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Estado de Minas

Cara de um, focinho do outro

Pesquisa americana mostra que características marcantes do cachorro e do seu tutor costumam ser semelhantes, e que comportamento do animal pode se ajustar ao do dono


postado em 23/03/2019 05:08


Cachorro velho não aprende truques novos, prega o dito popular. A famosa frase, porém, não condiz com a realidade, segundo cientistas americanos. Por meio de uma análise comportamental feita com mais de mil tutores, os especialistas observaram que a personalidade de cães pode sofrer alterações durante toda a vida. O estudo também traz dados novos sobre o convívio entre os animais e os seres humanos. Segundo os especialistas, os donos conseguem mudar a forma como os animais agem, e essas alterações podem também estar ligadas à incidência de doenças. As descobertas foram publicadas recentemente na revista especializada Journal of Research in Personality.

Os pesquisadores se inspiraram nas modificações comuns na personalidade humana para investigar o comportamento de cachorros. “Quando passamos por grandes mudanças na vida, esses traços podem mudar. Descobrimos que isso também acontece com os cães, e em um grau surpreendentemente grande”, conta William Chopik, professor de psicologia da Universidade Estadual de Michigan (EUA) e principal autor da pesquisa.

O estudo de Chopik foi um dos primeiros a abordar o tema e o maior trabalho investigativo sobre mudanças na personalidade de cães. Foram entrevistados mais de 1.600 tutores de animais, contemplando 50 raças. A idade, tanto das fêmeas quanto dos machos, variou de apenas algumas semanas até 15 anos. Os questionários usados foram construídos para avaliar a personalidade e o histórico comportamental dos bichos de estimação. Os donos responderam a uma pesquisa sobre a própria personalidade. Pessoas próximas a eles e aos animais também receberam um questionário.

De acordo com os pesquisadores, as semelhanças detectadas entre os parceiros de vida foi expressiva. A análise mostrou que cães e tutores compartilham traços de personalidade específicos. Os humanos extrovertidos classificaram seus cães como mais excitáveis e ativos, enquanto os com altas emoções negativas classificaram os animais como mais medrosos e menos responsivos. Aqueles que se classificaram como agradáveis identificaram seus bichos como menos medrosos e agressivos. Por fim, os voluntários que se sentiam mais felizes, com relação aos pets, os consideravam animais ativos e excitáveis, além do fato de responderem melhor ao treinamento.

“Encontramos correlações em três áreas principais: idade e personalidade, nas semelhanças de personalidade entre humanos e cães, e na influência que a personalidade de um cão tem na qualidade de seu relacionamento com o seu dono”, detalha Chopik. “Cães mais velhos são muito mais difíceis de treinar. Descobrimos que o ponto ideal para ensinar uma obediência é por volta dos seis anos de idade, quando se supera o excitável estágio de filhote. Depois disso, o ensino ainda tem efeito, só que é mais difícil”, completa.

Os traços que raramente mudaram com a idade dos cães foram o medo e a ansiedade. Além disso, Chopik descobriu que as personalidades dos animais podem prever pontos importantes da sobrevivência. Por exemplo, o quão perto eles se sentem de seus donos, o comportamento mordaz e a ocorrência de doenças crônicas. “Esperávamos que a personalidade dos cães ficasse bastante estável porque ela não sofre grandes mudanças dentro do estilo de vida selvagem, mas vimos que realmente muda muito. Descobrimos semelhanças com seus donos, o momento ideal para o treinamento e até mesmo porque eles podem ficar mais agressivos em relação a outros animais”, ressalta o autor.

OLHAR ATUAL


Eduardo Bessa, professor do Laboratório da Ecologia Comportamental da Universidade de Brasília (UnB), destaca como a pesquisa americana tem uma abordagem atual: ver os animais de uma maneira individual e autônoma. “Se você convive mais de um ano com um bicho, sabe que o comportamento dele oscila, até mesmo os silvestres. Nesse trabalho, foi feita a identificação dessas variações em diferentes idades e as características relacionadas à personalidade humana”, explica.

O especialista também ressalta que o método de análise escolhido foi acertado. “Quando você usa questionários, pode parecer que é algo tendencioso para ter as respostas que está esperando, e ainda tem o fato de que os donos geralmente querem que os animais se pareçam com eles. Mas no estudo também foram feitas perguntas para pessoas que convivem com o proprietário e o cachorro, isso ajuda a ter mais validade nos resultados”, explica.

Na próxima etapa da pesquisa, Chopik planeja examinar melhor de que forma os tutores influenciam o comportamento dos cães. “Digamos que você adote um cachorro de um abrigo, que é medroso. Algumas características, provavelmente, estão ligadas à biologia e resistem a mudanças, mas você o coloca em um novo ambiente onde ele pode andar e se entreter com frequência. O cão, então, poderá se tornar um pouco mais relaxado e sociável”, ilustra. “Agora que sabemos que a personalidade pode mudar, queremos estabelecer uma forte conexão para entender por que os cães agem e se transformam.”

ALÉM DA RAÇA

Roberto Mayer, especialista na reabilitação comportamental de cães, concorda com os dados da pesquisa americana. “Dentro do meu trabalho, vemos que o proprietário influencia severamente o comportamento do cachorro. Muitos acham que a raça tem essa diferenciação comportamental, mas isso não existe, a raça é apenas uma roupa”, argumenta. “Hoje em dia, os animais têm se parecido cada vez mais com os humanos. Eu entro em uma casa e vejo que os cães não usam mais o focinho, que costumava ser a principal arma para sobrevivência. Isso influencia muito a forma como ele age com o dono.”

Mayer ressalta que as influências no bem-estar físico dos cachorros também estão fortemente relacionadas ao comportamento dele. “Vemos que cães com problemas comportamentais apresentam complicações de pele, automutilação e alta agressividade, por exemplo. Tive o caso de um cachorro que atacou diversos donos, ele tinha suspeita de problemas neurológicos, mas, ainda assim, com o treinamento, conseguimos mudá-lo”, ilustra.

Curiosos como os primatas

Cientistas do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana, nos Estados Unidos, mostraram que os cães têm algumas habilidades metacognitivas semelhantes às dos macacos. Por meio de testes, os pesquisadores observaram que, quando os cachorros não têm informações suficientes para resolver um problema, buscam ativamente mais dados para resolver a questão. A descoberta foi publicada recentemente na revista Learning & Behavior.

No experimento, os pesquisadores projetaram um aparelho envolvendo duas cercas em forma de V. Uma recompensa — comida ou brinquedo — foi colocada atrás de uma das cercas, enquanto o cachorro era seguro por um pesquisador. Em alguns casos, o animal pôde ver onde estava o alimento ou o objeto. Em outros, não.

A equipe analisou a frequência com que os cães olhavam através de uma lacuna na cerca antes de optar por uma delas. A questão analisada era se, como os chimpanzés e os humanos, o cachorro verificaria a lacuna quando não tivesse visto onde a recompensa havia sido colocada. Isso indicaria que o animal estava ciente de que não sabia onde a recompensa estava — uma habilidade metacognitiva — e tentaria obter mais informações antes de escolher uma cerca.

OLFATO X VISÃO

Os cães “checaram” com mais frequência quando não sabiam onde estava a recompensa. “O fato de os cães terem verificado mais quando não tinham conhecimento da localização sugere que eles apresentam habilidades metacognitivas, demonstram ter noção desse tipo de conhecimento”, explica, em comunicado, Julia Belger, uma das autoras do estudo e pesquisadora do Laboratório de Estudos Caninos do Instituto Max Planck.

Segundo os pesquisadores, os resultados ainda não permitem provar a existência de metacognição nos animais, mas indicam fortes evidências relacionadas. Futuros estudos ajudarão no aprofundamento do tema. “Para os seres humanos, a visão é um importante sentido de coleta de informações. Nesse caso, nosso experimento foi baseado em uma ação de verificação, mas os cães, provavelmente, também usaram o olfato ao buscar a lacuna. Sabemos que o cheiro é muito importante para os cães e vimos que eles o estavam usando durante a tarefa”, afirma Belger. “No futuro, gostaríamos de desenvolver um experimento investigando em que circunstâncias esses animais decidem usar o olfato versus a visão. Isso pode nos dar uma noção adicional de suas habilidades em busca de informações.”

palavra de
especialista

Adriane Pimenta da Costa
professora da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

Exagero de cuidados

“Sabemos que, quanto mais estressado é o tutor, mais o cachorro responde com o mesmo comportamento, sem paciência e agressivo. Isso comprova essa influência do dono sobre a personalidade do bicho. O que acredito que precisa ser levado em conta para facilitar esse convívio é ter consciência de que o cão, o gato ou qualquer animal de estimação precisam ser tratados como tal. Hoje em dia, muitas pessoas exageram nos cuidados, colocam o cão para andar em carrinhos de bebês, impedem que eles pisem no chão sujo. Isso é muito negativo. Dessa forma, o animal perde as características principais e suas defesas. É necessário também que ele saiba que tem uma liderança em casa, para que tenha bom convívio no ambiente e com as pessoas que fazem parte dele.”


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