Jornal Estado de Minas

Helvécio Carlos

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Unidos pelo tempo

O segundo texto da série fim de ano da Coluna Hit une o arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo; o pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana em Belo Horizonte, Nilton Giese; o jornalista Eduardo Sklarz e o escritor Luiz Giffoni em uma história de amor e solidariedade, sentimentos que devem estar presente não só na virada do ano. Os autores aceitaram o desafio de escrever a história, cuja única exigência era ter o réveillon como pano de fundo. Em dois dias, cada um criou o parágrafo enviando ao próximo, por e-mail. O resultado você confere abaixo. O texto de ontem – Uma data especial – foi escrito pelos músicos João Ferreira, Bernardo Cipriano (banda Daparte), Bernardo Bauer (banda Moons), Júlia Gutierrez e Gentil Nascimento (Julie & Gent).

***

Os fogos de artifício são a trilha do clima festivo. Indiferente, B caminha pelas ruas de um bairro simples. Seus passos serenos contrastam com o ritmo acelerado dos que planejam a noite do ano-novo. A serenidade de seus pés também não reflete a inquietude do seu coração.

B pensa na sua família, no futuro e deixa-se tomar por uma sensação ruim. Percebe uma pessoa adormecida na calçada. Um homem idoso. Suas vestes sujas, longas barbas, mãos e pés calejados revelam o difícil cotidiano de quem vive nas ruas. Indiferentes à cena, muitos caminham de um lado para o outro. B, pela primeira vez, se impressiona com a gélida reação das pessoas diante de quem sofre. Neste momento, ele percebe também a sua indiferença: tem dedicado a sua vida aos negócios e a momentos fugazes, que proporcionam satisfação efêmera.
A tristeza torna-se mais profunda em seu coração. B aproxima-se do homem que dorme serenamente na calçada. Experimenta um enorme vazio existencial. Os fogos explodem com mais intensidade, o homem acorda e estranha a proximidade de B. Último dia do ano, um instante, elos que aproximam o empresário de sucesso e o idoso que vive nas ruas.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo


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No entanto, B tem a sensação de já conhecer aquele idoso. O seu olhar lhe parecia familiar. O idoso também o reconheceu e foi logo dizendo: “Desculpa aí, doutor, por eu estar nessa situação”. Depois de algumas palavras, B reconhece que aquele senhor era um dos porteiros de seu prédio, que foi afastado há dois anos por contenção de despesas.
Depois disso, aquele senhor não encontrou mais nenhum emprego. A vergonha de estar desempregado fez com que ele se afastasse de sua esposa. Passou a morar na rua. O álcool e até algumas drogas amenizavam seu desamparo. O crescimento da população de rua em Belo Horizonte não é apenas uma impressão, mas uma constatação da Secretaria de Políticas Sociais da capital mineira. Em 2014, havia 1.824 moradores de rua. Em julho de 2018, já eram 4.553 pessoas. No entanto, o próprio Cadastro de Assistência Social (Cecad) admite que esse é o número dos que utilizam algum tipo de programa social. Na verdade, o número de moradores de rua é bem maior. B não podia acreditar no que estava vendo.
Ele tinha ouvido falar das cifras do aumento do desemprego, da população em situação de miséria e de pobreza, mas foi só agora que ele reconheceu um ser humano por detrás dessas cifras. Foi a primeira vez que ele olhou nos olhos de uma pessoa em situação de miséria. E isso o fez se sentir responsável por fazer algo para transformar essa situação.

Nilton Giese


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A primeira coisa que lhe veio à cabeça foi tentar conseguir um abrigo para o idoso. Enquanto os fogos serpenteavam o céu, B se lembrou de uma pesquisa que havia lido sobre um programa social para alcoólatras que viviam nas ruas dos Estados Unidos. O programa oferecia alojamento, roupa e comida para os dependentes, sem tentar curar o vício. E o resultado é que o consumo de álcool diminuía quando o dependente recebia um lugar para morar – mesmo se pudesse beber à vontade. Ao contrário do que se pensa, raramente as pessoas vão para as ruas por causa do álcool. Em geral, elas não têm dinheiro para manter a casa e, uma vez na rua, começam a beber para lidar com a situação. B se aproximou do idoso. Durante muitos anos, os dois haviam mantido uma relação cordial, embora distante, como as que existem entre muitos moradores e porteiros.
Mas agora, com o horizonte iluminado e tingido de cores, B e o idoso se deram as mãos. E se abraçaram. B pôde sentir o cheiro de gin barato que exalava da roupa curtida do ancião. Antes, não havia trocado mais do que um “bom dia” com ele, mas agora sentia vontade de sentar e manter uma conversa longa e sincera. De escutá-lo e ajudá-lo a se reerguer. “Nunca mais vi minha mulher nem meus amigos”, confessou o velho, com a voz embargada. “Tem dois anos que vivo sozinho neste mundo.” B o olhou fixamente e teve vontade de se abrir também. Fazia tempo que vinha guardando um segredo a sete chaves – e sentiu que havia chegado a hora de revelá-lo.

Eduardo Szklarz



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     B hesitou, tentando se convencer de que valia a pena abrir-se. Nem o psicanalista lhe arrancara o segredo. Nem suas mulheres nos momentos de maior intimidade. Sequer os amigos, depois de muitas doses. Concluiu que sua miséria, de certa forma, se assemelhava à do ex-porteiro, apenas disfarçada com a roupagem do sucesso. Dois miseráveis numa noite de ano-novo ao desabrigo de mais um tempo que se vai. Por que não se abrir com ele, e livrar-se do peso de muitos anos, do desconforto de uma atitude insana, da pior das prisões, a da alma que se queima em culpa e não se perdoa? Para remunerar os ouvidos alheios, como fazia nos consultórios, tirou duas notas de 100 da carteira, achou pouco, pegou mais 300, entregou tudo ao companheiro. Dois olhos se acenderam em deslumbramento. Abraçaram-se outra vez. “Sabe – B começou garimpando as palavras com cuidado –, preciso te confessar uma coisa”. Mais fogos começaram a estourar, com ainda mais barulho e brilho, numa das casas da vizinhança. Todas as cores do arco-íris iluminaram a noite.“O que o senhor disse?” “É que eu preciso te confessar...” “Olha que beleza essa chuva de prata e ouro!” “É.” “O que o senhor quer confessar? Pode falar.” “É nada não.” “Pode falar.” “Não tem importância.” “O senhor que sabe.” B e o companheiro encararam o céu como se o espetáculo durasse para sempre!

Luiz Giffoni.