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LGBT sem estereótipo


postado em 25/12/2018 05:08

Pose narra os dramas de jovens na Nova York da década de 1980, quando explodia a cultura dos clubes noturnos(foto: JoJo Whilden/FX)
Pose narra os dramas de jovens na Nova York da década de 1980, quando explodia a cultura dos clubes noturnos (foto: JoJo Whilden/FX)

A presença das séries Pose e Killing Eve na disputa pela estatueta de melhor série dramática de 2019 no Globo de Ouro deixou clara uma tendência que vem se desenhando desde 2018: produções seriadas que propõem uma nova narrativa para personagens LGBT, em que os papéis se distanciam da clássica vertente estereotipada e superficial. Os personagens ganharam maior protagonismo. Nessas nova produções, personagens gays são abordados com maior complexidade, e a história e a sensibilidade são valorizadas.

“A série Pose é preciosa. Acho que seu grande diferencial está em não se contentar em retratar personagens LGBT, mas em apresentar a complexidade da ‘cultura ballroom’, um dos maiores patrimônios culturais da comunidade LGBT”, defende Felipe Areda, diretor do Instituto Cultura Arte Memória LGBT. A série, que tem produção de Ryan Murphy, conta como um grupo de jovens LGBT, expulsos de casa pelo preconceito dos parentes, consegue se abrigar em uma espécie de residência comunitária na Nova York do final da década de 1980.

Naquela época, a identidade gay se tornava parte de uma cultura, de um movimento, e os personagens estão sujeitos a uma maior exposição, embora houvesse pouca aceitação. Pose, em essência, coloca em cena pessoas negras, crise de HIV e uma personalidade LGBT que sobrevive na adversidade. No Brasil, a série é transmitida pelo canal a cabo Fox. “A escalação de um elenco de atrizes predominantemente trans e negras também contribuiu com uma complexidade na representação da comunidade LGBT, para além da representação branca e rica que era presente em séries importantes, mais limitadas, como Queer as folk e L word”, completa Areda.

Se Pose olha para o interior de parte da formação cultural LGBT com uma nova abordagem, outras séries também lidam com o tema ao apresentar personagens tridimensionais, mais complexos e sensíveis, caso de Killing Eve – exibida no Brasil pelo streaming da Globoplay –, Glow, produção original da Netflix e American crime story: O assassinato de Gianni Versace, do canal FX. A lista cresce com produções norte-americanas como The bisexual (Hulu), The chi (Showtime) e Claws (TNT), ainda inéditas no Brasil.

“Nessa perspectiva, LGBTs deixam de ser somente representados e passam a ser apresentados como importantes agentes culturais, que têm criado práticas, sentidos, valores e relações”, analisa Areda. “Acho muito importante que tenhamos cada vez mais artistas LGBT do audiovisual abraçando elementos estéticos e políticos dessa cultura em suas produções. Esses elementos que ultrapassam a presença de personagens LGBT, mas que aparecem nas escolhas estéticas, na narrativa, na filmagem.”

De acordo com Marlon Soares, coordenador do Movimento LGBTS Pensar, esta nova forma de apresentação de personagens que saem do espectro heterossexual vai além das telinhas e pode trazer ganhos sociais importantes. “A gente percebe esse movimento ainda a partir do rádio da TV, e depois das radionovelas é perceptível que essas histórias fazem as pessoas se aproximar dos personagens e se sentir mais suscetíveis a entender aquela realidade. E mesmo que, em um primeiro momento, as pessoas pensem ‘só tem viado e sapatão na TV’, é importante que a população acabe vendo dois lados de uma história e tendo maior informação”, acredita.

E se a equação para uma nova visão social é importante, Soares faz questão de ressaltar que a outra ponta dos envolvidos também tem o que comemorar. “Os próprios LGBTs se enxergam em um papel de maior destaque e maior importância dentro da própria sociedade, com a representação histórica. São pessoas que se entendem como indivíduos participantes do meio social, a partir do momento em que vemos os LGBTs em mais produções, com uma nova abordagem”, aponta.

Mas nem tudo é perfeito. Essa nova abordagem ainda faz parte de um movimento embrionário. Nas produções brasileiras, por exemplo, a maioria dos personagens ainda estão presos em um espectro de estereótipos e superficialidades. Além disso, é importante também que todas as siglas do LGBT englobem essa nova perspectiva, como argumenta Soares. “Ainda acredito que seja possível tratar a transexualidade com uma riqueza maior de detalhes e cuidado”, diz.


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