Igarapé e Ibirité – O céu é de lona. O chão, de estrelas. No século 21, a milenar arte do circo ainda encanta o “respeitável público”. Na próxima quinta (15), chega aos cinemas O Grande Circo Místico, longa de Cacá Diegues que o Brasil indicou como seu representante na corrida pelo Oscar de melhor filme estrangeiro. Inspirado no poema de Jorge de Lima e com músicas de Chico Buarque e Edu Lobo, conta a história de uma família circense. Mas circo não é coisa só de cinema.
O Estado de Minas acompanhou o trabalho de duas companhias que estão rodando a Região Metropolitana de Belo Horizonte. De um lado, o Castelli, circo de porte médio, com 25 artistas e capacidade para receber público de até 750 pessoas. De outro, o Fantástico Circo Show, com estrutura bem menor – 12 artistas e lotação de 200 espectadores.
Como a maioria dos picadeiros, o Castelli tem origem familiar. O nome é alusão ao sobrenome artístico do ator Henri Castelli, que, na verdade, se chama Henri Lincoln Fernandes Nascimento. “A mãe dele é irmã do meu avô. Ele é nosso primo e nos autorizou usar o nome e a imagem dele.
Flávia aprendeu as artes circenses em parte com parentes e em parte no método autodidata. Debaixo da lona, ela já fez malabares, mágica e trapézio. Depois do nascimento de Maurílio Júnior, seu segundo filho, há oito meses, Flávia está encarregada somente da parte administrativa. “Amo o que faço. Tem que ter muito amor pela arte, porque não é fácil a gente sobreviver no meio de tanta concorrência, ainda mais com essa revolução digital que vivemos. Só o amor explica a sobrevivência do circo”, diz ela.
Nas últimas semanas, a sede do Castelli foi a cidade de Igarapé, a 50 quilômetros de Belo Horizonte. O circo conta com boa divulgação, por meio de cartazetes e carros de som, e costuma ter presenças especiais em seus espetáculos, como a do trapalhão Dedé Santana.
DISPUTA Tia de Flávia, Jaqueline Souza faz tanto sucesso junto ao público que, após os espetáculos, costuma dar autógrafos e tirar selfies. Para ela, um dos aspectos mais interessantes do circo é seu formato circular, que torna todos iguais. “Somos um só. Você olha e está todo mundo no mesmo plano. Ninguém é melhor do que ninguém. Desde o batedor de estaca, passando por quem se apresenta, até chegar ao gerente. Está todo mundo, literalmente, no mesmo plano, no mesmo patamar. Se um faz sucesso, todos fazem. Não tem disputa”, defende.
Além de anunciar os números no palco, Jaqueline desenvolve há anos um trabalho social com o circo, ensinando técnicas circenses a adultos e crianças. “Tem quer ser multiplicador de público, mas também multiplicador de artistas.
Com o lema “Alegria da criança é o sorriso do palhaço. E vice-versa”, Kelvyn não entra no picadeiro sem fazer suas orações. “Sou cristão e não consigo ser um bom palhaço sem Deus na minha vida. O dom vem dele, e entrego em suas mãos.” Ele chegou a atuar como jogador de vôlei, mas o circo falou mais alto e há pelo menos três anos ele faz do Castelli a sua casa e o seu ganha-pão.
“Falam que o circo é a mãe de todas as artes, porque ele tem teatro, dança, humor, emoção, gargalhada, suspense. O circo hipnotiza as pessoas e mexe com todos os sentidos do ser humano. É completo. Circo é alegria e gratidão, porque não tem nada que me deixa mais feliz do que deixar o outro feliz”, diz. Embora leve uma vida muito diferente da maioria dos jovens de sua idade, Kelvyn diz não ter do que reclamar.
A vida nômade é um dos aspectos que mais fascinam Jéssica Luiza, de 25, que também é de família circense – ela nasceu quando os pais trabalhavam no Circo do Beto Carreiro. Hoje aposentada do picadeiro, a mãe de Jéssica vive em Uberlândia. “Estou tão acostumada com meu trailer que, quando vou para lá, estranho tudo. Gosto do meu cantinho e do jeito que vivo”, diz a artista, cujo namorado também atua no Castelli, só que nos bastidores. “É normal a gente se relacionar com quem a gente trabalha, ainda mais no circo, onde ficamos grudados dia e noite”, diz ela. No picadeiro, Jéssica se desdobra entre a lira (uma espécie de bambolê em que executa acrobacias aéreas) e a força capilar (número em que realiza evoluções suspensa pelo cabelo). “Minha vida é essa e não tenho do que me queixar. Nem sei dizer do que mais gosto. Mas acho que não me adaptaria a outro estilo. Para você ter uma ideia, vamos ter folga no réveillon, mas a maioria decidiu viajar junto e ir para Santa Catarina”, diz.
A base e a origem do Circo Castelli são o estado de São Paulo, de onde vem também maior parte dos seus integrantes. Mas há pelo menos três anos o Castelli roda Minas Gerais. O elenco incorporou artistas mineiros e conta também com estrangeiros, como o venezuelano Darwin Diaz, de 33. Há oito ele trocou a faculdade de serviço social em Caracas pelo picadeiro.
“Minha família não é de circo. Mas parecia que eu tinha que seguir um chamado. Sempre foquei nessa área humana e, quando descobri os malabares, não teve jeito”, conta. Em princípio, seus pais não foram muito favoráveis à escolha e se preocuparam com o futuro de Darwin. Ele chegou a se graduar em artes circenses na Argentina. De circo em circo, acabou no Brasil.
“Hoje, meus pais aceitam, porque sabem que faço o que gosto e sou feliz. Já conheci vários lugares do mundo com o circo. Acho que esse é um dos lados mais interessantes dessa profissão. A cada dia estamos num lugar, conhecemos culturas, hábitos e comidas diferentes”, diz Darwin, que se especializou em diabolô, brinquedo originário da China que lembra um ioiô. “Tem que ter muita dedicação. Mas é fascinante. Consigo fazer centenas de manobras com esse aparelho, e a plateia adora.”
CIRCO CASTELLI
Até 25/11, na Avenida Francisco Firmino de Matos, em frente ao Tradição da Roça, Contagem. De segunda a sexta, às 20h30. Sábados e domingos, às 18h e às 20h30. Ingressos: R$ 5 (crianças) e R$ 10 (adultos). Mais informações: (37) 99969-6056..