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Quem não fica só na ressaca

Pesquisadora americana traça perfis de indivíduos cuja ingestão de bebidas alcoólicas pode ser considerada um transtorno. Segundo especialistas, o detalhamento pode ajudar na criação de medidas mais personalizadas de tratamento e prevenção


postado em 08/12/2018 05:08

O alcoolismo é um problema de saúde para diversos países, e os efeitos do aumento da ingestão de bebidas alcoólicas (Leia o Saiba mais) tem feito com que a doença seja alvo de cientistas, que buscam maneiras mais eficazes de preveni-la e tratá-la. Para entender melhor como o vício pode afetar indivíduos de formas distintas, uma americana analisou mais de 1 mil voluntários e, com os dados, traçou cinco perfis de indivíduos com o transtorno por uso de álcool. Segundo Ashley N. Linden-Carmichael, os resultados podem gerar tratamentos mais personalizados e eficientes. Os resultados do trabalho foram publicados na revista especializada Alcohol and Alcoholism.


A autora do estudo destaca que o abuso de álcool é mais complicado do que simplesmente “beber demais”. Trata-se de um grande problema de saúde pública, que merece ser mais investigado. “Alguns bebedores pesados preenchem os critérios para um transtorno por uso de álcool, mas, na maioria das investigações anteriores sobre o tema, os pesquisadores se concentraram apenas na gravidade dos sintomas. Eu e meu grupo estávamos interessados em saber se existem diferentes tipos de ‘bebedores problema’ para obter uma compreensão mais precisa, que pudesse ajudar em detecção e tratamento precoces”, conta ao Estado de Minas a pesquisadora em saúde biocomportamental e professora da Universidade Estadual da Pensilvânia.


Linden-Carmichael e sua equipe usaram dados de 5.402 participantes do estudo chamado Pesquisa Nacional de Epidemiologia sobre Álcool e Condições Relacionadas, realizado em 2016, nos Estados Unidos. Para montar a amostra, a equipe considerou indivíduos com 18 a 64 anos e que preenchessem os critérios para o diagnóstico de transtorno por uso de álcool no ano anterior ao estudo (Veja infográfico).


Ao analisar os dados, a equipe chegou a grupos de pessoas que compartilham sintomas similares de transtornos por uso de álcool. A partir dessa informação, foram montados os perfis de bebedores problemáticos. Segundo Linden-Carmichael, o método utilizado, desenvolvido no Centro de Metodologia da Penn State, ajudou também a revelar a prevalência de alguns perfis em diferentes idades.


Para a líder do estudo, os profissionais de saúde podem considerar a possibilidade de personalizar os tratamentos e os esforços de intervenção tendo como base os dados da pesquisa. “Os terapeutas poderiam considerar, por exemplo, que, em um jovem adulto, deve-se procurar sintomas de abstinência. Por outro lado, em um público mais velho, é indicado procurar pessoas que lutam para não ter ferimentos relacionados ao álcool. Vimos essas características no trabalho”, ilustra.

Além dos manuais Custódio Martins, psiquiatra do Instituto de Neurociências de Brasília (INCB), destaca que o estudo americano revela informações que se diferenciam de dados atuais na área médica relacionados ao consumo de álcool. “É uma abordagem interessante, que foge das classificações dos manuais atuais, mostrando dados de dependência diferentes dos conhecidos na saúde mental”, compara.


Helena Moura, psiquiatra especialista em dependência química, também acredita que o grande destaque da pesquisa é trazer novas informações comportamentais relacionadas ao consumo de álcool. “Esse é um tema que se discute há anos. Sabemos que nem todo alcoolista é igual. Por isso, criar categorias para entender melhor os perfis é algo que pode nos ajudar. Hoje, usamos 11 critérios para caracterizar as pessoas com esse tipo de problema, mas esse estudo usa dados ainda mais detalhados”, diz.


Linden-Carmichael conta que pretende usar o mesmo método em uma nova pesquisa, mas dando ênfase às diferenças etárias. “Estou interessada em ver, por exemplo, o que acontece mais tarde com alguém que tem um certo perfil em uma idade mais jovem”, exemplifica. “Se uma pessoa está na classe de efeitos adversos apenas aos 21 anos, como estarão os seus hábitos relacionados à bebida aos 60 anos? Eles aumentam ou diminuem de velocidade? Se pudéssemos ter um estudo similar e maior e ainda seguir os participantes durante seu envelhecimento, isso seria mais intuitivo e benéfico para os resultados.”

 

Três milhões de mortes anuais

O consumo de álcool é responsável pela morte de cerca de 3 milhões de pessoas anualmente, superando os óbitos provocados por Aids,  tuberculose e violência combinados, segundo relatório da Organização Mundial da Saúde.Considerando a população em geral, o álcool responde por 5,3% das mortes. Tomando como base os mais jovens, na faixa etária entre 20 e 29 anos, a taxa sobe para 13,5%.O relatório também mostra redução de consumo no Brasil entre 2010 e 2016, de 8,8 litros por indivíduo para 7,8 litros. Apesar da queda, o hábito é causa de um número considerável de mortes no país: 6,9% têm relação direta com a ingestão da substância.

 

Idade é informação estratégica

 

Identificar as diferenças com relação à ingestão excessiva de álcool em cada fase da vida pode ser a chave para resultados mais eficazes em tratamento e prevenção. Os perfis de bebedores traçados no estudo da Universidade Estadual da Pensilvânia poderiam ajudar nessa empreitada, segundo os autores.  “Houve pedidos recentes de especialistas por abordagens de tratamento personalizadas para uso problemático de álcool. Esses resultados demonstram a importância de adaptar as abordagens de intervenção com base no indivíduo, particularmente na sua idade”, defende Ashley N. Linden-Carmichael, líder do estudo.


As análises mostraram que adultos mais velhos, com cerca de 50 a 60 anos, estão mais propensos a lutar contra o uso de álcool. E os mais jovens, a experimentar ressacas e outros sintomas de abstinência. “Para fins de detecção e prevenção precoces, seria útil, por exemplo, ver quais bebedores problemáticos com idade entre 18 e 25 anos têm maior probabilidade de estar em certas classes de risco mais altas na vida adulta”, ressalta.


O psiquiatra Custódio Martins também acredita que a diferença de idade é um ponto importante do trabalho  e que esse dado pode contribuir para o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes. “Esse é um caminho interessante, poder diferenciar a abordagem do médico de acordo com o estágio em que a pessoa estiver”, justifica.  “Muito dificilmente, um jovem vai apresentar sintomas no corpo semelhantes ao de um adulto, como uma alteração hepática. Isso também é uma das explicações para o fato de o jovem não se interessar em parar de beber. Ele se sente menos vulnerável à bebida, não enfrenta os danos físicos envolvidos.”


A psiquiatra Helena Moura também acredita que entender melhor as diferenças em cada faixa etária é algo extremamente importante. “Esse é o ponto que achei mais interessante na pesquisa. Temos sintomas que dificilmente vamos encontrar em pessoas mais jovens, e isso não quer dizer que elas não tenham que ter cuidado com o consumo de álcool.

Novas gerações Para a especialista, nas próximas etapas da pesquisa, a análise comportamental deveria levar em consideração mudanças que ocorrem com o passar do tempo. “Seria muito interessante analisar as fases da vida de cada voluntário, mas também temos que ter em conta que as gerações mudam, os idosos de hoje não são iguais aos da geração passada. Hoje, por exemplo, os jovens têm mais alternativas para evitar a direção quando bebem. Isso não existia anos atrás”, frisa.


Para Martins, decifrar o que faz um jovem a continuar a beber e outro, não deveria ser um dos pontos mais importantes a serem explorados em pesquisas futuras. “Por que alguém que começa a beber aos 18 anos se torna um alcoólatra e outra pessoa que bebeu o mesmo com a mesma idade não tem o vício e passa a beber socialmente? Amostras de acompanhamento dos indivíduos ao passar dos anos podem ajudar a entender essas evoluções distintas”, opina. (VS)

 

 

 

 


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