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O amor às avessas

Tragédia baseada em texto de Racine, do século 17, expõe personagens a situações-limite. Diretor Roberto Alvim promete abordagem mais universal e "ritmo avassalador"


postado em 25/04/2019 05:06

Juliana Galdino e Christian Malheiros, na nova montagem de Fedra: pontas do triângulo amoroso familiar (foto: EDSON KUMASAKA/DIVULGAÇÃO)
Juliana Galdino e Christian Malheiros, na nova montagem de Fedra: pontas do triângulo amoroso familiar (foto: EDSON KUMASAKA/DIVULGAÇÃO)
O diretor e dramaturgo Roberto Alvim, de 45 anos, tinha 13 quando foi levado pelos pais para assistir à Fedra. Era o primeiro espetáculo teatral a que ele iria na vida. Corria o ano de  1986 e a montagem de Augusto Boal com Fernanda Montenegro no papel-título lhe arrebatou de uma forma definitiva. “Fiquei tão fascinando que acordei no dia seguinte decidido a ser diretor de teatro”, afirma.

Alvim, que há 13 anos capitaneia, ao lado da atriz Juliana Galdino, a Cia. Club Noir, em São Paulo, já montou ao longo desse período dezenas de textos clássicos. Dos gregos, por exemplo, teve a audácia e a coragem (pois estamos falando de teatro independente no Brasil) de em um só ano levar para o palco as sete tragédias de Ésquilo. “Foi a primeira vez no mundo que as peças foram montadas uma única vez”, relembra.

Pois já passava da hora de ele retornar à tragédia que definiu sua carreira. Fedra, do francês Jean Racine (1639-1699), com texto traduzido, adaptado e dirigido por Alvim, estreia nesta sexta (26), no Centro Cultural Banco do Brasil – a temporada terá quatro semanas. Juliana Galdino vive a protagonista, a mulher que cometeu o maior dos pecados: viver uma paixão pelo enteado.

“Meu interesse pela tragédia vem do fato de que elas apresentam situações- limite de personagens entregues a paixões desmedidas e que se entregam a elas, mesmo sabendo desde o início que aquilo vai levá-las ao abismo. E não só elas, mas quem está no entorno”, comenta Alvim.

Originalmente, Fedra foi escrita no século 5 a.C. por Eurípides. Mais tarde, houve uma versão de Sêneca. “No Renascimento, Racine pega as duas tragédias e as reescreve dentro do classicismo francês. Há um envolvimento emocional vertiginoso na sucessão dos acontecimentos”, continua Alvim. Na adaptação da Club Noir, foi cortado um terço do texto (no palco, a montagem está com uma hora de duração). “Cortei coisas que me pareceram questões circunstanciais ao tempo de Racine. Tornei a tragédia mais universal e com um ritmo mais avassalador.”

Fedra, casada com Teseu (Luis Fernando Pasquarelli), se apaixona por Hipólito (Christian Malheiros), seu enteado. “Ele foi uma criança que ela criou a vida inteira, o menino a chama de mãe. Ou seja, ela se apaixona pela única pessoa do reino que é completamente proibida.”

Quando chega a notícia de que Teseu havia morrido, Fedra revela seu amor por Hipólito. “A princípio, isso causa horror ao rapaz. Mas depois ele acabam consumando a relação, ou seja, o que se consuma é um incesto”, frisa o diretor. E, ao contrário do que todos pensavam, Teseu não estava morto. Ao retornar para casa, Fedra mente e diz que foi violentada por Hipólito. O desfecho é trágico para o filho, condenado à morte por Teseu, e para Fedra, corroída pela culpa.

“A entrega de Fedra, mesmo sabendo que o destino do amor vai ser catastrófico para a família e para o reino, representa a quebra do princípio civilizatório.” Para Alvim, a tragédia tem relação com o fascínio que o ser humano tem pela ordem estabelecida. “Todos nós temos uma voz interna que nos impele a um mergulho no caos.”

Alvim vai acompanhar as primeiras sessões de Fedra em BH. Depois deste fim de semana, retorna para São Paulo, já que tem duas montagens para estrear nos próximos meses – Aurora, com Juliano Cazarré, e Madames, com Maria Fernanda Cândido, Marjorie Estiano e outras atrizes.

Em pouco mais de uma década, Alvim – também à frente do Teatro Club Noir, na Rua Augusta – dirigiu quase uma centena de espetáculos. Somente em 2011, foram 16 peças. “Eu era mais jovem, vivia 24 horas por dia no teatro, era uma coisa febril, quase trágica. Faço isso por gosto e por necessidade de sobrevivência, pois vivo exclusivamente de teatro.”


FEDRA
Espetáculo da Cia. Club Noir, com texto de Racine e direção e adaptação de Roberto Alvim. Estreia nesta sexta (26), às 20h, no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9400. Apresentações de sexta a segunda, às 20h, até 20 de maio. Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (estudantes, pessoas com deficiência, maiores de 60 anos e clientes Banco do Brasil).


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