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A vida pelo outro


postado em 14/04/2019 05:09


A essência da descoberta freudiana é de uma oposição radical. Ela faz um furo no mundo da positividade. O universal se funda na negação, o particular encontra sua existência no contingente.

Mas o que trouxe Freud que abalou o modo de pensar positivista? No cientificismo de laboratório? Trouxe o particular, o singular, o subjetivo. Trouxe a possibilidade de considerar o afeto como algo importante que nos marca a partir de um outro fundador. O afeto é marca do outro em nosso corpo.

O olhar, a voz, o tato, o calor humano no contato que recebemos, ou não, inauguram nossa humanidade, subjetividade e nos afetam permanentemente.

Designam nossa forma de interpretar e conceber o mundo a partir de então. É muito rica a vida de um bebê. Mais do que se pode supor. Ali estão as raízes do que seremos, ali são feitos sulcos na alma e no corpo, marcas de percursos por onde escorrerão os afetos imprescindíveis para a humanização.

Caminhos de aluvião que inauguram a partir de então a forma como experimentaremos em nosso corpo, nossos laços, nosso afeto das primeiras marcas. A angústia, por exemplo, é um afeto que não engana. Ela dá testemunho de uma falta essencial da qual se ocupa a doutrina freudiana.

A angústia de separação e o desejo têm uma ligação essencial. Tanto um quanto outro instauram na subjetividade uma falta. Falta de quê? De alguma coisa que acreditamos ter tido um dia ou que sonhamos com ela por causa do desamparo inicial. Como se fosse saudade de uma completude perdida,

Espera inútil, pois ninguém sabe o que desejamos e nem pode atender a esta ânsia que tem muitas faces. Nem nós mesmos sabemos sobre nosso desejo, porque parte dele permanece inconsciente e só uma pequena ponta deste iceberg flutua na nossa consciência. Pouco dele que saibamos, porém, já nos serve para muito.

Assim sendo, de pouco ou quase nada nos serve o positivismo, o cognitivo, se não estiver em acordo com o afeto que nos afeta. Pois o que cola em nós é exatamente aquilo que tem consonância com o subjetivo. O racional jamais dará conta de retificar uma posição subjetiva sem a colaboração da descoberta de um pouco sobre o desejo. É preciso ir mais além do pensamento racional.

É preciso escutar os equívocos, as palavras trocadas, os sonhos. Dentre estes teremos, então, uma margem daquilo que se subtrai da consciência por um processo de esquecimento de parte da história. Do romance familiar, dos sentimentos que vêm de longe, bem distante no tempo, mas permanecem ativos.

Nenhum treinamento, aconselhamento, doutrina poderão mudar aquilo que foi gravado em nós pelo outro que nos acolheu e marcou com seu desejo. Apenas o reconhecimento afetivo dessas marcas poderá fazer cair repetições e identificações que fizemos.

Marcas iniciais não se apagam, mas há retificações que, essas sim, podemos buscar e feitas salvam-nos de um destino selado com o pior.


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