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Para além do rosa e do azul


postado em 13/01/2019 05:06

Diante de tanta polêmica sobre o rosa e o azul, começo a pensar sobre o tema e é preciso falar sobre a posição da psicanálise em relação à escolha de sexual. Não é incomum decorar os quartos das crianças que chegam já com sexo conhecido pelo exame de ultrassonografia com as cores azul para menino e rosa para meninas. Às vezes, arriscamos um amarelinho ou verde-água, outras vezes tudo branco parece bem nobre também.

Mas esta polêmica ultrapassa a questão cromática. A cor não importa, mas importa sim entender como se passam as coisas entre o corpo, o desejo e o gozo. Entre o corpo biológico, gozo e o desejo que se imporá ao sujeito sem que ele possa muitas vezes contrariar ou negar, aceitando ou não a inversão que porventura venha se impor a ele.

Somos dotados de um inconsciente e, desde crianças, vivemos em família, com pai e mãe ou com algum cuidador. Nascemos prematuros, inacabados e é o cuidado deles ou de algum substituto que executará o processo de humanização.

Isso significa alimentar, higienizar, acolher com o toque, o olhar e a voz que marcam o corpo. A voz tem importância capital, pois os sons afetivos recebidos pela criança farão marcas que serão fundamentais no desenvolvimento e estruturação psíquica em prol da humanização. A linguagem começará daí desta escuta à assimilação de toda regra gramatical e fonética até a compreensão do significado das palavras, que aos seis meses estará em pleno vigor.

Bebês de seis meses compreendem a maioria das coisas que falamos com eles. É comovente e muito lindo este processo de entrada na linguagem e fundamental para a estruturação e assimilação das regras, leis e do modus operandi da cultura onde será inserido.

Mais tarde, os cuidadores ensinarão os hábitos, tais como usar o vaso sanitário, comer com talheres, tomar banho diário, escovar dentes, e valores como as leis morais, o certo e o errado para que tal criança possa ser inserida na vida social. A criança precisa deste adulto e fará o possível para ser amada, o que lhe garantirá a continuidade do cuidado e da sobrevivência.

A criança interpreta que ser amada é garantia de sua sobrevivência. Então, o amor fará parte da humanização como condição sine qua non de acolhimento e cuidados, já que não sobreviveríamos nos primeiros anos de vida sem o outro. Até aqui tudo certo.

Mas tem o real, este é duro de roer e, por isso, insistentemente negado para proteção da moralidade padrão, e, aí, nem pai, nem mãe, nem pastor, nem presidente e a Constituição vão conseguir mudar o rumo do real.

Trata-se do real da pulsão. Das marcas do gozo do outro sobre o corpo, determinando identificação da criança. Acredito que nenhum pai ou mãe possa decidir sobre o que um filho deve desejar ou não, ou como vai gozar de seu corpo não apenas sexualmente, mas no sentido amplo do termo gozo, pois este está em torno sempre presente. Eles podem impor sua vontade e determinar dentro do certo e errado qual comportamento querem que o filho aprenda.

Alguns abusam, indicando quem é o parceiro ideal para um bom casamento, ou que profissão querem que o filho exerça, ou que o filho deve garantir a continuidade da obra dos pais, desejando ou não.

Às vezes, cola, mas quase sempre é motivo de grande insatisfação e depressão por contrariar o desejo do próprio sujeito, que perde o direito de ser sujeito da própria vida e fazer as próprias escolhas. Não podemos traçar integralmente a vida de nossos filhos. Se eles seguirão as próprias opiniões ou se se submeterão sem realizar na adolescência a separação necessária para se tornarem adultos e responsáveis por seus erros e acertos.

Dito isso, não acredito que cartilhas na escola ou ensinamentos sobre escolha de gênero terão força para mudar ou redirecionar o despertar do real pulsional que orientará a escolha hétero ou homossexual que será produto das marcas do outro.

Escolha que define a preferência daquele sujeito antes da assimilação dos ideais morais. Uma escolha inconsciente, depois esquecida, que não pede consentimento a pai nem mãe, nem pode ser guiada por cartilha nenhuma, mas determina o futuro do desejo sexual, independentemente do corpo biológico. E é a realidade que comprova a veracidade factual. É o que se vê.


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