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Estado de Minas

Odair José convida à desobediência com novo CD da trilogia roqueira

"Hibernar na casa das moças ouvindo rádio", cantor dá o seu recado contra uma época em que "não se pode nada"


postado em 28/04/2019 05:08

(foto: Vinicius Denadai/Divulgação)
(foto: Vinicius Denadai/Divulgação)

Já imaginou um show de Odair José sem Uma vida só (Pare de tomar a pílula)? É a mesma coisa que assistir a Roberto Carlos subir a um palco sem cantar Emoções. Pois, aos 70 anos, o cantor e compositor goiano quer, acima de tudo, coerência.

No próximo dia 3, ele estreia em São Paulo Hibernar na casa das moças ouvindo rádio, show do álbum homônimo. Recém-chegado às plataformas digitais e lojas físicas, o 37º disco de uma carreira que soma 49 anos traz o conceito de uma ópera-rock.

Odair criou um universo de personagens que se encontram numa “casa de tolerância” onde tudo é permitido, desde que devidamente combinado. “Fiz isso justamente porque aqui fora não se pode nada. Este disco é um convite à desobediência. E, cara, eu não posso mandar uma prostituta parar de tomar a pílula”, diz ele, explicando a ausência de seu maior hit no repertório do show.

Hibernar na casa das moças ouvindo rádio é mais uma agradável surpresa para a geração que descobriu o velho artista brega nesta década. O trabalho encerra a trilogia roqueira de Odair (que, vale dizer, era roqueiro muito antes de os novos fãs sequer terem nascido) iniciada com Dia 16 (2015), cuja sequência foi Gatos e ratos (2016).

Com a mesma banda dos trabalhos anteriores, Odair desfia sua crônica urbana direta e simples, que versa, boa parte das vezes, sobre excluídos. “Sinto-me um estrangeiro na esquina da minha casa, pois está sempre um querendo falar da vida do outro, com muito preconceito bobo. Isto é uma forma de se sentir um estrangeiro, não se sentir muito à vontade”, diz.

ESPERA
O título do álbum é, na verdade, a união do título das três primeiras das 11 faixas do disco: Hibernar (rock clássico, com ecos de iê-iê-iê), Na casa das moças (blues) e Ouvindo rádio (outro rock que bebe na fonte dos anos 1970). “Vou me hibernar por um tempo, me avise quando a cena mudar. O mundo está de ponta cabeça, espera ele aprumar”, são os versos iniciais cantados por Odair.

O apresentador, cantor e compositor Luiz Thunderbird atua no disco como uma espécie de MC. Antes de Hibernar, por exemplo, ouvimos sua voz como a de um velho locutor de rádio avisando da hibernação de Odair. Thunderbird retorna em algumas faixas, colocando o ouvinte a par das andanças do compositor/personagem.

O disco continua com canções como Rapaz caipira – “Está vivendo no centro de um furacão, onde a realidade é mera ilusão” –, O imigrante mochileiro – “Sou um visitante, sou um mochileiro, eu estou aqui apenas de passagem”, – Fetiche – “Tapa na cara, beijo na boca, tô numa transa louca” e Gang bang – “Tem uma moça na roda e rola um gang bang”. A narrativa vai convergir na última faixa, Liberdade, a única balada do disco – “Vai ser tudo de graça, e vai ter muita fartura, já tem gente na praça, esperando a abertura”.

O “novo” Odair mantém seu público fiel de outrora – tem um show só de hits. Mas é também figura fácil no cenário independente, “o pessoal de festival, de projetos culturais”, como ele diz. Tanto que o disco traz convidados que seriam improváveis tempos atrás.

Jorge Du Peixe, da Nação Zumbi, coloca seu vozeirão grave a cargo do rock O imigrante mochileiro, uma das melhores faixas do disco. Também integrante da banda pernambucana, o percussionista Toca Ogan participou de Rapaz caipira e Assucena Assucena e Raquel Virginia, cantoras do grupo As Bahias e a Cozinha Mineira, fazem uma participação discreta em Chumbo grosso, a mais irônica das canções do disco – “Quem andar errado vai levar chumbo grosso”.

Odair comenta que começou a pensar em Hibernar durante a feitura de Gatos e ratos. “A forma de compor, com essa guitarra de garagem, é muito presente na minha carreira. Eu tinha vontade de fazer um trabalho com qualidade acima do que tenho conseguido”, explica.

AMEAÇAS E havia ainda a intenção de ligar a história de agora com um dos períodos mais difíceis da carreira de Odair. Em 1977, ele lançou a ópera-rock O filho de José e Maria. Originalmente, o álbum teria 18 canções, mas, como a censura caiu de pau, só 10 foram liberadas. Odair, um dos artistas mais populares da época, tornou-se também um dos mais censurados (só perdeu para Chico Buarque). Mesmo cortado quase pela metade, o trabalho foi condenado, não tocou em lugar nenhum e o cantor foi ameaçado de excomunhão pela Igreja Católica.

Hoje cultuado, o álbum O filho de José e Maria, gravado com o trio de jazz Azymuth, foi recuperado em uma série de shows que Odair fez em 2018 (com o próprio Azymuth). Hoje em dia, volta e meia ele sobe ao palco para cantar a história de um Jesus que descobre a sexualidade e se envolve com drogas. “Este trabalho me criou muitas dificuldades a ‘nível de’ mídia e de aceitação das pessoas. (Depois dele) Fiquei meio fragilizado, me escondi, e acho que Hibernar vem agora completar aquilo que fiz no passado, já que convida para desobedecer a falsa moral e a hipocrisia estabelecidas no país.”

O rádio foi o principal meio de comunicação de Odair com seu público. Mesmo que ele seja também um personagem do novo álbum, o cantor admite que, atualmente, pouco ouve rádio. “Nem sei se minhas músicas tocam hoje. Gostaria que tocassem. Mas desisti desse tipo de trabalho, ficar indo a rádio pedindo para programarem meus discos. Chega uma hora na carreira em que a gente tem que ceder. E o rádio mudou muito”, comenta ele, que gostaria de ver Rapaz caipira tocando nas emissoras.

Odair começa agora o novo show e espera chegar em breve a Belo Horizonte – cidade que, segundo ele, está sempre no topo das preferências quando pensa em sair de São Paulo. Depois do rock, ele não sabe o que virá.

Mas há boas perspectivas em vista. Uma parceria também improvável se concretizou recentemente, graças ao cinema. Odair se uniu a Arnaldo Antunes para compor a trilha sonora da comédia romântica Meu álbum de amores, longa-metragem de Rafael Gomes ainda sem data de lançamento prevista. A dupla compôs seis canções.

“Recebi os temas dos personagens, fiz as melodias e dei um pontapé nas letras. O Arnaldo terminou todas. Eu passava a ideia, e ele me devolvia a música de forma grandiosa”, conta ele. Odair adianta que os dois cantam no filme somente uma, a canção-título. “Com o lance do filme, possivelmente vamos lançar um disco. É para o ano que vem, a possibilidade é de 70%.”


Hibernar na casa das moças ouvindo rádio
• Odair José
• Monstro Discos
• Disponível nas plataformas digitais e em CD (R$ 20)


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