Outro dia, uma prima comentou comigo sobre o vídeo que recebeu no WhatsApp. Para quem não sabe, acho que sou a única ou das pouquíssimas pessoas do planeta que não tem celular. Consequentemente, não tenho acesso às redes sociais. O material era um trecho da aula-palestra da médica Ana Cláudia Quintana Arantes, geriatra e gerontóloga, explicando o que é Hospsi. Termo do qual minha prima nunca tinha ouvido a respeito – e, confesso, nem eu.
Ficamos surpresas positivamente com a “novidade”, que nem deve ser tão nova assim. De acordo com a médica, Hospsi é “uma filosofia e, ao mesmo tempo, um espaço ao qual as pessoas são levadas para receber os cuidados mais incríveis do mundo no final da vida”. Ou seja, auxilia quando a doença, além de incurável, ameaça a continuidade da existência e não há nada que a medicina possa fazer.
O paciente vai para o Hospsi receber cuidados paliativos multidimensionais (nos âmbitos físico, emocional, familiar, social e espiritual), desenvolvidos e oferecidos – até o momento da morte – por equipe capaz e qualificada. O processo se completa com suporte ao luto oferecido à família e amigos.
Todos os recursos diagnósticos e terapêuticos disponíveis visam à qualidade de vida do paciente e de sua família.
“Ali, não se fica a serviço da doença”, explica Ana Cláudia. “Por sinal, a doença pouco importa. Todos sabem que a pessoa tem pouco tempo de vida. Por isso, deve ser tratada como um rei ou rainha e toda a sua família como nobres. Isso porque têm pouco tempo de majestade na vida e é preciso honrar esse tempo. Como honramos, eles começam a honrar também, tornando-se pessoas vivas, pois até aquele momento todo mundo as observava como se já estivessem mortas.”
A geriatra cita o caso do homem que chegou ao Hospsi em estado terminal de câncer.
Esse paciente chamou a médica, disse que sabia estar em cuidados paliativos, mas não deixava de pensar na possibilidade de um milagre. Pediu para fazer novo hemograma. A doutora concordou, e o resultado foi nível 3. Repetiram o procedimento, pois nem o laboratório acreditou que alguém com a hemoglobina tão baixa estaria vivo.
A médica deu a notícia para ele. O paciente sorriu, disse que estava tudo bem e relembrou um ensinamento de seu pai. Certa vez, ele lhe revelou que o livro da vida tem duas páginas.
“Esse paciente partiu, mas não está morto. Ele vive, e é a isso que nos referimos quando falamos de imortalidade. Nosso corpo se vai, fica invisível, mas a nossa história está viva e perene enquanto alguém contá-la. Enquanto alguém se transformar pelo caminho que a gente escolheu viver, a gente está vivo. A morte não é inimiga, mas parte da nossa humanidade.