Jornal Estado de Minas

Terapia para amenizar a psoríase



Madrid – Relatos na Bíblia descrevem pessoas com lesões cutâneas tratadas da mesma forma que indivíduos com hanseníase. Na Grécia antiga, Galeno utilizou, pela primeira vez, o nome psoríase para designar a descamação da pele que acometia alguns pacientes. A doença inflamatória da pele está presente ao longo da história da humanidade, mas apenas nos últimos séculos tem recebido atenção maior.
 
Boa parte dessa importância se deve aos avanços tecnológicos, que permitiram, por exemplo, que mecanismos biológicos que desencadeiam a doença começassem a ser desvendados. No 28º Congresso da Academia Europeia de Dermatologia e Venereologia (EADV), realizado em Madrid, na semana passada, especialistas discutiram o que há de mais inovador na área. Uma das principais apostas são os medicamentos biológicos, que têm gerado ganhos expressivos a pacientes com as formas mais graves da psoríase.
 
“Quando sabíamos pouco sobre a psoríase, ela era tratada de outra forma. Dizia-se que dificilmente ela causaria a morte. Então, o médico passava um creme de pele para o paciente, que ia embora”, diz Gladys Martins, dermatologista do Hospital Universitário da Universidade de Brasília (UnB) e uma das participantes do congresso.
 
Hoje, há uma atenção maior principalmente nos casos das lesões cutâneas moderadas e graves, que causam impacto maior aos pacientes. Além de incômodos comuns à psoríase leve, com coceira e descamação da pele, esses tipos estão relacionados a prejuízos sociais e econômicos.
“Essas pessoas não conseguem trabalhar, e a família também acaba impactada. Entre esses pacientes, 50% sofrem com depressão”, diz Gladys Martins, que coordena um ambulatório dedicado à doença no Hospital Universitário de Brasília (HUB).
 
Para ajudar esse grupo de pacientes, uma série de cientistas tem se dedicado a buscar medicamentos mais eficazes contra a psoríase. Um estudo apresentado no congresso mostra que, por meio de análises genéticas, se descobriu que a interleucina 23 (IL-23) é uma das proteínas-chave do processo inflamatório da psoríase. Usando análises moleculares, um grupo internacional de cientistas, incluindo brasileiros, saiu em busca de substâncias que pudessem agir nessa molécula.
 
A equipe detectou um anticorpo monoclonal de imunoglobina imunizada G1 (IgG1), chamado risanquizumabe, que inibe seletivamente a IL-23, pois atinge uma de suas subunidades: a p19. A molécula foi, então, testada em quatro estudos, envolvendo mais de 3 mil pacientes com psoríase moderada a grave. Em 52 semanas de uso do remédio, mais de 80% dos analisados obtiveram melhoras.
 
“Em cada 10 pessoas, sete conseguiram uma melhora extrema. Outro ponto muito positivo foi que não vimos efeitos adversos, que é uma grande preocupação nessa área”, destaca Melinda Gooderham, pesquisadora do Skin Center for Dermatology Peterborough, no Canadá, e uma das autoras dos estudos.
“Tive o caso de um paciente que me disse ter lembrado que tinha a doença quando a secretária do meu consultório ligou para confirmar a data de retorno da consulta”, comemora a cientista.

ROTINA COMUM Fazer com que os pacientes tenham uma rotina pouco impactada pela psoríase impulsiona a busca por novas opções terapêuticas, frisa a cientista canadense. “Esses pacientes só querem uma vida normal. Eles desejam poder ir à praia, usar uma camiseta sem mangas, uma bermuda, e não ter que se preocupar com os olhares de outras pessoas. Fico muito feliz quando vejo que esses novos medicamentos estão os ajudando nessa conquista”.
 
Presidente do Psoriasis en Red, associação espanhola de pacientes com psoríase, Celia Marín, de 36 anos, usufrui desse benefício depois de anos de dificuldade. “Eu vivo com essa doença desde os 20 anos, e ela influencia todas as áreas da minha vida. No começo, eu não sabia lidar, mudei o cabelo para cobrir as lesões, não contei aos meus amigos sobre a doença. Procurei ajuda psicológica ao final, mas passei por um período muito difícil”, relata. “Hoje, a minha vida está recuperada, tenho dois filhos, algo que antes imaginei que não conseguiria porque não queria que a doença me atrapalhasse nesse processo”.
Celia Marín acredita que o avanço das pesquisas tem proporcionado melhoras na vida de pacientes, mas, para ela, é preciso que quem enfrente a doença participe mais dessa busca por novas soluções e novas práticas.
“Acredito que precisamos falar ao médico o que queremos, não ter vergonha disso. O que queremos é uma vida normal, como a de todos”, completa.

(*) A repórter viajou a convite da Abbvie
.