Unidos pelo tempo
O segundo texto da série fim de ano da Coluna Hit une o arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo; o pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana em Belo Horizonte, Nilton Giese; o jornalista Eduardo Sklarz e o escritor Luiz Giffoni em uma história de amor e solidariedade, sentimentos que devem estar presente não só na virada do ano. Os autores aceitaram o desafio de escrever a história, cuja única exigência era ter o réveillon como pano de fundo. Em dois dias, cada um criou o parágrafo enviando ao próximo, por e-mail. O resultado você confere abaixo. O texto de ontem – Uma data especial – foi escrito pelos músicos João Ferreira, Bernardo Cipriano (banda Daparte), Bernardo Bauer (banda Moons), Júlia Gutierrez e Gentil Nascimento (Julie & Gent).
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Os fogos de artifício são a trilha do clima festivo. Indiferente, B caminha pelas ruas de um bairro simples. Seus passos serenos contrastam com o ritmo acelerado dos que planejam a noite do ano-novo. A serenidade de seus pés também não reflete a inquietude do seu coração.
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
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No entanto, B tem a sensação de já conhecer aquele idoso. O seu olhar lhe parecia familiar. O idoso também o reconheceu e foi logo dizendo: “Desculpa aí, doutor, por eu estar nessa situação”. Depois de algumas palavras, B reconhece que aquele senhor era um dos porteiros de seu prédio, que foi afastado há dois anos por contenção de despesas.
Nilton Giese
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A primeira coisa que lhe veio à cabeça foi tentar conseguir um abrigo para o idoso. Enquanto os fogos serpenteavam o céu, B se lembrou de uma pesquisa que havia lido sobre um programa social para alcoólatras que viviam nas ruas dos Estados Unidos. O programa oferecia alojamento, roupa e comida para os dependentes, sem tentar curar o vício. E o resultado é que o consumo de álcool diminuía quando o dependente recebia um lugar para morar – mesmo se pudesse beber à vontade. Ao contrário do que se pensa, raramente as pessoas vão para as ruas por causa do álcool. Em geral, elas não têm dinheiro para manter a casa e, uma vez na rua, começam a beber para lidar com a situação. B se aproximou do idoso. Durante muitos anos, os dois haviam mantido uma relação cordial, embora distante, como as que existem entre muitos moradores e porteiros.
Eduardo Szklarz
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B hesitou, tentando se convencer de que valia a pena abrir-se. Nem o psicanalista lhe arrancara o segredo. Nem suas mulheres nos momentos de maior intimidade. Sequer os amigos, depois de muitas doses. Concluiu que sua miséria, de certa forma, se assemelhava à do ex-porteiro, apenas disfarçada com a roupagem do sucesso. Dois miseráveis numa noite de ano-novo ao desabrigo de mais um tempo que se vai. Por que não se abrir com ele, e livrar-se do peso de muitos anos, do desconforto de uma atitude insana, da pior das prisões, a da alma que se queima em culpa e não se perdoa? Para remunerar os ouvidos alheios, como fazia nos consultórios, tirou duas notas de 100 da carteira, achou pouco, pegou mais 300, entregou tudo ao companheiro. Dois olhos se acenderam em deslumbramento. Abraçaram-se outra vez. “Sabe – B começou garimpando as palavras com cuidado –, preciso te confessar uma coisa”. Mais fogos começaram a estourar, com ainda mais barulho e brilho, numa das casas da vizinhança. Todas as cores do arco-íris iluminaram a noite.“O que o senhor disse?” “É que eu preciso te confessar...” “Olha que beleza essa chuva de prata e ouro!” “É.” “O que o senhor quer confessar? Pode falar.” “É nada não.” “Pode falar.” “Não tem importância.” “O senhor que sabe.” B e o companheiro encararam o céu como se o espetáculo durasse para sempre!
Luiz Giffoni.