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Estado de Minas

Jantares na madrugada e cantoria no táxi ao lado de amigos mineiros


postado em 14/02/2019 05:05

Bibi Ferreira se apresentou em Belo Horizonte pela última vez em fevereiro de 2017, com o espetáculo 4XBibi. A apresentação, no Palácio das Artes, ocorreria semanas antes, mas teve que ser adiada, como relembra a produtora Tatyana Rubim. Bibi passou mal no dia do espetáculo e acabou sendo internada, por volta das 10h, com problemas cardíacos. Às 16h, queria fugir do hospital e honrar seu compromisso com o palco e o público. A sessão, entretanto, foi remarcada.

“Ela representa a resiliência e a perseverança nessa luta pelo teatro brasileiro. Quando a víamos interpretando ou cantando, éramos tomados por uma emoção inesquecível. Bibi vai deixar saudade, mas não ausência. O estado dela é sempre de presença, na vida e no palco”, afirma Tatiana, empreendedora do Teatro em Movimento.

“Bibi era uma mulher de imensa vitalidade e eterna surpresa. Quando pisava com seu pé direito no palco, ela passava de 90 anos para 19. Quando saía do escuro da coxia para a luz do palco, remoçava pelo menos uns 50 anos. Bibi Ferreira era um milagre”, afirma o também produtor Afonso Borges.

Afonso e Tatyana ressaltam que a artista era singular em seu trabalho e também na rotina. Aos 90, saía do teatro às 3h, ávida pelo joelho de porco de um restaurante alemão na Região Centro-Sul da capital.

O ator, diretor e produtor Ílvio Amaral também guarda boas lembranças dela. “Você é ator? Não quer cometer uma loucura comigo? Estou com um canastrão no elenco. Você tem coragem de entrar no espetáculo?”, perguntou Bibi a ele, que aceitou de imediato o convite. Eles ensaiaram durante três dias, exaustivamente, e estrearam na mesma semana a peça Deus lhe pague.

Amaral conta que caiu nas graças da primeira-dama do teatro brasileiro. Tanto que Bibi veio a BH, em 1998, para conferir o sucesso de Acredite! Um espírito baixou em mim. “Ela me falava diversas vezes: ‘Precisamos fazer uma peça para você estourar no Rio da mesma forma que estourou em Belo Horizonte’”, lembra.

JANTARES “Bibi tinha um carinho comigo. Ela não chamava outros atores tão facilmente para os seus jantares, em que eu era o único desconhecido em meio a várias estrelas.” Ele guarda boas recordações, como o preciosismo nos ensaios e as corridas de táxi ao aeroporto, em que a artista matava o tempo cantando Mulher rendeira. Já o diretor Pedro Paulo Cava comentou que, dos diversos espetáculos de Bibi a que assistiu, na década de 1970, dois o impressionaram: a primeira montagem de Piaf e O homem de La Mancha. “Nesses tempos de mediocridade, com tanta notícia ruim, o Brasil fica mais pobre de inteligência e talento. Suas inteligências estão indo embora”, afirma.

Cava ressalta que a estrela herdou o talento do pai, Procópio Ferreira, que ele define como o maior ator brasileiro. “Bibi viveu e morreu como artista: trabalhando. Ela foi uma referência para todos do ramo, porque era uma artista integral: cantava, dançava e interpretava.”

O dramaturgo, ator e diretor Jota D’Angelo diz que Bibi “era uma artista perfeita, que dominava de maneira excepcional todo o palco, seja como atriz, diretora, cantora e dançarina”. Sua lembrança mais marcante de Bibi nos palcos vem de Gota d’água, de Paulo Pontes e Chico Buarque, que estreou em 1975. “Guardo na minha memória, nitidamente, a beleza daquele espetáculo. Foi uma montagem que, em pleno regime militar, tinha uma clara conotação antiditadura.”


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