Jornal Estado de Minas

CHÁ VERDE

Quem foi Michiyo Tsujimura, a cientista que descobriu os componentes nutritivos do chá verde

Por que o chá verde tem sabor amargo?

Quais são as propriedades que proporcionam esse sabor peculiar, único do chá comum?

Originária da China e do Japão, essa bebida milenar começou a ser consumida já no ano 2700 antes de Cristo e tornou-se parte fundamental da cultura de muitos países asiáticos.





Mas, somente na metade da década de 1920, quando sua composição química começou a ser detalhadamente estudada e analisada, foi possível compreender, entre outras coisas, de onde provém esse sabor amargo.


Após milênios de consumo, chá verde teve suas propriedades destrinchadas por cientista na década de 1920 (foto: Domínio público)

A cientista responsável por essa descoberta chama-se Michiyo Tsujimura. Graças à sua curiosidade e incrível capacidade de processar as folhas de chá para análise, a cientista concluiu que o chá contém elementos curativos e benéficos para a saúde.

Mas como ela conseguiu chegar a essa descoberta em um mundo científico até então dominado pelos homens?

Pioneira da ciência no Japão

Michiyo Tsujimura nasceu em 1888, no local onde fica hoje a cidade japonesa de Okegawa, no distrito de Saitama. Ela estudou na Escola Normal para Mulheres de Tóquio, onde se formou em 1909.





Posteriormente, ela ingressou no Departamento de Ciências Bioquímicas da Escola Superior para Mulheres de Tóquio. Foi quando ela descobriu seu interesse pela pesquisa científica, que, até então, era principalmente conduzida pelos homens.


Homem vende chá verde nas ruas do Japão na década de 1950. A bebida é uma parte importante da cultura japonesa (foto: Getty Images)

Tsujimura conheceu outras mulheres em início de carreira, como Kono Yasui, reconhecida bióloga e bioquímica celular, que se tornaria a primeira mulher japonesa a obter grau de doutorado em ciências, inspirando profundamente Tsujimura.

Após sua graduação em 1917, Tsujimura dedicou-se a dar aulas de ciências nas escolas femininas pioneiras do país. Mas seu enorme interesse em aprender levou-a a seguir adiante, ingressando na Universidade Imperial de Hokkaido, no Japão, que não aceitava mulheres como alunas.





Por isso, ela ingressou como assistente do Laboratório de Nutrição e Alimentos do Departamento de Química Agrícola, sem receber remuneração pelo seu trabalho.

Nesse posto, Tsujimura dedicou-se a estudar os bichos-da-seda e sua nutrição. E assim, pouco a pouco, começou a ser reconhecida.


Kono Yasui, reconhecida bióloga e bioquímica celular, tornou-se a primeira mulher japonesa a obter grau de doutorado em ciências e foi uma inspiração profunda para Tsujimura (foto: Arquivo da Universidade de Ochanomizu)

Vitamina C

Mas sua verdadeira paixão não estava nos bichos-da-seda. Dois anos mais tarde, em 1923, Tsujimura ingressou no Riken - o imenso e respeitado instituto japonês de pesquisa de ciências naturais.

Ela trabalhou no laboratório que estudava química e nutrição na agricultura, ao lado do famoso cientista Umetaro Suzuki, que descobriu e extraiu a vitamina B1 de farelo de arroz com sucesso.

A atenção de Tsujimura dirigiu-se especialmente ao chá verde, que era (e ainda é) uma bebida muito popular no Japão, na China e em outros países asiáticos. Era inacreditável que houvesse sido tão pouco estudada.





Por isso, em 1924, graças a uma pesquisa em conjunto com seu colega Seitaro Miura, Tsujimura descobriu forte presença de vitamina C nas folhas usadas para preparar a infusão.

Segundo a Universidade de Ochanomizu, no Japão, essa descoberta causou grande aumento do interesse pelo chá verde no Ocidente, particularmente nos Estados Unidos - e, com isso, as exportações da bebida do Japão para a América do Norte também aumentaram.


O interesse pelo chá verde no Ocidente aumentou muito nas últimas décadas, provocando enorme aumento das suas exportações pelos países asiáticos (foto: Getty Images)

Doutora em agricultura

Mas as pesquisas de Tsujimura não terminariam ali.

Em 1929, a cientista conseguiu isolar e extrair um flavonoide denominado catequina, poderoso oxidante natural que, entre outras funções, ajuda a prevenir lesões celulares e é responsável pelo sabor amargo do chá.





No ano seguinte, Tsujimura conseguiu extrair a catequina na forma de cristais - e também o tanino, outro componente antioxidante do chá verde.


Michiyo Tsujimura trabalha no laboratório (foto: Biblioteca da Universidade de Ochanomizu)

A Universidade de Ochanomizu afirma que essa pesquisa exigiu "muita paciência" porque foi preciso ferver repetidamente uma grande quantidade de chá verde para obter uma pequena quantidade de cristais. Mas a cientista sabia que a paciência era um princípio fundamental do seu trabalho.

"A química não serve para as pessoas que querem ver resultados em um prazo determinado", afirmou ela certa vez.

Posteriormente, Tsujimura publicou sua tese com as duas descobertas (a vitamina C e a catequina), intitulada Sobre os componentes químicos do chá verde. Com ela, a cientista tornou-se a primeira mulher a obter grau de doutorado em agricultura no Japão, em 1932.


Michiyo Tsujimura ao lado de outras cientistas pioneiras no Japão (foto: Biblioteca da Universidade de Ochanomizu)

Mas o seu interesse pelo chá verde prosseguiu e, em 1934, ela conseguiu isolar a galocatequina, outro composto flavonoide benéfico para a saúde.





Em 1935, Tsujimura patenteou seu método de extração de cristais de vitamina C das plantas.

Atualmente, esse procedimento é empregado em larga escala em todo o mundo e os cristais estão presentes em forma farmacêutica, em suplementos nutricionais orais.

Uma década mais tarde, a cientista foi nomeada professora da Universidade de Ochanomizu, onde viria a ser a primeira mulher a ocupar o cargo de decana da Faculdade de Economia Doméstica.


China, Japão e Vietnã mantêm enormes cultivos da planta do chá verde (foto: Getty Images)

Após sua aposentadoria da Universidade de Ochanomizu, em 1955, Tsujimura lecionou na Universidade de Mulheres de Jissen até meados da década de 1960.

Um ano antes da sua morte, em 1968, a cientista examinou sua carreira de pesquisadora e disse aos seus alunos: "O meu trabalho de pesquisa era cheio de dificuldades, mas foi muito agradável. Não ter arrependimentos na vida foi a minha suprema felicidade."





Até seus últimos dias, Tsujimura costumava sair para longas caminhadas com seu cachorro. Ela morreu em Toyohashi, no Japão, no dia 1° de junho de 1969, com 81 anos de idade.

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