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O berço da palavra


postado em 11/03/2019 05:06

Dor de cotovelo
Expressão conhecida dos que sofrem frustrações amorosas, foram caroneados em alguma promoção ou perderam uma chance praticamente garantida. Mas por que dor de cotovelo? Vamos por partes, como diz o esquartejador. Cotovelo é a articulação entre o braço e o antebraço, muito complexa, apesar de ligar apenas três ossos, o úmero à ulna e ao rádio. Há momentos em que fica, por assim dizer, eletrificado. Quem leva uma pancada nele sabe que a dor da batida parece um choque elétrico. Motivo: um fenômeno chamado parestesia.

Já em linguagem figurada, a dor de cotovelo é coisa bem diferente. Sempre existiu e existirá enquanto houver amor e paixão, relações doídas e traição. A música popular brasileira tem explorado o tema, mas ninguém tanto quanto o gaúcho Lupicínio Rodrigues, embora Altemar Dutra também tenha produzido sambas na mesma linha. Lupicínio, ou Lupe, é imbatível, verdadeiro catedrático no assunto. Chegava a dividir a dor de cotovelo em três categorias: a federal, que termina em porre; a estadual, suportável; e a municipal, que não rende nem um samba sequer.

A origem da expressão é clássica: o sujeito sentado num bar com os cotovelos apoiados na mesa enquanto curte uma bebida e lamenta o amor perdido. De ficar tanto tempo nessa posição, acaba ficando com dor no cotovelo. Do vasto repertório de Lupicínio sobre o tema, eis um trecho de Vingança, bom exemplo: “Mas enquanto houver força em meu peito/ eu não quero mais nada/ só vingança, vingança, vingança aos santos clamor/ você há de rolar como as pedras que rolam na estrada/ sem ter nunca um cantinho de seu/ pra poder descansar”.

Enquanto descem bebida e lágrimas, dói o cotovelo...

JANEIRO – Vem do latim januarius, com berço em Janus, deus romano do passado e do futuro, do início e do fim, do interior e do exterior, das portas que se abrem e das que se fecham. Olhava tanto para o ano que terminou quanto para o que vai começar. Presidia as passagens, as mudanças e, ao mesmo tempo, protegia portas e entradas de uma casa ou cidade. Era o primeiro a ser invocado nas cerimônias religiosas também porque, por seu intermédio, as preces dos homens chegavam aos deuses. Tudo se abria e fechava à sua vontade. Era o Janus bifrons, Jano de dois rostos, por sua faculdade de simultaneamente olhar para a frente, o porvir, e ver atrás, o passado. Uma espécie de deus-bombril, por suas mil e uma utilidades...

LASTRO – A palavra vem do holandês last, carga. Em linguagem marítima, é o peso de pouco ou nenhum valor comercial que, à falta de mercadorias para transporte, é colocado no fundo da embarcação para lhe garantir melhor estabilidade. Mas também é cada uma das placas de chumbo postas no peito e nas costas do escafandrista para mantê-lo no fundo do mar. Também pode ser a porção de alimento que se come para enganar o estômago antes da refeição principal, ou para forrá-lo antes de ingerir bebida alcoólica. Em economia, é a equivalência, em ouro, que a moeda circulante deve ter no Tesouro. Um país sem lastro corre sério risco de bancarrota. Já passamos por coisas parecidas no Brasil, triste memória, hoje felizmente apenas má lembrança...

TROMBETA – Pancada com tromba ou focinho. Por extensão, qualquer batida ou colisão forte. Vem de tromba, órgão de animais como o elefante e o tapir, ou anta – o maior mamífero brasileiro –, que se abre na extremidade para conduzir comida e água até a boca. É derivação da palavra trompa, instrumento musical com tubo longo e cônico enrolado sobre si mesmo, parece o órgão desses animais por sua semelhança física. A palavra tem filhotes como trompete, trombeta e trombone. Quanto à trombeta, entre nós, ela se popularizou em 1929 por causa de curioso acidente: um bonde vinha descendo a Rua Catumbi, no Rio de Janeiro. No caminho, deu de cara com um elefante que acabara de fugir de um circo instalado na região. Para espantar o bicho, o motorneiro aumentou a velocidade do veículo e tocou forte a campainha. Sentindo-se ameaçado, o paquiderme meteu a tromba no bonde, bateu a cabeça em sua lataria e desabou desmaiado no meio da rua. Depois disso, a palavra passou a designar grandes colisões. Na política também há trombadas, mas nenhuma, ao que se saiba, deixa sequelas tão graves, até porque o bar do cafezinho está bem ao lado, pronto para apaziguar os desafetos...

ESTÓRIA — Ela vem do inglês story, pequena história ou narrativa ligeira e chegou a ser utilizada até por Guimarães Rosa em seu livro Primeiras estórias. Mas, a rigor, não há por que utilizá-la em vez de história, que vem do grego histor, sábio, a transmissão de geração para geração dos fatos verdadeiros que compõem a evolução humana. História reflete o factual e estória o fictício, que o diga o velho Rosa...


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