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Quando a arte é partilha

Depois de mais de 60 anos de atividade, a pianista portuguesa Maria João Pires decide se afastar dos palcos para se dedicar a um projeto pedagógico em meio à natureza


postado em 30/01/2019 05:02

Maria João Pires despontou em 1970 interpretando Beethoven e gravou dezenas de álbuns com as maiores orquestras(foto: Felix Broede/Deutsche Grammophon/Divulgação)
Maria João Pires despontou em 1970 interpretando Beethoven e gravou dezenas de álbuns com as maiores orquestras (foto: Felix Broede/Deutsche Grammophon/Divulgação)
Na cena insólita, a pianista Maria João Pires está em no palco e a orquestra começa a tocar o Concerto nº 20, de Mozart. Nos primeiros acordes, ela se surpreende, faz uma expressão de pânico e leva as mãos ao rosto. Sem interrupção, os microfones registram o diálogo entre ela e o maestro. Ela achava que tocaria outra peça. Não, ele diz, essa era na temporada passada. E agora? Relaxa, diz ele com um sorriso, enquanto rege, você conhece Mozart bem, bem demais. O vídeo no YouTube tem mais de 3 milhões de visualizações. Mas, é fato, ela realmente conhece Mozart tão bem que, assim como Schubert, tem sido um dos pilares da carreira de Maria João.

Sua trajetória de mais de 60 anos reúne prêmios, discos recordistas de venda e concertos com as principais orquestras e maestros do mundo. Para ela, tudo isso basta. No ano passado, a artista resolveu que era hora de se afastar dos palcos. “A decisão de parar vem do fato de que sempre chego à conclusão de que não consigo mais me identificar com a ideia do concerto. Quero, ao tocar, sentir que estou criando algo junto com a plateia. Passei décadas em aviões e em concertos, tempo suficiente para me dar conta de que nem sempre esse compartilhamento e possível”, diz.

Diante da decisão, optou por se dedicar inteiramente a algo que, nos últimos anos, tem ocupado sua mente: a criação de retiros musicais para o público e de workshops para jovens artistas, a partir de uma proposta pedagógica diferente, que aproxima mestres e alunos em hierarquias. Tudo isso em meio à natureza.

O cenário é o Centro das Artes de Belgais, em Portugal, idealizado por ela há quase duas décadas, e onde ela já tentara criar um projeto no início dos anos 2000, esbarrando no entanto em problemas financeiros. Belgais é um lugar em que as pessoas têm liberdade para viver a arte e a cultura de uma forma não comercial.

“Ninguém precisa ter nome, fama, para estar lá. Ter um nome, ser um sucesso comercial, muitas vezes significa perder a pureza, a capacidade de transmitir algo com a música. Enfim, o mundo talvez seja assim. Mas em Belgais queremos uma alternativa, queremos unir pessoas que pensam diferente em um ambiente de respeito à natureza e à arte. É utópico, idealista, eu sei. Mas é verdadeiro”, diz a pianista.

Nos retiros musicais, o público é convidado a se hospedar no centro, participa de concertos, ajuda no cultivo agrícola, tem conversas sobre música, sobre arte (no Brasil, interessados em conhecer o projeto podem obter mais informações pelo telefone (11) 98202-9219). Nos workshops, destinados a jovens artistas, acontece o que Maria João define como transmissão de experiências entre diferentes gerações de músicos. “Adoro construir esses cursos, porque sempre me frustrou muito o formato de masterclasses, já quando eu era estudante. É um tempo que não se aproveita, as pessoas ficam falando de coisas que não são essenciais e há também o lado prepotente do professor, que muitas vezes humilha o aluno, o que é horrível. O papel do estudante, do jovem criativo que quer construir algo por meio da arte em sua vida, não pode ser visto como um papel menor”, ela explica.

O passo seguinte, então, foi trabalhar com seus próprios alunos na Bélgica em um novo formato. “Criamos um processo em que não existe nível de qualidade, não existe um que sabe e outro que não sabe, pois quando é assim o aluno tem medo de errar, fica rígido e, consequentemente, é incapaz de criar algo. É preciso haver uma circulação livre de energia entre aluno e professor. E o resultado é espetacular, porque você consegue ver algo crescer nesses jovens, algo que não estava ali no início.”

Não parece ser apenas discurso. Maria João Pires viveu no Brasil no início dos anos 2000. Morando em Salvador, apresentou-se em todo o país e teve contato com jovens artistas brasileiros, que se manteve mesmo anos mais tarde, quando ela voltou para a Europa. Um deles é o pianista Leonardo Hilsdorf, nome importante da nova geração de pianistas do país, com uma carreira em rápida ascensão.

“A primeira barreira que tive que vencer foi conseguir não chamá-la de senhora durante as aulas”, ele lembra. “Apesar da minha relutância, ela insistia para que nós a tratássemos como você, e entendi que a questão era grave quando sua assistente me disse que se eu continuasse tratando a Maria por senhora, o nosso trabalho não iria funcionar. Parece bobagem, mas diz muito sobre o que ela pensa sobre o ato de ensinar. Com ela não há uma situação de mestre/pupilo, de subordinação. Ela se recusa a ocupar uma posição na qual não apenas ela sabe mais”, explica. “Não toco para as pessoas, toco com as pessoas. Tocar e ouvir são atividades criativas, é a mesma coisa. Arte é algo que se partilha”, diz a pianista com convicção.

Em outubro, Maria João conta que traz esse modelo de workshop para o Brasil, mais precisamente para o Centro Cultural Baía dos Vermelhos, em Ilhabela, no litoral norte de São Paulo. “Farei algumas apresentações e o curso. Estou muito feliz porque faz tempo que não vou ao Brasil e tenho muita saudade.”

Enquanto isso, Belgais segue como sua morada. “Lá atrás, construímos a casa de Belgais, cultivamos a terra, e tudo isso envolveu um esforço criativo muito grande e especial. Recentemente, visitando o espaço com alguns alunos, tocando juntos, percebemos que aquele conceito se mantinha vivo. E que valia a pena construir uma nova história ali. Juntos. É disso afinal que se trata.” (Estadão Conteúdo)


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