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Estado de Minas

A chave da saciedade

Interação entre hormônio intestinal e a gordura que aquece o corpo é responsável por enviar ao cérebro a informação de que é hora de parar de comer, podendo ajudar a combater a obesidade


postado em 25/11/2018 05:06

A conexão entre o estômago e o cérebro é conhecida por especialistas e alvo de investigações científicas. Um grupo internacional de estudiosos conseguiu desvendar um mecanismo sobre essa relação que pode ser extremamente útil no combate ao peso. Em experimento com ratos, os pesquisadores observaram que o hormônio intestinal secretina — que transmite sinais de saciedade ao cérebro — age em conjunto com a gordura marrom, que é responsável por aquecer o corpo. As descobertas foram publicadas na revista especializada Cell.

Um dos objetivos principais da pesquisa era entender melhor o papel da gordura marrom no corpo humano. “Além da termogênese induzida pelo frio, existia a suspeita de que ela contribuía para a alimentação. O mediador molecular e o significado funcional da gordura marrom associada à refeição estão em debate há anos”, conta ao Estado de Minas Martin Klingenspor, um dos autores do estudo e pesquisador da Universidade Técnica de Munique, na Alemanha.

Os cientistas explicam que, durante uma refeição, os sinais codificados pelos hormônios intestinais chegam ao cérebro por meio do sangue ou de nervos ativados no intestino delgado. A secretina foi escolhida como alvo da pesquisa por ser um hormônio intestinal relacionado à saciedade.

Na primeira parte do experimento, ela foi injetada em ratos famintos com o objetivo de suprimir o apetite dos animais. O objetivo foi atingido, e a equipe observou que os camundongos também apresentaram aumento de quantidade de calor produzido pelo tecido adiposo marrom. Já em ratos com o tecido de gordura marrom inativado, a mesma supressão de apetite não foi detectada após a injeção da secretina.

Os pesquisadores também monitoraram os níveis de secretina em 17 voluntários. Nos humanos, o consumo de oxigênio dos tecidos marrons e a absorção de ácidos graxos foram medidos, por exame de sangue, depois de um jejum noturno e 30 a 40 minutos após uma refeição. Os pesquisadores descobriram que níveis mais altos de secretina no sangue dos participantes correspondiam à maior ativação metabólica da gordura marrom.

Para a equipe, os efeitos detectados nos roedores e nos humanos são provas da relação entre a secretina e a gordura marrom como mediadora da saciedade. “Demonstramos uma conexão entre o intestino, o cérebro e o tecido marrom, descobrindo uma faceta desconhecida do complexo sistema regulador que controla o balanço de energia”, frisa Klingenspor.

DIETA TERAPÊUTICA  Os cientistas acreditam que as funções da gordura marrom e da secretina no controle da fome e da saciedade podem torná-las alvo atraente para novas abordagens no tratamento da obesidade. A equipe defende que futuras intervenções nutricionais ou farmacológicas contra o excesso de peso e doenças metabólicas podem ser desenvolvidas com base nas descobertas.

“Estamos planejando nos aprofundar para entender os mecanismos subjacentes. Com base em nosso trabalho, acreditamos que a visão da gordura marrom como um mero órgão aquecedor catabólico deve ser revista, e mais atenção deve ser direcionada para a função desse tecido no controle da fome e da saciedade”, defende Klingenspor.

O cientista acredita que um dia será possível descobrir como estimular a secretina por meio de uma dieta.“A estimulação sistêmica dos receptores de secretina por um agente farmacológico não é uma estratégia de tratamento viável, uma vez que isso, provavelmente, prejudicaria o pâncreas. No entanto, direcionar a secreção do hormônio secretina associada à refeição por intervenções nutricionais pode fornecer novas opções de tratamento para obesidade ou diabetes.

A secreção desse hormônio é sensível aos nutrientes. Por isso, comer o alimento certo pode ser útil para promover a saciedade e resultar em redução do tamanho das refeições e da ingestão calórica”, explica.

Excesso de peso leva ao diabetes

Cientistas americanos descobriram como a obesidade causa doenças como a hipertensão e o diabetes. Células imunes residentes no tecido adiposo, que são consideradas benéficas, tornam-se prejudiciais quando há excesso de peso, causando inflamações e doenças diversas. As descobertas foram publicadas na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas) e podem ajudar a combater essas enfermidades crônicas.

“Todas essas doenças têm um denominador comum. Pode ser que tenhamos identificado o que inicia toda a cascata de inflamações e alterações metabólicas”, afirma, em comunicado, Vlad Serbulea, um dos autores do estudo e pesquisador da Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos.

Por meio da análise de tecidos de pessoas obesas e saudáveis, os investigadores observaram que radicais livres produzidos pelo corpo atacam lipídios que estão dentro do tecido adiposo, levando a inflamações, uma resposta imunológica natural. Esse processo é chamado de oxidação lipídica. “Os radicais livres são tão reativos que querem se dedicar a algo. Os lipídios são uma ótima fonte para esses radicais se combinarem”, resume Serbulea.

A equipe identificou que há lipídios oxidados que causam inflamações prejudiciais — reprogramando as células imunológicas para se tornar hiperativas — ou que ficam no tecido saudável. A quantidade deles em um indivíduo pode ser um indicador de maior vulnerabilidade a doenças crônicas.

Com essa informação, será possível pensar em abordagens médicas que reduzam essa fragilidade, como um medicamento que reduza o número de lipídios oxidados ou um que promova o aumento dos lipídios benéficos. “Algo que mostramos é que o metabolismo nas células do sistema imunológico é explorável. Isso já tem sido um alvo em doenças como o câncer. Agora, também para a obesidade.

A secreção desse hormônio (secretina) é sensível aos nutrientes. Por isso, comer o alimento certo pode ser útil para promover a saciedade e resultar em redução do tamanho das refeições e da ingestão calórica

 

Martin Klingenspor, um dos autores do estudo e pesquisador da Universidade Técnica de Munique


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