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O peso do luto


postado em 13/02/2019 05:02

 

Certas profissões trazem consigo algumas características que podem parecer estranhas aos outros, mas que para quem as exerce são coisas rotineiras às quais os profissionais se acostumam. Nós, jornalistas, vivemos de dar notícias e, infelizmente, temos que noticiar coisas boas e ruins. Nos últimos tempos, mais ruins do que boas. Acabamos ficando meio calejados diante de algumas mazelas.

Creio que o mesmo ocorre com policias, bombeiros, médicos. Faz parte de suas rotinas lidar com o fatos ruins, situações até mesmo hediondas. Afinal, bombeiros não vivem de podar árvores e resgatar gatinhos para senhoras idosas e nem policiais de passear pelas ruas inibindo crimes com sua presença. Eles enfrentam perigo que geralmente é uma situação de desgraça na vida de alguém.

Vamos buscando forças dentro de nós para criar “calos” e não nos deixar ser atingidos pelo que vimos, ouvimos, vivenciamos e temos que reportar. Não sei se as pessoas já pararam para observar, mas historicamente os meses de janeiro e fevereiro trazem consigo alguns acidentes de grande repercussão. Queda de grandes aviões, chuvas fortes com deslizamentos e soterramentos e por aí vai. Certa vez, um conhecido disse que era a natureza fazendo uma limpa para começar o ano. Claro que isso não é verdade.

De certa maneira, sempre me preparo psicologicamente para o que virá no início do ano, mas 2019 chegou chegando. Veio trazendo uma sequência de tragédias sem pedir licença e sem dar intervalo para que a gente tenha tempo de respirar. O ar está pesado. O Brasil está pesado. Talvez estejamos sentindo tanto por ter começado o ano com uma grande expectativa de um ano melhor e mais leve, já que seria um cenário novo. Estávamos em outro clima, talvez muito otimistas.

O fato é que nem nós, acostumados com as notícias ruins, não estamos dando conta. Está demais. Isso é voz geral entre os colegas de redação, entre os amigos de qualquer roda, e tenho certeza de que mais ainda entre os bombeiros, socorristas e policiais.

Começou com as fortes chuvas em Belo Horizonte, com muito alagamento, que, apesar de rotineiro, causa transtornos, prejuízos e mortes. E diante do que veio depois, caiu no esquecimento. Podemos dizer que virou “café pequeno”. Seguiu com o rompimento da barragem em Brumadinho, que, apesar de anunciarem pouco mais de 160 mortes confirmadas, os outros mais de 150 desaparecidos também estão mortos, ou seja, mais de 300 vítimas.

Em meio a esse caos, vem a chuva no Rio de Janeiro, as sirenes em Barão de Cocais com mais ameaça de rompimento de barragem, espada sobre a cidade de Congonhas, incêndio no CT do Flamengo matando 10 adolescentes e deixando três feridos. E temos que dizer, tirando as chuvas, isso é catástrofe? Não. É assassinato, pois tudo isso ocorreu por falta de cumprir leis, falta de proibição de uso e funcionamento, pois não existia alvará.

Aí vem o acidente de helicóptero matando o jornalista Ricardo Boechat e o piloto Ronaldo Quattrucci. Boechat era excelente profissional, que tinha acabado de falar exatamente sobre as catástrofes. E, no mesmo dia, incêndio no local de treino do Bangu. Graças a Deus não queimou ninguém.

Quando respiramos aliviados, achando que quando janeiro acabasse tudo melhoraria, fevereiro veio com tudo. Será que dá para apagar esses dois meses e começar o ano de novo? Precisamos de um tempo para recuperar o fôlego. Luto pesa, e pesa muito. (Isabela Teixeira da Costa/Interina)


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