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Estado de Minas Outra epidemia

Negligenciados, obesidade e o diabetes se agravam

Em meio à crise do novo coronavírus, médicos pedem mais acesso da população à cirurgia bariátrica no SUS e inclusão do procedimento metabólico na cobertura dos planos de saúde


03/11/2020 04:00 - atualizado 02/11/2020 19:20

Casos em que só resta a cirurgia, mesmo com indicação, procedimento contra obesidade e doenças a ela associadas é pouco acessível no país (foto: Rede Família/Reprodução %u2013 15/6/16)
Casos em que só resta a cirurgia, mesmo com indicação, procedimento contra obesidade e doenças a ela associadas é pouco acessível no país (foto: Rede Família/Reprodução %u2013 15/6/16)


No momento em que o mundo enfrenta a crise provocada pelo novo coronavírus, uma situação ainda mais grave é a epidemia da obesidade e do diabetes, muitas vezes negligenciada, mas que perdura há anos, e em âmbito global. Os dois distúrbios representam perigo adicional em caso de contaminação pela doença respiratória. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) divulgou balanço sobre os procedimentos cirúrgicos no país. No ano passado, foram realizadas 68.530 intervenções, 7% a mais que em 2018, período em que houve 63.969 cirurgias. A soma registrada em 2019 representa 0,5% da população com quadro de obesidade grave, que atinge cerca de 13,6 milhões de pessoas com indicação de tratamento cirúrgico.

A entidade sublinhou a necessidade de melhorar o acesso à cirurgia bariátrica por meio do Sistema Único de Saúde (SUS)  e à cirurgia metabólica com cobertura dos planos de saúde. Quanto a essa última modalidade, tratamento regulamentado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) está aberto a consulta pública na Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para integrar a lista de procedimentos pagos pelas operadoras dos planos de saúde.

Considerando-se a ocorrência maciça da obesidade e da diabetes no Brasil e no mundo, transtornos que influem diretamente na qualidade de vida e longevidade, o presidente da SBCM, Marcos Leão Vilas Bôas, apresentou dados preocupantes sobre essa realidade no país. Pesquisa recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indica que 61,7% dos brasileiros apresentam excesso de peso; 26,8% dos adultos com mais de 20 anos estão obesos, e o número de diabéticos alcança 14 milhões. “Um cenário muito ruim, que transcende qualquer epidemia momentânea”, afirma Marcos Leão.

Além das complicações advindas desses desequilíbrios, como doenças cardiovasculares e neurológicas, no caso do diabetes ainda pode ocorrer perda de visão, mau funcionamento dos rins e até a necessidade de amputação de membros. No país, onde há maior incidência da forma mais grave do distúrbio, o do tipo 2, cerca de 6% das mortes estão relacionadas, direta ou indiretamente, à enfermidade.

“Percebemos duas realidades distintas no Brasil: a população que pode arcar com a assistência médica, e a maioria das pessoas que têm apenas o SUS como alternativa, que são 75% dos brasileiros. Quanto à cirurgia bariátrica por videolaparoscopia, por exemplo, um tratamento menos invasivo e mais eficiente, o acesso pelo SUS é ínfimo”, diz Marcos Leão. O único tratamento comprovadamente eficaz a longo prazo para a obesidade e doenças associadas a ela, como o diabetes e a hipertensão, é praticamente inacessível para pessoas que dependem do sistema público e dos planos de saúde, enfatiza o presidente da SBCBM.

A SBCBM tem trabalhado para que a cirurgia metabólica, indicada para quem tem diabetes, seja incorporada ao roll da ANS, visando aos pacientes que não conseguem controlar a doença, que estejam na eminência de complicações mais sérias, e quando o tratamento clínico com remédios não é mais suficiente. De acordo com o presidente da SBCBM, mesmo com diversos estudos apresentados, a proposta recebeu parecer negativo da câmara técnica da ANS que analisou o processo. Agora, a entidade abriu uma consulta pública para ouvir a sociedade civil sobre o tema e decidir se incorpora ou não o procedimento aos tratamentos oferecidos.

Regulamentada

Segundo o representante da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e coordenador do Centro de Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Ricardo Cohen, cerca de 72% dos pacientes portadores de diabetes não conseguem controlar a doença mesmo com o tratamento clínico medicamentoso. “A obesidade e o diabetes são doenças crônicas e progressivas, que evoluem como um câncer, em que se atinge um limite de eficácia dos remédios”, observa. De acordo com o médico, quando bem indicada, a cirurgia metabólica é capaz de controlar o açúcar no sangue e 90% dos pacientes deixam de utilizar insulina. Outros 80% deixam de utilizar remédios e mais de 30% tem a pressão arterial controlada.

Para Marcos Leão, da SBCBM, é uma situação que extrapola a força de vontade e a disciplina para adesão ao tratamento. “São questões inerentes a doença, em si extremamente complicada. Para cada 13 pessoas submetidas a cirurgia metabólica, salvamos uma vida”, acrescenta o presidente da SBCBM.

O médico diz que é fundamental sensibilizar as autoridades e mobilizar as pessoas. “Não negar a esperança para quem tem diabetes. Muitas vezes o poderio econômico das grandes corporações e o aparato político se opõem ao melhor interesse da população", critica Marcos Leão, lembrando que a cirurgia para quem tem o diabetes é plenamente regulamentada por uma série de resoluções.
"A cirurgia demonstra, tanto no Brasil quanto fora, que é extremamente eficaz também em relação a custos. O impacto orçamentário é adequado e capaz de ser absorvido pelo sistema de saúde. O setor seria impactado por apenas dez centavos por mês e por usuário”, comenta Marcos Leão.

Kit usado pela controle do diabetes, distúrbio que pode provocar perda de visão e mau funcionamento dos rins (foto: Pixabay/Reprodução)
Kit usado pela controle do diabetes, distúrbio que pode provocar perda de visão e mau funcionamento dos rins (foto: Pixabay/Reprodução)

Avanço do vírus barrou cirurgias


Entre janeiro e junho deste ano, foram realizadas 2.859 cirurgias bariátricas pelo Sistema ´Único de Saúde (SUS) segundo levantamento feito pela SBCBM. Em 2019, a estatística indica, no mesmo período, 5.382 intervenções. A queda de 60% ocorreu devido à suspensão das cirurgias eletivas com o início da pandemia do coronavírus. As cirurgias vêm sendo retomadas após recomendação do Conselho Federal de Medicina (CFM), mas ainda em ritmo lento.

Na opinião de Ricardo Cohen, coordenador da SBD, obesidade e diabetes são a grande pandemia. “São doenças crônicas e progressivas, e ainda estigmatizadas. Muita gente acha que é culpa do paciente, mas a carga da herança genética é grande. A cirurgia aumenta a sobrevida, e com qualidade.”

Para Vanessa Pirolo, coordenadora da ADJ - Diabetes Brasil, o diabetes tem impacto importante quanto do ponto de vista psicológico. “Muitas pessoas não aceitam a condição e não aderem ao tratamento. É preciso criar a educação para o diabetes”, diz.

Galzuinda Maria Figueiredo Reis, diretora de relações governamentais da SBCBM, destaca que, com o coronavírus, o panorama da obesidade no Brasil foi impactado. “A cada 10 pessoas no país, quatro ganharam peso durante a pandemia, quase três quilos, em média, mas há casos até 12 quilos. São dados até junho de 2020”, informa. A especialista atribui o aumento, além de outros fatores, aos transtornos mentais e emocionais que se agravaram com a COVID-19.

É um problema negligenciado por anos, como alerta Leonardo Emílio da Silva, coordenador da câmara técnica de cirurgia bariátrica e metabólica do Conselho Federal de Medicina (CFM). “Só em 2015 a Organização Mundial da Saúde reconheceu a obesidade como doença. É uma realidade cruel e não dá mais para tapar os olhos. Não fornecer os tratamentos mais eficientes pelo SUS é ferir o princípio da equidade, de que todos os cidadãos devem ter direito livre à saúde de qualidade.” (JG)


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