Conteúdo para Assinantes

Continue lendo ilimitado o conteúdo para assinantes do Estado de Minas Digital no seu computador e smartphone.

price

Estado de Minas Digital

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas digital por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Estado de Minas

Fé, força e carnaval: filme sobre Bethânia tem religião como eixo

Fevereiros estreia nesta quinta (31) e mostra o desfile da Mangueira que teve a cantora como enredo. Filme tem depoimentos de Caetano e Chigo e revela %u201Cum Brasil tolerante, que conjuga fé com fé%u201D, diz diretor


postado em 31/01/2019 05:03

Documentário que estreia hoje tem depoimentos de Caetano Veloso e Chico Buarque, entre outros parentes e amigos de Bethânia (foto: ARTHOUSE/DIVULGAÇÃO)
Documentário que estreia hoje tem depoimentos de Caetano Veloso e Chico Buarque, entre outros parentes e amigos de Bethânia (foto: ARTHOUSE/DIVULGAÇÃO)


“Uma voz-pessoa, indissociável, desde sempre atada à música através da poesia”, definiu Caetano Veloso, em depoimento à revista Rolling Stone, em 2012, quando sua irmã Maria Bethânia foi eleita pela publicação uma das maiores vozes da música brasileira. O cantor e compositor baiano retoma essa definição nos minutos iniciais de Fevereiros, documentário dirigido por Marcio Debellian, que estreia nesta quinta-feira (31). A partir do desfile da Mangueira em homenagem a Maria Bethânia, realizado em 2016, o longa retrata o sincretismo religioso adotado pela Abelha Rainha da MPB, que transita entre o catolicismo e o candomblé.

A relação que Bethânia promove entre música e poesia e que Caetano ressalta em seu depoimento é o que instiga o diretor do filme a respeito da personagem que escolheu retratar. “Bethânia te joga não só na poesia, mas também no teatro, no cancioneiro de um Brasil profundo, na nossa religiosidade e nas nossas raízes indígenas e africanas. É uma voz que carrega o Brasil dentro de si”, afirma Debellian.

O primeiro contato do diretor com a cantora foi breve e se deu durante as filmagens do documentário Palavra (en)cantada, também voltado à relação entre poética e musicalidade. Outros projetos acabaram aproximando os dois. Em 2011, à frente da Debê Produções, Debellian reeditou o livro Maria Bethânia, guerreira guerrilha, de Reynaldo Jardim, censurado durante a ditadura militar. Em 2014, o documentarista dirigiu O vento lá fora, em que Bethânia e Cleonice Berardinelli leem poemas de Fernando Pessoa.

“Assim que tomei conhecimento da homenagem da Mangueira a Bethânia, sabia que seria algo grande e que merecia algum registro. Não tive tempo de captar recursos, apenas reuni, às pressas, uma verdadeira equipe de guerrilha para começar as filmagens”, conta Debellian. As gravações começaram em 2015, no barracão da escola de samba, quando o desfile estava sendo concebido.

MEIA-NOITE

O documentário também traz registros feitos em Santo Amaro, terra da protagonista, localizada no Recôncavo Baiano. A cantora passa todo mês de fevereiro na cidade em que nasceu e foi criada. O período é marcado pelas celebrações religiosas, uma tradição que a região cultiva e mantém. “O filme estreia em 31 de janeiro. À meia-noite, já será fevereiro. É uma data representativa”, observa o diretor.

Além de Caetano Veloso e da própria Bethânia, Fevereiros traz depoimentos de Mabbel Veloso, poeta e irmã dos cantores; do carnavalesco Leandro Vieira, responsável pelo desfile da Mangueira, entre outros envolvidos na tríade música, crenças e folia. Há ainda uma breve e tocante participação de Chico Buarque.

A musicalidade de Maria Bethânia está presente em todo o longa. Cada ato é ligado por canções interpretadas por ela, com direito a cenas de seus shows. “Entendo que a música também é texto. Em Fevereiros, ela ajuda a narrativa e a construção do roteiro”, afirma Debellian. “Bethânia é famosa e querida pelo que canta. É natural que o filme faça uso de um repertório tão rico. Certamente, as pessoas irão ao cinema querendo ouvi-la.”

A trilha sonora ainda reúne interpretações de Cartola, Caetano Veloso, Chico Buarque, além de sambas da Mangueira e charangas populares de Santo Amaro.

SINCRETISMO

Revelando os bastidores do desfile da Verde e Rosa, o longa adota a mesma abordagem utilizada pela escola de samba em seu tributo à menina dos olhos de Oyá, que garantiu a vitória da escola no carnaval do Rio em 2016. “A Mangueira poderia ter escolhido vários caminhos para essa homenagem, mas optou pelo religioso”, aponta Debellian. Com os depoimentos da cantora presentes no filme, conclui-se que a abordagem não poderia ser mais adequada: fé e devoção são elementos fundamentais tanto para sua arte quanto para sua vida.

Por meio das crenças de Bethânia, devota de orixás e santos católicos, Fevereiros lembra a confluência de religiões entre os brasileiros. “O filme mostra um Brasil tolerante, que conjuga fé com fé, onde é possível cultuar santos de religiões que não são a sua. O Recôncavo Baiano traz essa convivência plena entre as religiões, o que se nota na própria família Veloso, em que Caetano é ateu, Mabel é católica e Bethânia é devota de Nossa Senhora e Iansã”, observa o diretor.

O longa evoca ainda a valorização da cultura negra e de costumes de matriz africana. “Santo Amaro respeita e preserva as tradições negras, aliadas às mitologias e saberes dos índios, habitantes originais dessa terra, e ao catolicismo ibérico vindo dos tempos de colonização. É tudo muito forte e respeitado como raiz. É preciso entender que o Brasil é um país mestiço e assumir isso como uma potência”, defende Debellian.

TOLERÂNCIA

 “Fevereiros fala de Maria Bethânia e da Mangueira, mas sobretudo de um Brasil em que a fé é respeitada, cantada e festejada”, afirma o cineasta. Ele revela ter tido o receio de que seu filme ficasse datado, já que retrata o carnaval de 2016 e só chega aos cinemas três anos depois. “Mas, nesses tempos em que o Brasil parece ter andado para trás, ele fica ainda mais contemporâneo”, diz.

Fevereiros chega aos cinemas em ano oportuno, segundo Debellian, que vê o país virando as costas para si mesmo. “Uma tolerância religiosa que parecia já ter sido conquistada volta a ser assunto, com crescentes ataques a terreiros. Começamos a ver restrições ao samba e certo cerceamento de artistas, o que remete a episódios do nosso passado”, avalia.

“Há três anos, talvez as pessoas não se dessem conta da importância de um trabalho de preservação das tradições. Ao mostrar um lugar onde as diferenças fluem e ocorrem de maneira plena, afirmamos que esse Brasil existe e tem algo a nos dizer”, afirma Debellian.



"O filme mostra um Brasil tolerante, que conjuga fé com fé, onde é possível cultuar santos de religiões que não são a sua. O Recôncavo Baiano traz essa convivência plena entre as religiões, o que se nota na própria família Veloso, em que Caetano é ateu, Mabel é católica e Bethânia é devota de Nossa Senhora e Iansã”

. Marcio Debellian,
diretor de Fevereiros


Publicidade