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Em noite histórica, Milton Nascimento abre a turnê Clube da Esquina

Pela primeira vez, Bituca reúne em show as canções dos dois discos icônicos da MPB. Apresentação encantou a garotada que nem era nascida nos anos 70, quando eles foram lançados


postado em 18/03/2019 05:12

(foto: João Couto/divulgação)
(foto: João Couto/divulgação)

 

“Foi a melhor noite da minha vida, uma energia surreal”, afirmou Samantha Ribeiro, de 22 anos. A estudante de design de moda estava entre os jovens que assistiram à estreia da turnê Clube da Esquina, de Milton Nascimento, no Cine-Theatro Central, em Juiz de Fora. Sábado (16), Bituca subiu ao palco para um momento histórico: pela primeira vez, apresentou em show as canções dos discos Clube da Esquina 1 e 2, lançados, respectivamente, em 1972 e 1978.

Milton é uma espécie de “herança” para Samantha. “A grande referência do meu avô foi o Milton, ele tinha um toca-discos e colocava o LP do Clube da Esquina pra eu escutar”, conta ela. Augusto Costa, de 18, viajou 120 quilômetros de Cataguases até Juiz de Fora só para ouvir Bituca. Estava sozinho no Cine-Theatro. “Sempre gostei de música mais antiga, principalmente do rock progressivo dos anos 1970. Conforme fui crescendo, descobri o Milton Nascimento. Não dá pra falar de MPB sem falar dele, é a maior referência”, comentou.
A jornalista Bruna Luz, de 24, lembrou que a turnê estreia num momento crítico do Brasil. “Milton traz a esperança de dias melhores”, acredita.

Samuel Rosa, o convidado da noite, divertiu o público ao contar sua “história de infância” com Milton. “O Clube da Esquina chegou aos meus ouvidos antes mesmo dos Três porquinhos e da Chapeuzinho Vermelho. Fui praticamente educado com o Clube da Esquina, meu pai me aplicou logo de cara. Ele deve estar muito feliz no céu, ao ver essa sublime celebração”, disse o músico do Skank, referindo-se ao psicoterapeuta e escritor Wolber Alvarenga, que morreu em 2012, em BH.

CLÁSSICOS Com cenário personalizado, novos arranjos e participação especial do astro do Skank, a nova turnê reuniu 23 clássicos de Bituca, que tocou violão, sanfona e piano. O repertório não se restringiu aos dois álbuns. Maria Maria, Ponta de Areia e Paula e Bebeto também fizeram parte do setlist, ao lado das “anfitriãs” Clube da Esquina 1 e 2, Cais, Nada será como antes, Nuvem cigana, Paisagem da janela, Trem azul, Um girassol da cor do seu cabelo, Paixão e fé e Mistérios, entre outras.

Um dos momentos especiais foi dedicado a Lília, faixa instrumental do primeiro Clube, composta em homenagem à mãe de Milton. “Essa música não tem letra, porque não existem palavras no mundo que possam definir a beleza desta mulher”, afirmou.

Bituca contou para o público histórias do Clube da Esquina – o movimento surgido nos anos 1970, em Minas, que mudou a história da MPB. Dedicou o show a Lô Borges, com quem assinou o álbum de 1972, e recordou a amizade com o letrista Márcio Borges, irmão de Lô.

“Quando morei em Belo Horizonte, tocava baixo e tudo mais. Aí, encontrei com o Marcinho e ele me disse: ‘Milton, você tem que compor’. Disse pra ele que gostava de cantar e tocar, só. Então, ele me levou ao cinema, assistimos a um filme francês umas 200 vezes. Quando terminou, fomos pra casa e naquela noite escrevi três músicas.”

VIOLÃO Bituca também voltou aos tempos de infância em Três Pontas, onde foi criado. Nascido no Rio de Janeiro, perdeu a mãe e morou por algum tempo com a família dela em Juiz de Fora. Ainda pequeno, foi levado pelos pais adotivos, Lilia e Josino Campos, para a cidade sul-mineira.

“Um dia, chegou um cara dos Correios lá em casa, em Três Pontas, levando a encomenda da minha madrinha. Era um presente pelo fato de minha mãe estar me criando. Olhei aquela encomenda, parecia um violão. Já fui direto para o meu quarto e, não sei como, fui treinando até conseguir tocar uma música, que nem sei mais qual é. Aí, chamei a minha mãe e falei: ‘Se te contar uma coisa, a senhora promete que não vai ficar brava?’. Ela disse que não. Então, contei: ‘Chegou uma encomenda pra senhora e era um violão. Só que roubei o violão pra mim’. Aí, toquei a música pra ela. Ela me perguntou como eu tinha conseguido tocar. Respondi que não sabia, só fiz”, revelou, sob aplausos.

Outra homenageada da noite foi Elis Regina, musa e grande amiga de Milton, que interpretou O que foi feito deverá (De Vera). Os dois dividiram os vocais desta faixa no Clube 2. O convidado Samuel Rosa cantou Trem azul e Paula e Bebeto.

SURREAL A celebração do Clube da Esquina reuniu gerações. A família Vargas – Ana Paula, Bruna, Paulo e Márcia – compareceu em peso ao Cine-Theatro Central. “Elas cresceram escutando Milton Nascimento”, contou Márcia, de 61, mãe das garotas. “Ele é surreal, uma grande inspiração”, afirmou a médica, lembrando a importância política do Clube da Esquina, cujos artistas enfrentaram a censura durante a ditadura militar.

“Apesar de antigas, as músicas são muito atuais. É como se fosse uma ‘chamada’ para a população”, observou Márcia. “Foi um período político difícil, e essas canções fizeram parte da história. Não tem como ouvir as músicas do Milton e não reviver todos os sentimentos daquela época”, afirmou Paulo Vargas, de 62, marido de Márcia.

A arquiteta Ana Paula, de 31, e a jornalista Bruna, de 24, adoraram o show. “Sem palavras, né? Não só pelo artista, mas por toda a equipe e os músicos. Foi tudo encantador, emocionante”, destacou Ana Paula, que adorou a participação de Samuel Rosa.

Hudson Martins, de 43, é baixista da banda Los Kactus. “Conheço o Milton desde a infância, mas foi na adolescência que esse vínculo se firmou, pois comecei a tocar violão e a me interessar mais pelas músicas dele”, contou. A Los Kactus gravou o álbum Maria fumaça, em homenagem ao Clube da Esquina. Ao final do show, Hudson era só sorrisos. “Tudo muito lindo, foi emocionante!”, afirmou.

 

 

EM CASA

A estreia da turnê Clube da Esquina em Juiz de Fora tem um motivo especial: há cerca de três anos, Bituca mora na cidade com o filho, Augusto Kesrouani Nascimento, e três cachorros – John, Bituquinha e Txai. Com direção musical de Wilson Lopes e direção artística de Augusto, ele subiu ao palco acompanhado de Lopes (guitarra e violão), Alexandre Ito (baixo), Ademir Fox (piano), Widor Santiago (metais), Lincoln Cheib (bateria), Zé Ibarra (vocais) e Ronald Silva (percussão). Em 28, 30 e 31 de março, o show chega ao Palácio das Artes, em BH, com ingressos esgotados. Depois, segue para Jaguariúna (SP), em 6 de abril; Brasília, em 13 de abril; São Paulo, em 27 e 28 de abril; Rio de Janeiro, em 17, 18 e 24 de maio; e Curitiba, em 1º de junho. Em meados do ano, Milton vai se apresentar na  França, Espanha, Suíça, Holanda e Portugal. De volta ao Brasil, retomará a nova turnê, com shows em Ribeirão Preto (SP), João Pessoa (PB) e Recife (PE).


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