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Estado de Minas

Sobre a procrastinação


postado em 17/02/2019 05:09


Adiar o máximo possível, deixando para outro dia tudo o que poderia ser resolvido agora, é um sintoma tão comum que nem pensamos nele como sendo sintoma, mas o banalizamos como se fosse apenas mau hábito. Afinal, para que levar tão a sério uma coisa tão simples e boba. Acontece que por causa deste empurrar com a barriga até onde der para não se mover traz muitos prejuízos que poderiam ter sido evitados.

Adiar, isto é, procrastinar é um dos sintomas de neurose conhecida como obsessiva compulsiva, entre outros sintomas como a ruminação de ideias fixas, a conferência repetida de ações, como trancar a porta, desligar o forno, o ferro, apagar a luz e muitas outras; os rituais preventivos e protetivos do tipo se a pessoa não fizer tal ato vai ocorrer alguma coisa muito ruim, etc.

No caso da neurose, este traço de adiar tudo é bem marcante. Mas é do ser humano a preguiça de enfrentar problemas, de sair da inércia para acudir de pronto a uma necessidade. Tendemos ao repouso. Ao menor esforço. Quase que invariavelmente. Só não sabemos que as pulsões de vida e morte estão sempre ativas agindo em nós sem que tenhamos consciência delas.

Toda tendência à inércia é uma expressão da pulsão de morte e está sempre agindo em nós. São forças do inanimado, pulsões que nos querem ver descansar em paz. E muitas pessoas têm angústias terríveis por não conseguir superar este sintoma desorganizador.
Mas nem todos sofrem dele. Há quem não conheça a palavra depois. Prontos para o que precisam fazer imediatamente resolvem a vida. Melhor assim, a vida pulsa e precisamos seguir seu ritmo, porque a vida é um constante movimento e para viver temos de resolver diariamente as coisas que dependem de nós.

Porém, há um outro tipo de adiamento do que se poderia resolver hoje ficar para depois. Um exemplo terrível de adiamento de soluções com prejuízo grave. E não por neurose, embora também possam ter um componente dela, mas tem um a mais, um plus como costumamos dizer. A displicência planejada e a morosidade com intenção de enrolar e gastar menos. Diria mal-intencionada, porque demora para não cumprir o que deveria. Uma pitada de perversão.

O adiamento e a morosidade no serviço público e nos atos de má administração pública por incompetência combinam bem com aqueles mal-intencionados. É quase um casamento perfeito. Mas seus efeitos são devastadores.

Por exemplo, os rompimentos de barragens. A primeira. Já estavam advertidos, multados, condenados a indenizar, mas tudo fizeram pelas metades e adiaram – para não fazer – a atenção para o problema. Recurso sobre recurso para, juridicamente apoiados, não agir. E, então, rompeu-se a segunda.

Interesses capitalistas de um lado sempre pensando no mais barato e adiando sempre gastos, mesmos os mais necessários, e do outro lado um Estado moroso e preguiçoso, que não se move facilmente e nem interdita grandes empresas para que respeitem as normas necessárias para garantir a segurança. Inércia e procrastinação que, com ou sem interesses especulativos, fizeram o pior e permitiram a calamidade criminosa. Pulsão de morte que campeia livremente.

Não bastasse Minas, temos grande exemplo no Rio de Janeiro. Flamengo. Depois de 30 multas e advertências, tinham intenção de mudar, mas de boa intenção este inferno aqui está cheio. A prefeitura não deveria interditar? Já não era sabido o perigo?

É assim que age a pulsão de morte! Na calada, na demora, não querendo saber. O adiamento mortífero nos convida a viver menos, viver pelas beiradas, morrer. Aí está!


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