para os problemas do cotidiano, os grupos Cia. Quinta Marcha e Teatro&Cidade – Núcleo de Pesquisa e Extensão do TU/UFMG promovem diversas ações pelas regionais da capital mineira. Para esta apresentação, a Cia. Quinta Marcha preparou seis ações – O conhecimento, O sono, O banho, O ócio, O jogo e O alimento. Já o Teatro&Cidade entra em cena com Intermitentes ou vai e vem, Trincamatraca: uma mascarada de rua e Seis personagens à procura de um lugar.

A Cia. Quinta Marcha, com direção-geral de roteiro da professora e bailarina Mônica Ribeiro e atuação e criação de Dayane Lacerda e Led Marques, faz sua estreia nesta terça-feira (30), às 9h, na Praça Santa Rita (Esplanada). “Sou atriz, e Led é bailarino especializado em danças de rua. A nossa ideia é fazer essas intervenções pelas ruas. Para isso, criamos essas seis ações, que serão executadas em cinco regionais. Durante o espetáculo Os cabeçudos, dois personagens que, na realidade, são seres de um outro lugar, chegam por aqui e começam a perceber os problemas da cidade, da urbanização e do cotidiano corrido”, explica Dayane.

A atriz esclarece que, com estas ações, eles tentam interferir no cotidiano vivido pela população. “O tempo e o modo de eles lidarem com as coisas são diferentes do nosso. São deprimidos, tristes com as impotências impostas a eles diante dessa urbanização. O nosso desejo de trabalhar com estas ações é interferir nesse dia a dia e causar um estranhamento nesse caos da cidade grande”, garante Dayane, formada em teatro pela UFMG.

Ela conta que o grupo tem feito diversos ensaios na Praça da Estação e vem surpreendendo muitas pessoas que transitam pelo local. “Isto tem causado mais impacto do que imaginávamos. As pessoas ficam curiosas e param. Isto é o que nos interessa, pausarem para observar as nossas ações. Claro que não sabemos até quanto isto afeta as pessoas, mas causar essa estranheza é o nosso propósito”, ressalta.

A atriz diz que as pessoas, ao ver as encenações, param, diminuem a sua correria para se deixar levar pelas ações. “O objetivo é a pausa, o silêncio, que é uma outra maneira de lidar com a cidade. Nossa ideia é mudar o olhar das pessoas sobre a urbanização, a cidade grande. É para lembrá-las que existem tantas coisas ocorrendo ao redor delas, mas que a correria do dia a dia faz com que elas não vejam o que está acontecendo à sua volta. Nossa intenção é fazer um espetáculo que seja de rua, não na rua e que esta fosse o elemento principal da nossa montagem. O que ocorre na rua já é o que nos move”, esclarece Dayane.

ANALFABETOS EMOCIONAIS Os cabeçudos são dois amigos inseparáveis que compartilham toda uma vida e têm uma intimidade desmedida que transborda na revelação de pequenas maldades de um com o outro. “Analfabetos emocionais, agem a partir de hábitos aprendidos ao longo de sua convivência, os quais serão percebidos pelas sutis malvadezas e provocações de um com o outro. Em O conhecimento, Os cabeçudos lançam palavras para a cidade. Consumismo desmedido, excessos excessivos e as palavras que desmontam os sujeitos e seus desequilíbrios.”

Em O sono, eles tentam dormir, buscam lugares, espaços e posições e não adormecem. “A angústia dos sem sonhos, o desconforto dos corpos no espaço público, a ansiedade dos sem tempo são inquietudes que acentuam suas incapacidades e fracassos”. Dayane ressalta que, na encenação O banho, em contraponto à velocidade desmedida dos grandes centros urbanos, a pausa para o banho exacerba a melancolia presente nessa ação cotidiana e torna explícitos o automatismo e a escassez de sentido”. Em O ócio, são vários movimentos sem fazer coisa alguma. Invenções poéticas no espaço público. Refazer os trajetos. Reinventar o urbano.

TRAPAÇAS Em O jogo, a presença da disputa, da trapaça, da maldade emergem de um jogo infantil. “O desejo de vitória a qualquer preço faz desse jogo uma experiência violenta: a presença caricatural da barbárie no mundo da cidade”, esclarece a atriz. Em O alimento, a relação com ele ou a falta dele. “A presença da mais inútil etiqueta é conveniente com a mais sutil estupidez. Lentidão, morte, indiferença”, ressalta Dayane.

A Cia. Quinta Marcha surgiu em 2011, com Sobre-viventes. Posteriormente, realizou os espetáculos Uma carta para Vincent e Se essa rua fosse minha, respectivamente, em 2014 e 2015. Neste novo trabalho, o grupo aposta na rua a partir das intervenções urbanas.

Máscaras para dialogar e encantar

Fundado em 2013 pelo professor, ator, doutor e pesquisador Rogério Lopes, que atua e dirige, o grupo Teatro&Cidade – Núcleo de Pesquisa e Extensão do TU/UFMG tem como integrantes seis ex-alunos do Teatro Universitário da UFMG. “Formei-me no TU em 1995 e esta relação de ter criado um grupo tem a ver com a minha formação, que tem todo um contato com o teatro de rua, como as manifestações populares”, diz o diretor.

Lopes defendeu tese de doutorado sobre máscaras de folia de reis. “E deste contato com as folias é que propus criar o grupo. Temos um forte dialogo com estas tradições populares. Desta vez, estamos fazendo três espetáculos/intervenções cênicas, com aproximadamente 40 minutos de duração cada uma. Trabalhamos com esta ideia de trazer esta dimensão de figuras mascaradas, que constroem um imaginário de encantamento pela cidade”, esclarece Lopes.

Intermitentes ou vai e vem, Trincamatraca: uma mascarada de rua e Seis personagens à procura de um lugar formam a Trilogia andarilha. O primeiro espetáculo lida com o fluxo das pessoas na cidade. “Por mais que os atores utilizem máscaras grotescas, eles buscam interagir com o cotidiano, como se fossem pessoas comuns. E dessa interação, esse elemento de fantasia que a máscara traz, é que o jogo acontece na interação com as pessoas. Já o Trincamatraca é o que chamamos de mascarada de rua. É inspirado em máscaras de Pirenópolis, em Goiás. São uma espécie de bufões que saem pela cidade. Munidos de cincerros, eles produzem sons estridentes e saem brincando com tudo e todos ao redor”, explica Lopes.

EXILADOS O espetáculo Seis personagens à procura de um lugar é encenado sempre à noite e lida com as figuras que não encontram lugar no mundo de hoje. “Pode ser desde os moradores de rua, imigrantes, exilados ou mesmo figuras que estão à procura de um lugar. Este já e um trabalho no qual dialogamos com esta dimensão, aliás, um assunto muito atual. Pessoas que vivem à margem e sem direito a habitação são, um pouco, essas figuras. Com este trabalho, tentamos chamar a atenção das pessoas para esta questão, que hoje é seria no mundo inteiro. A qual território eu pertenço? Por isso, essa brincadeira de seis personagens à procura de um lugar”, revela Lopes.

Além desta temporada na capital, o Teatro&Cidade ainda se apresentará em outros dois festivais nacionais – no Festival de Teatro de Rua de Cuiabá, no Mato Grosso, entre 22 e 26 de maio,  e no 15º Festival Nacional de Teatro de Araçatuba, em São Paulo, entre 15 e 22 de junho.

 

 

PROGRAMAÇÃO

>> CIA. QUINTA MARCHA

Terça-feira (30), 9h, Praça Santa Rita (Bairro Esplanada), quarta-feira (1º de maio), 15h, Parque Lagoa do Nado (Venda Nova), quinta (2/5), 9h, Centro Cultural São Bernardo (Pampulha), sexta-feira (3/5), Praça Sete, Centro, e sábado (4/5), 15h, Centro Cultural Urucuia (Barreiro)

>> TEATRO&CIDADE

Sexta-feira (3/6), 19h, Seis personagens à procura de um lugar, Regional Oeste (Bairro Nova Granada), Rua Platina, 1.338 (local de início). Sábado (4/6), 10h, Trincamatraca: uma máscara de rua. Às 12h, Intermitentes ou vai e vem. Feira de Artes da Silva Lobo (local de início). Avenida Silva Lobo, s/nº, entre as ruas Coruripe e Canaã.


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