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Estado de Minas

Amor em tempos de guerra

Filme dirigido por Joana Mariani aposta no filão romântico, pouco valorizado no cinema nacional. A música é %u2018personagem%u2019 da trama sobre dois casais às voltas com uma fita K-7


postado em 08/11/2018 05:10

Marina Ruy Barbosa e Bruno Gagliasso interpretam os apaixonados Ana e Chico (foto: Fotos: Mar Filmes/divulgação)
Marina Ruy Barbosa e Bruno Gagliasso interpretam os apaixonados Ana e Chico (foto: Fotos: Mar Filmes/divulgação)


Quem não tem uma música que marcou “aquele” momento da vida? Seja um relacionamento amoroso, uma amizade, uma viagem... Esse mote inspirou a diretora Joana Mariani a escrever o argumento de Todas as canções de amor. Em cartaz em BH, o filme marca a estreia dela na ficção.

“Recém-casados vão morar num apartamento em São Paulo e se deparam com um aparelho de som 3 em 1. Dentro dele há uma fita K-7. Era muito comum a gente gravar fitas e colocar nomes nelas. Aquela fita se chama ‘Todas as canções de amor’”, explica Joana.

Esse filme autoral se baseou em experiências da diretora e de integrantes de sua equipe. “Não há nenhuma cena que eu tenha vivido. Comecei a escrever e foram entrando outras pessoas (Nina Crintzs, Vera Egito e Roberto Vitorino assinam o roteiro). Quando fiz o argumento, estava me separando. Lembro-me de comentarem: ‘Nossa, que pena que deu errado!’. Mas não deu errado, tivemos uma filha. Por isso, abrimos o filme com o Soneto de fidelidade, do Vinicius de Moraes. Não é porque acabou que foi um fracasso. Tudo é cíclico”, ressalta.

O fim e o começo se “encontram” nessa história. Enquanto Ana (Marina Ruy Barbosa) e Chico (Bruno Gagliasso) curtem a fase das descobertas do amor, Clarice (Luiza Mariani) e Daniel (Julio Andrade), os antigos moradores do apartamento, estão prestes a se separar. Ana se depara com a fita deixada pelo outro casal. Estranha o fato de as músicas falarem de rompimento, apesar do título “Todas as canções de amor”.

“O que tem em comum entre os casais é a força feminina. São duas mulheres extremamente fortes, apesar das idades diferentes e de momentos distintos da vida. Elas têm atitude, sabem o que querem”, observa a diretora.

Já os homens adotam posturas opostas. Daniel é um músico que, curiosamente, não sabe escutar. Por isso, a mulher grava a fita. “Quem sabe, ouvindo música em vez de ouvir a minha voz, você entende o que estou querendo falar?”, afirma Clarice. “O personagem tem uma limitação emocional. Por meio das canções, ele até consegue absorver um pouco do que a mulher quer dizer. Já o Chico é o contrário, sabe ouvir. A cada frase ou atitude da Ana, existe uma ação e reação. Ele tem inteligência emocional”, comenta Joana Mariani.

ELO

“Personagem”, a música vem unir as tramas paralelas. “Ela se tornou um elo. Não queria que o filme se tornasse uma grande D. R de dois casais”, comenta a cineasta, referindo-se ao apelido das discussões de relacionamento. A trilha sonora traz de tudo um pouco: Gilberto Gil, Chico Buarque, Marina Lima, Rita Lee, Kaoma, Leandro e Leonardo, Marisa Monte, Lulu Santos, Cartola e Velvet Underground.

“Sou uma pessoa muito eclética. Gosto de samba, sertanejo, lambada, MPB. A música vai te guiando para se sentir triste ou feliz, para querer dançar ou chorar”, acredita Joana. A playlist é reflexo não só das escolhas da própria cineasta, como dos roteiristas e da cantora e compositora Maria Gadú, responsável pela direção musical.

Gadú assinou arranjos e interpretou Eu sei que vou te amar. Também produziu Drão, cantada por Gilberto Gil e Julio Andrade, além de fazer backing vocal em I will survive, com Iza, Liniker e Nina Maia.

RECORTE


O momento é oportuno para o filme estrear, depois da campanha eleitoral marcada pela intolerância. “Fizemos um recorte, que é a finitude, mas o amor resume essa história. As pessoas estão precisando de histórias de amor”, pontua Joana Mariani. Há dois anos, quando ela e a sócia, Diane Maia, abriram a produtora audiovisual Mar Filmes, a ideia era experimentar novidades.

“O cinema nacional estava muito focado nas comédias. Daí a ideia de inovar. Romance é pouco visitado por aqui. Adoro, cresci assistindo a esse tipo de filme. O último longa brasileiro do gênero que fez sucesso foi Pequeno dicionário amoroso (2001). Tem quase 20 anos”, lamenta Joana.

A produtora Diane Maia, mineira de Raul Soares, mora em São Paulo há 15 anos. De acordo com ela, lançar um romance no atual cenário do país foi um desafio. “Filmes não podem ser feitos apenas com o intuito de ganhar dinheiro, mas de ganhar o público, fazer com que ele se apaixone, assim como a equipe envolvida nessa produção se apaixonou e acreditou. A gente faz histórias para dividi-las com as pessoas”, defende.

Um dos destaques do longa é a fotografia, que conta com tecnologia de ponta: um painel de LED nunca usado no Brasil. Diane explica que a intenção é valorizar o chamado filme de ator. Por isso, foi importante encontrar o melhor ambiente para a dramaturgia. “Decidimos replicar, em estúdio, a sala do apartamento onde os casais vivem. Em diversos dias, filmamos a noite, o amanhecer, o entardecer nesse apartamento real e replicamos os vídeos no painel de LED”, detalha.

Na semana passada, Todas as canções de amor conquistou o prêmio da crítica de melhor filme brasileiro concedido pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. “Nossa produtora vem colhendo bons frutos. Ganhamos também o Prêmio Anistia Internacional com THF – Central Airport, de Karim Aïnouz, que estreou na Berlinale 2018. Vamos fazer documentário e musical sobre o Sidney Magal, o drama histórico Cyclone, do Karim, e a animação 3D dos Saltimbancos. É um excelente começo”, comenta Diane.

CASAL

Bruno Gagliasso e Marina Ruy Barbosa formam um casal tanto em Todas as canções de amor quanto em O sétimo guardião, novela que estreia na segunda-feira (12). Porém, o projeto do filme é anterior ao folhetim da Globo.

Joana Mariani diz que imaginou o longa especialmente para o elenco. “O embrião nasceu há sete anos. Luiza é minha prima, uma grande atriz, prometi um personagem pra ela. Conheci o Julinho Andrade no filme A Estrada 47, do qual fui diretora-assistente. Nas noites de violão no quarto dele, na Itália, comecei a imaginar o Daniel”, revela.

Bruno é amigo da cineasta há vários anos. O personagem Ana surgiu depois. “Os atores se encaixaram justamente porque os papéis foram escritos para eles. Deu supercerto, porque os casais tiveram excelente química”, conclui Joana Mariani.

três perguntas para...

Bruno Gagliasso
ator

O que mais o atraiu em Todas as canções de amor?

Poder falar de amor nestes tempos em que a gente precisa tanto dele. É um romance, gênero não muito comum no cinema brasileiro. Um filme sensível, que traz um olhar poético sobre as relações e os conflitos a partir da música, o fio condutor da história. O encontro com a Joana Mariani foi muito feliz. Certamente, vamos nos reencontrar.

Qual é a principal mensagem do filme?

Há poesia e beleza até nos relacionamentos que chegam ao fim. E a música salva.

Você tem uma canção de amor preferida, alguma marcante em sua história com Giovanna Ewbank, com quem é casado?

Vou responder de forma geral. As cinco músicas de amor de que mais gosto são Drão e A novidade (Gilberto Gil), Fotografia (Leoni), Trevo (Anavitória) e Trem-bala (Ana Vilela).


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