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Estado de Minas

Fermentados fazem bem à saúde

Estudo alemão mostra que adaptações celulares permitem que homens e grandes símios consumam esse tipo de alimento e se beneficiem dos efeitos de bactérias ligadas ao processo


postado em 25/05/2019 04:08

O estudo da microbiota intestinal tem chamado a atenção de especialistas nos últimos anos(foto: Ueslei Marcelino/Esp. CB/D.A Press)
O estudo da microbiota intestinal tem chamado a atenção de especialistas nos últimos anos (foto: Ueslei Marcelino/Esp. CB/D.A Press)
A ingestão de bactérias lácteas gera uma série de benefícios ao corpo humano, assim como a de outros micro-organismos. Por isso, o estudo da microbiota intestinal tem chamado a atenção de especialistas nos últimos anos. Em uma pesquisa voltada inicialmente para questões evolutivas, investigadores alemães encontraram uma possível explicação para benefícios obtidos. A equipe percebeu que adaptações celulares em ancestrais humanos e símios permitiram que eles pudessem comer alimentos não tão frescos, como frutas que caíam das árvores por estarem muito maduras. Segundo os cientistas, é por isso que, atualmente, acumulamos as vantagens do consumo de lácteos.

Os autores explicam que o estudo começou como uma investigação sobre proteínas presentes na superfície das células chamadas receptores do ácido hidroxicarboxílico (HCA). A maioria dos animais tem apenas dois tipos desses receptores, mas os humanos e os grandes símios têm três. “Inicialmente, queríamos entender por que há um receptor ausente em todas as outras espécies, mas quando fomos analisar as substâncias conhecidas por ativá-lo, a pesquisa revelou um cenário incompatível com outros dados evolutivos observados”, conta Claudia Staubert, pesquisadora da Universidade de Leipzig, na Alemanha, e principal autora do estudo, publicado na última edição da revista Plos One.

Staubert e sua equipe descobriram que um metabólito produzido pelas bactérias do D-feniláctico, que é um ácido lático, se liga fortemente ao terceiro receptor do HCA, sinalizando ao sistema imunológico a sua presença. “Voltando a uma publicação que mostrou que os metabólitos D-aminoácidos ativam o receptor, realizamos uma pesquisa maciça na literatura e vimos que as bactérias do ácido lático produzem esses metabólitos. Ou seja, encontramos um alvo molecular relevante para substâncias produzidas por bactérias lácticas”, diz a autora.

A partir da análise, os pesquisadores concluíram que o terceiro receptor do HCA surgiu em um ancestral comum de humanos e grandes símios, e isso permitiu às duas espécies consumir alimentos que estão começando a estragar, como frutas colhidas do solo. “Além dos dados químicos, essa descoberta gerou uma hipótese evolutiva extremamente plausível”, ressalta Staubert.

Bernardo Martins, médico gastroenterologista do Hospital Santa Lúcia Norte, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Gastroenterologia (SBG), destaca que a pesquisa alemã mostra dados extremamente interessantes para a área médica, mesmo tratando de temas relacionados à evolução. “Vemos que o consumo de alimentos com as bactérias lácteas trouxe benefícios importantes, como maior produção e absorção de energia. A possibilidade de poder consumir esses alimentos que já passaram do estágio maduro nos deu uma extrema vantagem: a maior disposição de nutrientes que, no passado, nos protegeu mais do que outros animais”, explica.

ALVO TERAPÊUTICO Segundo Claudia Staubert, os dados, além de ajudar no entendimento da dinâmica evolutiva entre as bactérias e o hospedeiro humano, abrem novas direções de pesquisa para a compreensão dos múltiplos efeitos positivos da ingestão de alimentos fermentados. “Estamos convencidos de que esse receptor, muito provavelmente, é responsável por alguns efeitos benéficos e anti-inflamatórios das bactérias do ácido láctico em seres humanos”, diz. “É por isso que acreditamos que ele poderia servir como um alvo potencial para o tratamento de doenças inflamatórias.”

A equipe cogita que pesquisas futuras ajudarão a ampliar o poder terapêutico das bactérias lácteas no organismo humano. “Mais estudos poderão revelar novos detalhes importantes. Por exemplo, como o ácido D-feniláctico afeta o sistema imunológico e se esse metabólito também afeta as células de gordura, que também carregam o terceiro receptor de HCA em suas superfícies”, ilustra a cientista. “Isso tudo torna esse terceiro receptor um alvo muito interessante para o tratamento de doenças inflamatórias e metabólicas.”

A próxima etapa da pesquisa será entender como exatamente as células imunológicas reagem ao serem ativadas pelo receptor e quais são os mecanismos moleculares subjacentes. “Isso deve ajudar a revelar ainda mais a relevância do receptor como alvo terapêutico”, frisa Staubert.

Bernardo Martins também acredita que mais pesquisas são necessárias para chegar à aplicação clínica dos dados obtidos. O especialista ressalta ainda a importância dos estudos relacionados aos benefícios proporcionadas ao organismo humano pelas bactérias. “Cada vez mais, temos visto a importância da relação da flora intestinal com atividades pró-inflamatórias. Entender esse mecanismo pode ajudar a gerar tratamentos para doenças inflamatórias diversas, inclusive as crônicas, como Alzheimer e Parkinson, e também a obesidade”, ressalta. “Quem sabe será possível também criar estratégias de proteção. Por meio do equilíbrio dessas bactérias, poderíamos gerar maneiras de prevenir essas doenças”, cogita o médico gastroenterologista.

DOS DENTES AO INTESTINO As bactérias lácteas presentes em produtos como o leite e o queijo fazem parte do grupo de micro-organismos mais úteis à saúde humana. A ingestão dessas bactérias auxilia na digestão, na função imune, na redução do colesterol, além de promover a saúde bucal e reduzir inflamações e respostas alérgicas. Muitos produtos classificados como probióticos – que ajudam a preservar a flora intestinal diversa – também têm essas bactérias em sua composição.

“Temos visto a importância da relação da flora intestinal com atividades pró-inflamatórias. Entender esse mecanismo pode ajudar a gerar tratamentos para doenças inflamatórias diversas, inclusive as crônicas, como Alzheimer e Parkinson”
Bernardo Martins, médico gastroenterologista do Hospital Santa Lúcia Norte, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Gastroenterologia (SBG).


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