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Estado de Minas

Dicas de Português


postado em 06/03/2019 05:03


>> dadsquarisi.df@dabr.com.br
>> Blog da Dad: www.correiobraziliense.com.br

Recado
“Uma língua não é somente um meio de comunicação. Uma língua é uma visão de mundo.”
Antonio Gramsci

A quaresma da religião

Quaresma? São os 40 dias que vão da quarta-feira de cinzas até a sexta-feira da Paixão. Para católicos e ortodoxos, o período se destina a penitências. A pessoa faz jejum, priva-se de carne e renuncia a prazeres. No primeiro dia da provação, os fiéis vão à igreja. Lá, recebem cinza sobre a cabeça. O padre, então, lhes diz: ‘‘Lembra-te, homem, que és pó e ao pó retornarás’’. Lembra-te também: quaresma se escreve-se com a inicial minúscula.

A quaresma das letras
As letras têm a própria quaresma. Como os religiosos, submetem-se a sacrifícios. As ortodoxas chegam ao extremo. Emudecem. Escrevem-se, mas não se pronunciam. Chamam-se dígrafos. O nome diz tudo. São duas letras, mas um som. Dia, por exemplo, tem três letras. As três se pronunciam. Cada uma forma um fonema. Velha tem cinco letras. Mas quatro fonemas. O lh tem companheiros: ch (chefe), nh (tamanho), sc (consciente), sç (nasça), xc (exceto), rr (acarretar), ss (processo), qu (fraqueza), gu (alguém).

Dissidência
Na língua como na vida, há os dissidentes. “Xô, fundamentalismo”, dizem eles. “Nós queremos falar.” Resultado: nem sempre qu, gu, sc, xc formam dígrafos. O grupo, então, se dissolve. Antes da reforma ortográfica, as rebeldes qu e gu eram indicadas pelo trema. Os dois pontinhos davam um recado: ali estava uma heterodoxa. Por isso o u deve ser pronunciado. O sinal se foi. Mas a insubordinação se mantém. Em frequente, tranquilo, lingueta e linguiça, o número de letras corresponde ao de fonemas.
O mesmo ocorre com pescar, excluir & cia. insubmissa. Para elas, impera a lei do jogo do bicho. Vale o que está escrito. Os grupos sc e xc deixam de ser dígrafos. Entram na regra – um fonema, uma letra. Em suma: ortodoxas e heterodoxas não constituem problema só da língua. A opção delas interfere na pronúncia e na separação silábica. Sobra pra nós.

Sem confusão, folião
O carnaval acabou. Adeus, folia! Adeus, irreverência! Adeus, vista grossa! É hora de guardar a fantasia e cair na real. Pra treinar, fixe-se na grafia das palavras. Comece por jabuticaba. A frutinha pra lá de gostosa se escreve com u.

Aluga-se

A jabuticaba é considerada a fruta mais brasileira que existe. Raramente consegue ser cultivada em outros países. Uma curiosidade: ao que se saiba, é a única árvore no mundo que se aluga. Isso mesmo: em algumas cidades, como Sabará, em Minas Gerais, os proprietários alugam o pé de jabuticaba por hora. O inquilino paga e come a gostosura até onde aguentar. Especialistas de Europa, França e Bahia se renderam à pretinha, como o chef Paul Bocuse: “La jabuticaba nes’t pas pour le bec de tout le monde. Extraordinaire!” (Jabuticaba não é para o bico de todo mundo. Extraordinária!). Em Reinações de Narizinho, Monteiro Lobato dedica um capítulo inteiro à frutinha.

Leitor pergunta
Pulei o carnaval com um grupo de argentinos. Fiquei surpreso com um detalhe: eu entendia o que eles falavam, mas eles não. Sabe me dizer por quê?
Arthur Meira, Santos

O português tem cinco vogais (a, e, i, o u). Mas, com os recursos da camuflagem, a meia dezena vira uma dúzia. O a, por exemplo, soa oral (casa), soa nasal (irmã), soa aberto (sofá), soa reduzido (folha). O e não fica atrás. Ora se escuta oral (belo), ora nasal (bem), ora aberto (café), ora fechado (você), ora reduzido (bate).
A versatilidade do quinteto enriquece a língua. O português é foneticamente muito mais rico que o espanhol. O idioma de Cervantes tem cinco vogais. Avessas a disfarces, as duronas soam cinco. Resultado: nós entendemos melhor o espanhol do que eles o português. Hispanofalantes não conseguem distinguir vovó de vovô. Sem ter sons abertos, eles só escutam os fechados. Pra nossos vizinhos, vovô e vovó são vovô. Entenda quem quiser. Ou puder.


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