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Em busca do afeto

Com tradução de Alexandre Barbosa de Souza e editado pela Rádio Londres, Canto da planície, de Kent Haruf, será lançado no Brasil. Obra mostra personagens díspares e solitários que expõem as suas carências


postado em 08/04/2019 05:09


“Amor é muito mais do que o desejo por relação sexual; é o principal meio de escapar da solidão que aflige a maioria dos homens e das mulheres durante a maior parte de suas vidas.” Essa definição, cunhada pelo matemático, filósofo e ensaísta Betrand Russell (1872-1970) no livro Casamento e moral (1929), é uma boa porta de entrada para Canto da planície, de Kent Haruf (1943-2014), a ser lançado no Brasil pela editora Rádio Londres, com tradução de Alexandre Barbosa de Souza.
Finalista do National Book Award em 1999, Canto da planície dá início a uma trilogia que contempla também Eventide e Benediction, ainda sem edição nacional. Toda a obra romanesca de Haruf mantém uma irresistível aura rural e se passa na fictícia Holt, no Colorado – lugarejo inspirado em Yuma, de apenas 3,5 mil habitantes.
O título original de Canto da planície, Plainsong, é uma referência ao cantochão, um estilo de canto sacro criado nos primeiros séculos do cristianismo e um dos mais antigos gêneros musicais ainda praticados no Ocidente. “E, assim como nesse tipo de canto”, relata a orelha do livro, “as vozes graves dos coros e dos solistas se alternam, Haruf, igualmente, entrelaça as histórias de vários moradores de Holt”.
Victoria é uma adolescente grávida, abandonada pelo pai de seu bebê e expulsa de casa pela mãe. Tom Guthrie é um professor de história americana que tem de lidar com um aluno problema e um divórcio traumático. Bobby e Ike, filhos de Guthrie, tentam suprir a ausência – primeiro psicológica, depois física – da mãe ao fazer amizade com a senhora Stearns, a quem entregam o jornal todas as manhãs. Harold e Reymond McPheron são dois irmãos fazendeiros que passaram sua vida sem muito contato social depois da morte de seus pais e não têm a menor noção de trato com outras pessoas.
O início do livro é como um quebra-cabeças desordenado, ou um tabuleiro vazio, onde Haruf vai posicionando seus personagens como um hábil titereiro. Ao mesmo tempo em que costura histórias a princípio independentes debaixo do nariz do leitor, o autor nos faz criar empatia com aquelas pessoas simples e, acima de tudo, solitárias. Como é regra em toda a sua obra, Canto da planície é um livro sobre a busca pelo afeto – não necessariamente um amor romântico, como indica a definição de Bertrand Russell, mas uma fuga do terrível isolamento em que seus personagens vivem.
Em dado momento, Harold diz ao irmão: “Olhe para nós dois. Velhos solitários. Dois solteirões decrépitos aqui neste fim de mundo, a 30 quilômetros da cidade mais próxima, que, por sua vez, também quando se chega lá, é um buraco”. É comovente o esforço que eles fazem quando acolhem a gestante Victoria em sua fazenda para engatar algum assunto com ela – tentam falar sobre as cotações da bolsa de valores que o locutor havia informado no rádio ou sobre como vendem os grãos que produzem em sua propriedade. “E, assim, os dois irmãos McPheron continuaram explicando sobre matadouros, gado de corte e carne selecionada, novilhas e boi de engorda.”
Canto da planície não se passa em nenhuma época específica, mas para leitores atuais, vivendo em grandes metrópoles, o livro é ao mesmo tempo estranho e familiar. Fala de um tempo que já não mais existe para a maioria da população urbana, e algumas cenas chegam a ter descrições quase naturalistas (“Então se posicionou atrás do brete e dobrou o rabo da vaca sobre o dorso. Enfiou uma mão dentro dela e retirou o estrume macio, quente e verde, avançou ainda mais profundamente para sentir se havia um bezerro”). Ao mesmo tempo, aborda a tão decantada questão de se estar só em meio às pessoas, como bem ilustra o diálogo do professor Guthrie com Judy, funcionária da escola com quem ele sai algum tempo após o divórcio: “Por que você veio hoje?” “Não sei. Estava me sentindo sozinho, acho.” “Mas não estamos todos, afinal?”

PERVERSIDADE A diminuta cidadezinha de Holt é usada como ferramenta narrativa por Haruf para explorar a aguda perversidade das fofocas – rumores correm as ruazinhas, comentários maldosos assolam a intimidade dos habitantes, encontros ocasionais são inevitáveis. Nascido no Colorado, Haruf capta bem a atmosfera rural do Oeste americano, e transmite o jeito árido de falar em sua prosa. Assim como o título do livro, a maneira com a qual ele suprime as separações entre as vozes do narrador e a dos personagens é quase uma alusão ao canto.
Esses elementos todos foram se aprimorando na obra do autor até chegar ao seu último livro, Nossas noites, publicado originalmente em 2015 e lançado no Brasil pela Companhia das Letras em 2017. Escrito em menos de dois meses por Haruf, depois do diagnóstico de um câncer que o mataria, o romance deu origem a um filme homônimo, de Ritesh Batra, produzido pela Netflix, que reedita a lendária parceria de Jane Fonda e Robert Redford. Na trama, dois vizinhos idosos e viúvos decidem começar a dormir juntos, não como uma proposta sexual, mas porque as “noites são a pior parte”. Essa fala ilustra um autor que refinou ao máximo sua literatura até alcançar a essência – uma investigação sobre a natureza do afeto. Ler Kent Haruf é desnudar um dicionário de definições de amor entre pessoas díspares. (Estadão Conteúdo)


CANTO DA PLANÍCIE
l De Kent Haruf
l Rádio Londres
l 320 páginas
l Preço sugerido: R$ 63,90


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