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MÃOS À OBRA

Exposição Notas de viagem, em cartaz no Museu Mineiro, traz registros do contato de uma equipe da UFMG com a população de Maputo, capital de Moçambique. Projeto sobre patrimônio cultural visa à troca de saberes


postado em 20/01/2019 05:08

Registro de garoto em Maputo feito pela estudante de cinema Ieda Lagos, que integrou a equipe da UFMG em viagem ao país africano
Registro de garoto em Maputo feito pela estudante de cinema Ieda Lagos, que integrou a equipe da UFMG em viagem ao país africano

 

Experiências de alunos e professores em intercâmbio entre Brasil e Moçambique compõem a exposição Notas de viagem, em cartaz no Museu Mineiro. A ação é uma iniciativa do projeto Patrimônio e Sustentabilidade, realizado entre 2014 e 2018, e uniu membros da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade Eduardo Mondlane, localizada em Maputo, a capital moçambicana. Sob óticas estrangeiras, fotografias revelam culturas e costumes dos dois países, cujas aproximações vão além da língua portuguesa.

De terras mineiras para o continente africano partiram os professores Flávio Lemos Carsalade e Yacy Ara Froner, o fotógrafo Alexandre Costa e as estudantes Heloísa Nascimento e Ieda Lagos. À exposição também foram acrescentadas selfies e outros registros espontâneos feitos pelos moçambicanos Ènio Tembe e Valdo de Jesus Nunes, em temporada de estudos no Brasil.

Por não terem sido feitos com equipamentos profissionais, esses trabalhos têm formato reduzido na mostra. “Incluímos essas selfies para que também fosse mostrado o olhar deles sobre nós, exibindo suas vivências na universidade. Do contrário, a exposição teria uma mão única”, conta Rita Lages, que integra a equipe curatorial da exposição, ao lado de Adolfo Cifuentes e Carolina Ruoso.

CAPULANA Notas de viagem exibe um belo recorte da cultura moçambicana. Por meio das fotografias, é possível conhecer a capulana, um tecido tradicional no país africano, que pode ser usado como saia, para prender cabelos e também amarrar, junto ao corpo, crianças pequenas. Também estão expostas duas esculturas, adquiridas em um centro de artesanato local, que revelam a habilidade dos moçambicanos no trabalho com a madeira.

Para a curadora, é possível traçar um paralelo entre os modos de vida no Brasil e em Moçambique. “Existe uma aproximação por determinadas práticas culturais. A alegria do povo moçambicano é também um traço marcante do brasileiro”, observa Rita, que também viajou ao local, onde comandou oficinas e encontros para troca de saberes.

A experiência, segundo Rita, permite o reencontro dos brasileiros com as raízes negras, essenciais na formação da nossa cultura. “A viagem a Moçambique configura uma ressignificação dos traços culturais e da forma como enxergamos a África. Foi muito importante para poder enxergar o continente, com sua diversidade cultural imensa, a partir de um outro olhar”, opina.

Outro ponto fundamental da exposição é mostrar o papel das universidades federais para a pesquisa no país, em suas diversas áreas. A exposição é fruto de um projeto interdisciplinar da Escola de Belas Artes e da Faculdade de Arquitetura da UFMG com foco em patrimônio cultural. “O intercâmbio, a troca de saberes permitem experiências não só para o saber acadêmico, mas também para o âmbito individual de cada participante.”

ESTUDANTES “Enquanto Ieda Lagos registra o homem na paisagem, em planos abertos, as fotos de Heloísa Nascimento focam nos sujeitos”, observa Rita Lages. A primeira estuda cinema, enquanto a segunda se formou em 2017 no curso de conservação e restauração de bens culturais móveis. Em Maputo, Heloísa visitou e fez trabalho voluntário no Centro Hakumana, que presta assistência a mulheres e crianças. Na vivência, aprimorou sua aptidão para a fotografia e, desde então, trabalha na área.

“Foi nessa experiência que me descobri com a fotografia documental. Até então, estava mais ligada ao laboratório, registrando bens culturais. Quando cheguei a Moçambique, passei a andar com a câmera para todo canto”, conta Heloísa. No Hakumana, despertou a curiosidade das crianças pela fotografia, o que a fez investir em uma oficina artística com os pequenos. “Quis dar a eles a oportunidade de deixar a frente das câmeras e ser, também, os protagonistas do olhar”, diz.

“Tive a sensação de encontrar um Brasil do passado, o que me fez sentir em casa, mas, ao mesmo tempo, trouxe algumas inseguranças. É uma sociedade marcada por um machismo escancarado”, afirma Heloísa. A profusão de cores presente nas ruas, por outro lado, encantou a brasileira. “As capulanas coloridas, usadas pelas mulheres, chamam sempre a atenção. O tempo inteiro nos deparamos com uma diversidade de traços e cores.”
Comparados aos brasileiros, os moçambicanos se mostram mais arredios em um primeiro contato, segundo a fotógrafa. “Precisei de um tempo para poder fotografar as mulheres do Hakumana. Foi preciso desenvolver certa confiança para que elas se entregassem ao olhar da minha câmera. Mas, vencida essa etapa, o acolhimento é sem igual.”

Ao voltar para casa, Heloísa tinha um acervo de 5 mil retratos e a certeza de que havia encontrado sua profissão. “A fotografia me permite transformar o que está à minha volta e também revolucionar conhecimentos dentro de mim”, afirma.

NOTAS DE VIAGEM: BRASIL – MOÇAMBIQUE
Fotografias e esculturas. Até 17 de fevereiro. De terça a domingo, das 12h às 19h. Museu Mineiro. Av. João Pinheiro, 342, Lourdes. (31) 3269-1103. Entrada franca.


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