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HARDCORE PEGA PESADO CONTRA A TRAGÉDIA DE BRUMADINHO

Bandas da vertente mais colérica do rock se unem e organizam dois festivais para protestar contra os responsáveis pelo rompimento barragem da Vale e prestar solidariedade às vítimas


postado em 02/02/2019 05:10

Os cariocas da banda Pavio participam do festival SOS Brumadinho, marcado para o próximo dia 23, no Rio de Janeiro (foto: Saint Mike/Divulgação)
Os cariocas da banda Pavio participam do festival SOS Brumadinho, marcado para o próximo dia 23, no Rio de Janeiro (foto: Saint Mike/Divulgação)


Se o rock surgiu como uma expressão musical de contestação, o hardcore seria a versão mais agressiva da empreitada. Surgido entre os anos 1970 e 1980, o estilo caracterizado pela alta velocidade nos acordes e na bateria sempre trouxe nas letras algum tipo de questionamento ou protesto contra injustiças sociais e/ou sistemas políticos. O contexto de Guerra Fria no plano global e a ditadura militar no Brasil ofereciam um bom repertório de indignação aos representantes brasileiros do gênero. Ao longo das últimas duas décadas, novas bandas ganharam certa notoriedade apostando em possibilidades mais midiáticas nas melodias e amenas nas palavras. No entanto, diante de um cenário político e social novamente tenso, as letras de protesto voltam a ganhar força no hardcore, que já grita inclusive por Brumadinho.

Uma semana depois do rompimento da barragem de rejeitos da Mina Córrego do Feijão, da Vale – que destruiu comunidades, matou ao menos 110 pessoas e deixou outras 238 desaparecidas –, dois festivais de rock pesado estão marcados em solidariedade à população atingida. Mais do que arrecadar donativos para quem ficou desabrigado ou desalojado, os eventos protagonizados por uma nova cena do hardcore nacional servirão como uma plataforma de protesto contra os responsáveis pela tragédia e o sistema político e econômico que permitiu dois crimes semelhantes em pouco mais de três anos.

DOAÇÕES

Amanhã (3), a Casa Cultural Matriz, em Belo Horizonte, recebe o I Wanna Rock – SOS Brumadinho. Com entrada gratuita, o evento reunirá bandas locais e vai arrecadar alimentos, roupas, agasalhos e cobertores para a população atingida em Brumadinho. Um dos nomes escalados é o Bastardos HxCx. Formada em 2013, quando lançou o álbum de estreia Skate, punk, anarquia, a banda retornou às atividades em 2018, depois de três anos de pausa e agora prepara o lançamento de um novo disco.

Uma das músicas já lançadas, País de merda, denuncia em poucos versos e com mensagem crua e direta a “mercantilização” da vida humana. “Noticiários você vai ver/  A realidade do seu país / Venderam o petróleo / Embalaram sua fé / Negociaram sua saúde / Não o feijão ou o café / Amazônia derrubada / Segurança abalada / Não existe aposentadoria / Sobrou bolsa família”, diz a letra. “Nosso show é sempre um protesto. Levamos cartazes e sempre tentamos ter uma causa no palco. Esse show de domingo será ainda mais importante nesse sentido”, diz o vocalista Deivinho Marques.

O músico afirma que o propósito da banda sempre foi cantar contra injustiças. “Estamos contestando a política, a violência, a desigualdade social. No novo disco, teremos uma música sobre feminicídio e falamos também sobre trabalho infantil e violência doméstica. Infelizmente, o Brasil atual está cheio de temas assim. Parece que voltamos à época de bandas de 30 anos atrás, que nos influenciaram. Estamos falando sobre coisas parecidas, mas é isso que vamos cantar para os jovens de hoje”, diz o cantor, para quem “o hardcore tem que ser de protesto”.

Daqui a três semanas, no dia 23, outro festival – desta vez no Rio de Janeiro – terá Brumadinho como foco de ações solidárias do público e de protestos nas letras dos músicos. Organizado pela gravadora Eletric Funeral Records em parceria com bandas e ativistas locais, o evento reunirá bandas paulistas e cariocas, que abriram mão de cachê.

Uma das participantes é a Apto Vulgar, de Jacareí (SP). Em atividade desde 2012, eles também usam a melodia rápida e bruta do hardcore para denunciar injustiças sociais. Em dezembro, lançaram O inimigo, EP com quatro músicas voltadas à contestação do sistema. Em Humanidade em extinção e Autodestruição, a mensagem parece ter sido escrita a partir do que ocorreu na semana passada em Brumadinho, por falar sobre as graves consequências que a ganância pode acarretar.



SOCÃO NA ORELHA

“A música é a nossa forma de somar e colaborar com essa reconstrução, depois de mais esse crime horrível que ocorreu em Minas”, diz o vocalista Bonzo Core. Ele destaca a postura combativa nas letras.  “O hardcore vem do autoquestionamento, de contestar. Acreditamos que hoje, mais ainda, a mudança vem de dentro de cada um. O que sempre fizemos nas letras foi tentar mostrar que não adianta só reclamar sem um autoquestionamento e sem pensar em quais atitudes podem construir um mundo melhor. É um socão na orelha”, explica.

Com outros projetos anteriormente lançados, como o disco Sistema não operacional (2017), ele lembra que a banda “nunca deixou essa contestação de lado”. “Todos os integrantes (da Apto Vulgar) cresceram em periferia. Temos conhecimento de uma realidade de injustiça e temos preocupação em levar essa informação para as pessoas. O Brasil vive um cenário hoje de repressão, mas isso também trouxe união à cena. A arte marginal tem ganho força. Por isso, o hardcore, pra gente, não é só música, não é só um rolê de banda. É nossa forma de estar próximos uns dos outros. Estamos realmente na ideia de ninguém solta a mão de ninguém, porque o Brasil parece ter voltado para 1964 em alguns sentidos, pelas coisas absurdas que ouvimos por aí”, afirma Bonzo.

A banda carioca Pavio também se apresenta no festival beneficente na capital fluminense. Formado no ano passado, o grupo acaba de lançar Execução sumária, seu primeiro EP, com seis músicas. A faixa-título fala sobre pessoas “exterminadas pela ganância”, “tudo em nome do progresso”.

“Em Brumadinho, a gente viu como a ganância, o poder, a fome pelo dinheiro pode fazer tantas vítimas. Não estão nem aí se vai destruir o meio ambiente, se há pessoas que dependem daquele rio. Foi execução sumária. Quantas pessoas morreram para alguns ficarem ricos? Embora seja uma letra escrita sobre o massacre dos índios pelo homem branco, é uma mensagem que vem a calhar em vários contextos”, diz o vocalista, guitarrista e compositor Marcelo Prol, que também faz parte das bandas P.R.O.L e Força & Honra.

Com som até mais pesado do que a média do estilo, flertando com características do thrash metal, as outras músicas do novo trabalho protestam contra o cenário político e outros temas atuais. Em Mulheres fortes, gravada em parceria com a cantora Lorraine Quadros, o tema é o direito da mulher e o combate à violência de gênero. Marcelo defende a potência das letras do estilo como instrumento de conscientização e transformação social. “Acho legal que as pessoas procurem bandas novas que estão falando sobre coisas importantes. As pessoas que frequentam os shows prestam atenção no que falamos e nossa força é a letra. Costumo dizer que minha arma é o microfone e nossa ideia é fazer as pessoas estarem mais unidas e se protegerem, em vez de procurar um político para protegê-las. É melhor defender o que está do seu lado”, argumenta o músico.

I Wanna Rock – SOS Brumadinho
Shows com Bastardos HxCx, Desistência Zero, Spirit, Cretinos e Calhordas, Satanjinhos, Nadaver, Camineros e Sardonic Force. Domingo (3), às 14h, na Casa Cultural Matriz (Rua Guajajaras, 1.353, Santo Agostinho). Entrada gratuita com R$ 10 convertidos em consumação. Incentivo à doação de alimentos não perecíveis, roupas e agasalhos para desabrigados de Brumadinho. Mais informações:  (31) 3212-6122.

SOS Brumadinho
Shows com Apto Vulgar (SP), Pavio (RJ), Tamuya Thrash Tribe (RJ), We Are The Revenge (RJ) e A Thousand Times (SP). Sábado, 23 de fevereiro, às 21h, no CBGB Lapa (Avenida Mem de Sá, 103, Lapa, Rio de Janeiro). Entrada: R$ 10 + 1kg de alimento não perecível. Incentivo à doação de roupas, medicamentos humanos e veterinários, água mineral e cobertores para os desabrigados de Brumadinho.    


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