Respaldado por 17 anos de carreira e premiados espetáculos para adultos – como é o caso de Hysteria (2015) –, o paulistano Grupo XIX de Teatro mostra que peças infantis podem transcender – e muito – os contos de fadas e super-heróis. Hoje o escuro vai atrasar para que possamos conversar, que ficará em cartaz no CCBB até dezembro, comprova isso. Embora se apresente como uma narrativa lúdica para a criançada, o espetáculo está centrado em temas sérios e urgentes ligados à infância, como o bullying e o respeito às diferenças.
Com dramaturgia de Ronaldo Serruya e direção de Luiz Fernando Marques e Rodolfo Amorim, a história se passa em uma aldeia triste, onde os animais deixaram de existir. Sem respostas, mas curiosas a respeito do fenômeno, crianças iniciam sua própria busca. Por causa de sua inquietação, uma delas também some, vítima de bullying dos colegas.
Remetendo a temas delicados tanto para crianças quanto para adultos, a fábula se inspira no livro De repente, nas profundezas do bosque, do escritor israelense Amós Oz.
Pela primeira vez, o dramaturgo Ronaldo Serruya e o Grupo XIX se voltam para a garotada. “Assisti a muitas peças infantis antes de fazer essa. Fiquei impressionado com o quanto elas subestimam as crianças, partindo do princípio de que são incapazes de operar dentro de uma linguagem artística ou entender metáforas e outras linguagens poéticas”, diz Serruya.
Para apresentar uma trama com diferentes camadas de entendimento, o dramaturgo se valeu do próprio livro que inspirou a peça. “A referência do Amós Oz é bastante metafórica.
OFENSA Em meio à estrutura fabular da vila, com seus animais desaparecidos, a peça discute o preconceito e o respeito às diferenças. “Nosso foco é o bullying e a tentativa de deslegitimar e ofender o outro por uma identidade que ele porta involuntariamente, mas que o define enquanto identidade. Queremos falar disso, dos processos opressores que acontecem na escola. Normalmente, não temos uma arena de discussão sobre esse tema. A criança sofre calada, não acha espaço para conversar sobre o assunto com ninguém, nem com os pais”, destaca Serruya.
O dramaturgo e ator observa que esse tipo de questionamento vem sendo atacado atualmente. “De um tempo pra cá, com discussões identitárias ganhando relevância, percebemos que há vontade de falar sobre isso.
A proposta do Grupo XIX não se limita ao palco, onde atores adultos interpretam crianças. A plateia é convidada a se tornar parte do espetáculo. Trata-se de uma experiência interativa, pois público e atores transitarão pelo espaço físico do CCBB, um prédio histórico na Praça da Liberdade.
“Como a peça trabalha a questão da autoridade e do bullying, a gente quis brincar com a dinâmica do outro lugar, de você se colocar no lugar do outro. Isso vai da itinerância, de você caminhar no CCBB, a sentar-se no palco, enquanto os atores vão para a plateia, invertendo o ponto de vista”, explica o diretor Luiz Fernando Marques.
Para ele, Hoje o escuro... é “uma fábula fácil de entender sobre assuntos que às vezes são difíceis de se conversar”. Marques ressalta que a oportunidade de reflexão também vale para os pais.
ESCOLA Outro ponto sensível do espetáculo, sobretudo nestes dias de intolerância, é o ambiente escolar. “Uma coisa legal é a peça se passar dentro do universo da escola.
Até 23 de dezembro, o Grupo XIX de Teatro ficará em cartaz de sexta a segunda-feira, no CCBB. Nos fins de semana, haverá duas sessões, às 11h e às 16h. A peça estreou em março, em São Paulo.
Além do dramaturgo Ronaldo Serruya, o elenco conta com o diretor Rodolfo Amorim, a diretora de som Tarita de Souza, a figurinista Juliana Sanches e a atriz Janaina Leite. A instalação-cenário se inspira na obra da artista plástica mineira Lygia Clark.
HOJE O ESCURO VAI
ATRASAR PARA QUE
POSSAMOS CONVERSAR
Dramaturgia: Ronaldo Serruya. Direção: Luiz Fernando Marques e Rodolfo Amorim. Com Grupo XIX de Teatro. Sexta e segunda-feira, às 16h.
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