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Romeu sem Julieta

Cozinha mineira perde sua maior estrela. Dona Lucinha, que morreu ontem de infarto, aos 86 anos, deixa o marido, 11 filhos, 25 netos, três restaurantes e um livro clássico


postado em 10/04/2019 05:12

Dona Lucinha em seu restaurante na Savassi, em junho de 2016, na última vez em que recebeu o Estado de Minas para uma entrevista (foto: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS)
Dona Lucinha em seu restaurante na Savassi, em junho de 2016, na última vez em que recebeu o Estado de Minas para uma entrevista (foto: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS)

Pela tradição de seus empreendimentos e potência de seu nome, que virou uma marca ao longo de décadas dedicadas à culinária, não é exagero dizer que a matriarca da gastronomia mineira faleceu ontem, em Belo Horizonte. Maria Lúcia Clementino Nunes, a Dona Lucinha, que estava com 86 anos, deixa o marido, José Marcílio, de 90, 11 filhos, 25 netos e uma enorme família de admiradores de seu trabalho.

Natural do Serro, ela atuou como catequista, professora, salgadeira, doceira, feirante, quitandeira, diretora escolar e vereadora. Na capital mineira, são dois restaurantes com o nome dela; em São Paulo, uma filial. O talento na cozinha inspirou outras gerações de chefs e ainda alimentou quem mais precisava, graças aos projetos filantrópicos de seus instituto.

Embora já lidasse há algum tempo com os efeitos do Alzheimer, Dona Lucinha vinha passando bem. Na manhã de ontem, ela sofreu um infarto em casa e não sobreviveu. “Toda a vida dela foi marcada por grandeza. Tudo que ela fazia era com intensidade, mas ela se foi com uma leveza que nos conforta. Estava doente, mas não teve a gravidade de uma saída fatal. Foi uma generosidade de Deus com ela e estamos em estado de gratidão por não vê-la sofrer”, afirma Márcia Nunes, uma das filhas.

Descrita pela herdeira como “uma pessoa que encarava a vida com garra e entrega, mas com muito afeto, generosidade e simplicidade”, Dona Lucinha começou sua trajetória como defensora da cultura gastronômica de Minas Gerais ainda quando atuava como professora em uma escola rural, no Serro. “Ela ensinava os alunos a valorizar os alimentos mais rústicos, dos quais, às vezes, as crianças tinham certa vergonha”, conta Márcia.

A educadora Dona Lucinha percebeu a distorção e logo começou a trabalhar para que as crianças tivessem mais estima pelos pratos de nossa raiz cultural e fazia as merendas coletivamente, com batata-doce, cará, canjiquinha e fubá que os pais deles cultivavam e produziam. “Esse gesto foi se multiplicando ao longo da vida dela, sempre tratando o alimento como patrimônio e tendo um gesto maternal nessa atividade”, diz Márcia.

Nos últimos anos, em razão dos problemas de saúde, Dona Lucinha havia restringido um pouco as atividades profissionais, mas sem deixar de lado a energia para cozinhar. Em entrevista ao Estado de Minas em 2016, ela falou da importância de suas origens no desenvolvimento do tipo de culinária à qual se dedicou. 

“AMOR NA PANELA”  Na ocasião, ela estava prestes a participar da festa de Nossa Senhora do Rosário, em sua cidade natal. “Vou para procissão, não para cozinhar, mas é capaz de alguém me pegar para ir para a cozinha. Mesmo velha, ainda dá para cozinhar”, afirmou na época.

Na mesma conversa, Dona Lucinha revelou alguns segredos de sua culinária, que podem até ser entendidos como conceitos. “Refogado é amor na panela”, definiu ela, que defendia a prática com “gordura quente, mas não quente demais”, para não queimar  itens como cebola e alho, que davam o sabor especial aos pratos. Apegada às raízes da comida mineira e seus ingredientes principais, ela reforçava a importância de preservar essas tradições. “Até hoje não consegui comer essas coisas bem enfeitadas, bem bonitas e sem sabor. Não tenho o menor interesse. Você entra nesses restaurantes e não sente cheiro de comida. Não gosto de jeito nenhum. Tem muita comida mineira feita por grandes chefs, mas que não têm nada a ver”, argumentou.

Os ensinamentos não ficaram apenas nas falas. Autora de História da arte da cozinha mineira, publicado em 2000, ela dizia: “Cumpri minha missão, mas ela não está guardada. O que não está em livro o vento leva”. A obra se tornou uma referência na bibliografia gastronômica brasileira. Em 2015, a escola de samba carioca Salgueiro se inspirou no livro para o enredo “Do fundo do quintal, saberes e sabores na Sapucaí”. A cozinheira participou como convidada de honra do desfile. O que ela ensinou em 176 páginas também podia ser visto na prática, em vários lugares do Brasil e do mundo por onde ela passou levando essa forte marca cultural de Minas Gerais que é a gastronomia local, em grandes eventos do ramo.

O primeiro restaurante com o nome de Dona Lucinha em Belo Horizonte foi inaugurado em 1990, na Rua Padre Odorico, no Bairro São Pedro. Um ano mais tarde, ela abriu a segunda unidade na Rua Sergipe, próximo à Praça da Liberdade. Atualmente, os dois funcionam diariamente para almoço e de segunda a sábado para jantar. As duas casas oferecem o modelo de bufê livre ao público, com fogão a lenha e entradas, saladas, “pratos da fazenda e do tropeiro”, sobremesas, queijo, licores, café e chá.

Durante a semana, o menu inclui uma opção diferente de almoço executivo por dia, sempre contemplando combinações tradicionais, como frango com quiabo, canjiquinha com costelinha ou rabada com agrião, por exemplo. Incluindo a unidade em São Paulo, inaugurada em 1992, todos são administrados por filhos e filhas de Dona Lucinha.

A ideia de acolhimento proporcionada pela comida mineira não ficava só nos negócios. Dona Lucinha também fundou um instituto com seu nome e, durante os anos 2000, desenvolveu um projeto que distribuía sopa à população carente em algumas áreas de BH, como o Aglomerado da Serra e o Morro do Papagaio. A instituição também participava de outras parcerias com finalidade social, como o curso para cuidador de idosos ministrado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e a criação da Casa de Acolhida Padre Eustáquio para Crianças e Adolescentes com Câncer.

ADEUS, DOÇURA

Chefs mineiros relembram a convivência com Dona Lucinha

“Tinha uma relação muito gentil comigo e, sempre me que via, me abençoava, passando a mão sobre a minha cabeça. Ainda sinto um carinho muito grande por ela, a quem sou muito grato. Sentia que ela sempre me transmitia um pouco daquela coisa da cozinha mineira. Era nada menos do que a matriarca da cozinha mineira e minha ídola, vamos assim dizer. Uma pessoa muito humilde e generosa. Sou grato por ter tido a sua bênção. Também tenho uma ótima relação com um dos filhos dela, o Zé Marcílio, uma ótima pessoa. Aliás, tenho um carinho enorme pela família inteira. Ela foi a primeira pessoa que se preocupou em preservar e divulgar a cozinha mineira”

Leo Paixão,
chef

“Uma das matriarcas da cozinha de Minas, ela teve  papel fundamental durante todos esses anos na perpetuação do fazer tradicional da cozinha mineira. Uma pessoa acolhedora e de sorriso constante. O livro dela é um marco na gastronomia, com uma riqueza de detalhes incrível. Pude conviver com ela em um evento, o Madrid Fusion (em 2013), no qual tive uma aula magna com o chef Alex Atala sobre mandioca. Confesso que inventei muita produção para apresentar durante a aula e estava meio atrasado. Ela veio até mim, me tranquilizou, me ajudou, aconselhou e ainda fez comigo uma receita de pão de queijo para servir durante a aula. Uma pessoa incrível e já deixou saudade”

Felipe Rameh,
chef

“Ela não deixa somente o livro dela, mas todo um legado que ficará para sempre com todos. Tinha a paixão guardiã do saber fazer, dos ingredientes... Um grande exemplo, uma grande mãe e uma profissional exemplar. Com certeza, todos temos uma influência direta dela, principalmente pelo contato. Outro grande legado é a paixão pela cozinha mineira”

Flávio Trombino,
chef

“Tive vários marcos importantes em minha vida ao lado de dona Lucinha, principalmente a nossa homenagem a ela e dona Nelsa Trombino, durante o Madrid Fusion, em 2013. Tive a oportunidade de estar em contato com as duas e foi uma experiência muito enriquecedora. Uma outra vez foi em 2015, quando ela foi homenageada pelo Salgueiro, que ficou em segundo lugar naquele ano. Eu e mais alguns chefs mineiros tivemos a oportunidade de ir até a quadra da escola, onde fizemos uma grande feijoada em homenagem à nossa grande matriarca da cozinha mineira. Dona Lucinha era muito humilde e generosa. Vai ser difícil aparecer nas novas gerações uma pessoa com aquela especificidade cultural e gastronômica, acredito.”

Edson Puiati,
professor e coordenador do curso de gastronomia da UNA


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