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Ficção nacional mostra um Brasil de fanáticos religiosos em Berlim

'Divino amor', novo longa de Gabriel Mascaro, tem Dira Paes como protagonista e é ambientado no ano de 2027. Filme está em exibição na seção Panorama da mostra alemã


postado em 13/02/2019 05:02

Divino amor, novo longa de Gabriel Mascaro, tem Dira Paes como protagonista e é ambientado no ano de 2027. Filme está em exibição na seção Panorama da mostra alemã(foto: Clau Silva/Divulgação)
Divino amor, novo longa de Gabriel Mascaro, tem Dira Paes como protagonista e é ambientado no ano de 2027. Filme está em exibição na seção Panorama da mostra alemã (foto: Clau Silva/Divulgação)

 

Mascaro começou a desenvolver o filme em 2016, antes, portanto de poderosos movimentos evangélicos no Brasil se mobilizarem para eleger Jair Bolsonaro como presidente. “Para mim, ficou muito claro o que estava acontecendo e que um projeto conservador, apoiado pelos evangélicos e seu discurso sedutor, logo chegaria ao poder”, afirmou Mascaro em Berlim.

Em 2027, a festa mais importante do Brasil não é mais o carnaval, mas a celebração do Supremo Amor. A família está acima de tudo e Joana (Dira Paes) é uma funcionária que vive para seu trabalho, que consiste em salvar casamentos em crise. Terapias de grupo, discursos persuasivos, sexo com terceiros... Tudo é válido para manter a união dos casais. Mas ela se questiona: por que Deus não a recompensa com o filho que tanto deseja?.

Em competição na seção Panorama da mostra alemã, Divino amor trata com humor o caminho “perigoso” que Mascaro antevê para seu país. “Além da distopia, tento pensar no futuro, conectando-o à agenda conservadora, nacionalista e populista que está se manifestando no mundo”, afirma. Na opinião do cineasta, no Brasil isso “se materializou com a eleição de Bolsonaro e seu lema ‘Brasil acima de tudo, Deus acima de todos’”. Para ele, “a religião e o Estado andam de mãos dadas em um projeto de poder muito explícito”, destaca o diretor, que se declara ateu.

Como exemplo de sua avaliação, Mascaro cita a nomeação da pastora evangélica Damares Alves como ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos. Apesar de ser um fenômeno relativamente recente no Brasil, o país com o maior número de católicos do mundo, os evangélicos representam quase um terço da população. “É uma religião muito viva, ocupa todos os espaços públicos, não se limita mais aos templos”, diz o cineasta. “O engraçado é que começou há 20, 30 anos na periferia e ninguém, nem os artistas, nem os políticos perceberam isso”.

ESQUERDA Mascaro também acredita que foram os governos de esquerda anteriores que começaram a “normalizar a participação religiosa no Estado, aliando-se a uma Igreja mais progressista”. “E agora, quando a ideologia muda, é outra facção da Igreja mais conservadora que intervém”, afirma.


Em seu filme, rodado quase inteiramente com uma luz artificial e uma atmosfera futurista, o cineasta mostra um “drive thru” religioso, espaços que já existem no Brasil, onde os crentes chegam com seus carros para confessar pela janela com seu pastor. “Observo elementos da vida real e fantasio um pouco mais”, diz Mascaro sobre seu terceiro longa-metragem.

Mas poucas coisas são tão curiosas em Divino amor como os arcos de segurança que os funcionários públicos atravessam ao entrar e sair da repartição e que detectam seu estado civil ou se as mulheres estão grávidas. “Já existe tecnologia para isso”, afirma o cineasta. Divino amor é um dos cinco filmes brasileiros que integram a seção Panorama da Berlinale. O festival deve revelar os prêmios no próximo sábado. Não há brasileiros na competição principal, pelo Urso de Ouro. (AFP)


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