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Estado de Minas

A lou-cura contém sua cura


postado em 03/03/2019 05:09

Bloco Tá Pirando, Pirado, Pirou defende a reforma psiquiátrica, além de repudiar a volta dos manicômios e do eletrochoque(foto: Tá pirando, pirado, pirou/divulgação)
Bloco Tá Pirando, Pirado, Pirou defende a reforma psiquiátrica, além de repudiar a volta dos manicômios e do eletrochoque (foto: Tá pirando, pirado, pirou/divulgação)
O carnaval começou mais cedo a botar seus blocos na rua. Um dos mais interessantes saiu no último domingo (24), na Urca, Zona Sul da capital fluminense, e nos interessa por tratar-se de um bloco de usuários da rede de saúde mental que defende a reforma psiquiátrica. Com samba enredo e tudo que tem direito.

A saída do bloco Tá Pirando, Pirado, Pirou foi precedida pelo ato organizado pelo psicanalista Antonio Quinet contra o retorno dos manicômios para tratamento de pessoas com problemas mentais, que antes eram isoladas em asilos, hospícios e manicômios e, hoje, estão com seus terapeutas, psicanalistas e psiquiatras, graças à reforma psiquiátrica. Desde 2001, todos estes métodos de confinamento têm sido fechados.

Porém, não serão esquecidos, pois é preciso relembrar e saber que adoeceu mais do que curou, para não repetir. Médicos e profissionais da saúde mental participaram do desfile ao lado dos usuários, compartilhando com eles o desejo de não retroceder a métodos antigos e desumanos, incluindo o repúdio ao eletrochoque.

O movimento também homenageou Lima Barreto, um dos maiores escritores da literatura brasileira, retratando a vida do povo dos subúrbios, pobres e desvalidos, assim como combatia o racismo (ele mesmo, negro, neto de escravizados). Denunciava a opressão das elites e o preconceito.

Graças à ajuda de um amigo de seu pai, conseguiu matricular-se na Escola Politécnica, mas não pôde concluir seus estudos. Seu pai apresentou graves problemas mentais e foi internado e Lima tornou-se arrimo de família. Passou em concurso público e trabalhou no setor burocrático da Secretaria de Guerra.

Mais tarde, amargurado pelas três recusas para entrar na Academia Brasileira de Letras, incompreendido, recorreu à bebida e foi internado duas vezes no Hospital Nacional dos Alienados na Praia Vermelha. Incorporou este tema à literatura escrevendo Diário do hospício e Triste fim de Policarpo Quaresma, sua obra-prima.

Segue abaixo o discurso de Antonio Quinet, que deu início ao ato de repúdio ao retrocesso nos tratamentos dos portadores de sofrimento mental e também ao desfile que se seguiu:

“Nós, Psicanalistas Unidos pela Democracia, estamos aqui na rua, no Bloco tá pirando, pirado, pirou em um ato público para repudiar a proposta do atual governo de tratar no manicômio o sofrimento psíquico, com eletrochoques e isolamento de adultos, crianças e adolescentes.

Não vamos deixar destruir mais de 30 anos de reforma psiquiátrica, 30 anos de luta dos trabalhadores de saúde mental pelo sujeito do inconsciente, que é o sujeito do direito e o sujeito da história.

Os psicanalistas estão unidos contra a volta do ‘cemitério dos vivos’, nome que Lima Barreto deu ao hospício. O novo governo propõe uma volta às trevas, ao cárcere público e privado da indústria da loucura para os que estão fora da norma social, os foracluídos da norma fálica e da lei do pai. Somos contra a lógica da exclusão-reclusão da loucura. Somos a favor da inclusão da foraclusão.
A loucura tem que estar na rua. Somos contra a pulsão de morte que propõe a eliminação da sociedade dos ditos doentes mentais, dos pirados. Todos podemos pirar.

Nenhum tratamento psíquico se dá fora do laço social. Não há sujeito sem outro. Somos a favor da livre circulação e da livre associação de ideias e pessoas. Temos que dar a palavra ao sujeito, pois a cura de cada um está dentro de si. O sujeito é responsável pelo sofrimento e pela saída dele. Daí, a importância de escutar e acolher a palavra de cada um. E não calar, isolar e trancar.
Somos contra o cala-boca, o calabouço e o calafrio.

Vamos fazer com que cada um encontre as veredas para sair do seu sertão. Temos que dar vez à palavra, voz à palavra. Para deixar sair a lavra da palavra, a larva do vulcão que explode, a palavra certa que acerta na mosca. A lou-cura contém em si a sua cura.”


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