Continue lendo os seus conteúdos favoritos.

Assine o Estado de Minas.

price

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Estado de Minas

Helvécio Carlos


postado em 01/01/2019 05:06



Nas asas da esperança


Os escritores Conceição Evaristo, Pedro Muriel, Duda Salabert e Carla Madeira assinam a terceira e última história criada a pedido da Coluna Hit. Cada um escreveu um dos quatro trechos do texto feito por troca de e-mail. Ontem, a história – Unidos pelo tempo - foi assinada pelo arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo; o pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana em Belo Horizonte, Nilton Giese; o jornalista Eduardo Sklarz e o escritor Luiz Giffoni. E, no domingo, o texto – Uma data especial - foi dos músicos João Ferreira, Bernardo Cipriano (Banda Daparte), Bernardo Bauer (banda Moons), Júlia Gutierrez e Gentil Nascimento (Julie & Gent).

Quando Gleide Aluá virou a esquina, um vento indiscreto vindo de baixo para cima levantou as bordas do vestido branco da moça. Ela quase em desespero abaixou os braços e desesperadamente tentou abrandar os movimentos da roupa. Entretanto em reboliço a saia subia mais e mais. Sua veste parecia estar sendo tocada por um tufão vindo do centro da Terra. Por um momento, tomada pelo espanto, pelo inusitado da cena, buscou sob os pés algum bueiro. Nada. Ela estava plantada sobre uma calçada livre de qualquer boca-de-lobo, ou dessas grades que deixam os transeuntes adivinharem o percurso do metrô, no subsolo da cidade. Olhou o entorno, e viu que a rua estava vazia. Apaziguou-se um pouco ao perceber que não estava sendo invadida por nenhum olhar indiscreto. Imaginou-se Marilyn Monroe, atriz que sua avó amava tanto. Sentiu-se então com o vestido branco que parecia uma asa incontida a voejar no corpo da mulher. De uma imagem pulou rapidamente para outra. A moça que passou a voar em seu corpo afetivamente lhe era mais próxima. Podia ser quase ela. Percebeu-se como a cantora Alcione, que também parecia voar, em uma foto da capa de um antigo disco. E, afinal, ela, Gleide Aluá cantava também. Estava indo para uma festinha de Ano-Novo. Seria a principal atração da noite com a sua voz melodiosa que seduzia a todos. Impelida pelo movimento do vento que insistia em levantar a roupa dela, a moça paralisou os passos, como se não conseguisse segurar a saia e caminhar ao mesmo tempo. Um calafrio cobriu-lhe o corpo. Veio a lembrança que se achava em uma esquina, numa espécie de encruzilhada. Avistou a casa do amigo, faltavam poucos passos para chegar ao portão. Daí a poucos instantes, fogos se abririam no ar, dia 1º de janeiro estaria rompendo.

Conceição Evaristo


***

Olhou o céu, as luzes e, sem nenhuma acrobacia nos bolsos, celebrou um futuro que doía demais para chegar. Imaginou todos os muros do trajeto, os tropeços, sonhos interrompidos de supetão. Chorou esperando o ano que outra vez se anunciava e gritou com toda alma: Viver é esperar uma conclusão que sempre se perde nas ruas da eternidade, confusão que nunca alinha o destino na hora de esticar os passos. Com mil pensamentos nos ombros, tocou a campainha na esperança de escutar o amigo lhe oferecer um palco qualquer, um abraço qualquer, uma esperança qualquer. Gleide Aluá tinha planos e quase ninguém para compartilhar. Esquecida de pai, abandonada de mãe, memória fantasiosa de avós; lhe restou o talento da voz, a força na hora de sustentar notas até alguém se emocionar. Aí ela recebia aplausos, atenção, fogos de artifícios como os da virada do ano. Entrou na casa vermelha e branca, desceu alguns degraus e se deparou com rostos desconhecidos. Se aproximou de um tapete, um banquinho, um pedestal, o mundo inteiro no seu microfone. Depois de cinco minutos, já estava soltando a voz, tremor infalível nas letras que aprendeu ouvindo os vinis dos anos 60. O amigo sorria, balbuciava frases sem convicção. O público, sem perceber, aprisionado por aquela melodia, pedia bis. Gleide, depois de espalhar seu arsenal e repertório, terminou a noite cantando Cartola. “Bate outra vez/ Com esperanças o meu coração/ Pois já vai terminando o verão, enfim”. Ela sabia que o verão era como uma dor ou uma memória: no peito de alguns não termina nunca. Tomou uma cerveja, se despediu do amigo e também amanheceu junto com o laranja daquela manhã. Forte, viva, quase acordada. Agora o jeito era voltar para o quarto da pensão, para o emprego na biblioteca da universidade, para uma felicidade que nunca começava. Sua saia girando até ela ficar tonta, escapando no vento como passarinho. Um dia vou ser uma estrela, meu nome em cada esquina, minha poesia em todo canto. Por enquanto, canto aqui baixinho, no meu quarto, no meu pranto. Meu Ano-Novo também vai chegar!

Pedro Muriel


***

A lua dormiu. Gleide acendeu-se no silêncio solitário e sonoro que as manhãs do primeiro dia do ano insistem em reproduzir. Mirou-se no espelho: batalha contra os pelos que avançam sobre seu rosto. Não atendeu ao telefone. Envergonha-se de sua voz grossa pela manhã. Mau humor! Zilma, a amiga com quem divide o quarto, chegou suja, alcoolizada e gritou: “Mulher, vou agora para Curitiba, consegui o dinheiro para colocar meu silicone”. Foi embora, levando malas e o apoio financeiro que dava mensalmente no aluguel do quarto. Gleide chorou. Lembrou-se das infinitas dívidas e de que só ficaria, como lhe informou seu chefe, mais um mês empregada, pois a universidade reduziria o número de funcionários nessa crise econômica. Indignou-se ao ver empoeirado na parede seu diploma no curso de Letras. “Uma professora sem escola!”, pensou. Chorou mais ainda ao se lembrar dos aplausos que recebera na noite passada. Chorou porque sabe que sua voz só é aplaudida e ouvida nos bares quando a lua aparece, mas, durante o dia, sua voz é motivo de piadas e risadas. A sociedade que admira seu canto parece empurrar-lhe para um outro canto: esquinas, encruzilhadas. Nas lágrimas, resgatou seu passado e refletiu sobre a realidade presente no país: 90% das travestis estão na prostituição. “Essa frase poderia reconstruir o Poema brasileiro de Ferreira Gullar”, disse. Escolheu o vinil Alucinação, de Belchior. Como seria sua vida nesse próximo ano. Se fizer um mestrado, conseguiria lecionar para crianças? Seriam seu corpo e identidade ameaças para crianças e escolas? Enquanto isso, na vitrola, Belchior cantava “minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos/ ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. O vento entrou pela janela, remexeu o vestido da moça e trouxe consigo a possibilidade, frente às dificuldades financeiras, de vivificar o passado. Encruzilhada.

Duda Salabert


***

A água ferveu. Gleide passou um café e esquentou um pão com manteiga na frigideira. Lembrou-se do vento levantando sua saia. Gostava dessa intimidade e, mais ainda, de não pensar no futuro. Lembrou-se de sua voz na nota mais aguda da noite anterior. Lentamente, revisitou o prazer das notas alcançadas, as mais improváveis. Sempre foi boa com o improvável. Ouviu de novo as palmas volumosas que ocuparam todas as mãos depois que ela cantou: “Minha voz, minha vida, meu segredo e minha revelação…” – enquanto as mãos estivessem ocupadas, não atirariam pedras. Gostou da sensação das palmas vencendo as pedras e riu entre farelos de pão como se mastigasse poesia. Mais um mês de trabalho e rua. Um mês lhe pareceu um tempo distante, o duro seriam as próximas horas… O que fazer no minuto seguinte? As encruzilhadas oferecem saídas demais aos desesperados: desistir? Insistir? Resistir? Por hora, se contentaria em existir. Voltou para a cama limpando a manteiga dos dedos no vestido velho, com o qual só se podia mesmo dormir. Um travesseiro sob a cabeça, outro entre as pernas. Antes de fechar os olhos e abandonar o corpo em concha a uma antiga fadiga, viu o bilhete da Mega-Sena, no criado ao lado, esquecido sob o jarro com flores de plástico. Aquilo, sim, era uma nota alta! Ignorou. Probabilidades estratosféricas não consolam os aflitos. No escuro dos olhos cerrados, travou mais uma vez sua conhecida luta, velha amiga de toda uma vida, a luta para acalmar a realidade dentro de si. Foi quando ouviu nítida a voz dos Anjos soprar em seu ouvido: “Vão-se os sonhos nas asas da descrença, voltam sonhos nas asas da esperança”. Quando acordou, pegou o bilhete esquecido e saiu, não sem antes arrancar um pelo do rosto que lhe nascera no cochilo. Gleide Aluá caminhou com passos de quem é muito boa com o improvável.

Carla Madeira


Publicidade