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Exploração do medo


postado em 02/11/2018 05:07

Estratégia é muito usada em campanhas de saúde pública: resultados contra o cigarro são significativos(foto: usp imagens )
Estratégia é muito usada em campanhas de saúde pública: resultados contra o cigarro são significativos (foto: usp imagens )


 

A lógica de alerta nas produções audiovisuais também é adotada na saúde pública. Campanhas de conscientização  são frequentes, apesar da necessidade de as mensagens serem mais incisivas, segundo especialistas. Isso porque há o risco de problemas graves, como doenças desencadeadas pelo uso do cigarro. Pesquisadores americanos decidiram estudar como o medo tem sido usado nessas estratégias ao longo dos anos.

No artigo publicado recentemente no American Journal of Public Health, os investigadores relatam que, antes da Segunda Guerra Mundial, o medo da doença, da morte e de consequências sociais era frequentemente usado em campanhas de saúde pública. Isso mudou durante a Guerra Fria. “As populações ficaram cansadas diante de constantes ameaças de aniquilação nuclear”, explica Amy Fairchild, uma das autoras do estudo e professora do Departamento de Política e Gestão de Saúde da Escola de Saúde Pública do Texas.

Em 1964, após advertência de um médico americano que ligou o tabagismo ao câncer e a doenças cardíacas, as autoridades de saúde começaram a confiar em estatísticas para avaliar as estratégias das campanhas. “Nas análises, foi visto que sem um apelo à emoção era como tentar apagar um incêndio com uma pistola de água”, frisa a pesquisadora. Em resposta, nas décadas seguintes, as campanhas antitabaco passaram a usar imagens cada vez mais fortes.

Impacto da Aids

As grandes mudanças na estratégia ocorreram com o surgimento da Aids. Campanhas de saúde iniciais fizeram uso intenso de apelos emocionais, incluindo o medo. As peças comerciais, porém, foram alvo de protestos. “Tanto os defensores quanto os principais profissionais e funcionários da saúde pública concordaram: o risco de estigmatizar os homossexuais e de suscitar receios infundados de que a Aids poderia ser disseminada pelo contato casual tornou as abordagens baseadas no medo semelhantes ao lançamento de combustível no fogo, o que provocou as mudanças na abordagem”, detalha Fairchild.

Os autores do estudo explicam que um grande número de pesquisas demonstrou que, quando usado corretamente, o medo pode ser uma estratégia efetiva de mensagens, mas que as campanhas precisam considerar fatores sociais e políticos. “Emoções como o medo são ferramentas de mensagens poderosas, mas devem ser equilibradas com fatos e usadas com cuidado”, frisa Fairchild.

Menos banal

Helena Moura, psiquiatra especialista em dependência química e idealizadora do programa Viva Sem Cigarro, acredita que as campanhas de combate ao fumo são um exemplo real do quanto estratégias de conscientização são eficazes  em saúde pública. “Quando tínhamos aquelas letras pequenas nos maços, poucas pessoas prestavam atenção. Estudos mostraram que, ao usar as imagens atuais, fotos que informam as doenças relacionadas, isso mudou. O alerta deixou de ser algo banal”, contextualiza. A psiquiatra também acredita que muito cuidado deve ser tomado na construção das estratégias. “No caso dos acidentes de carro, as pessoas não conseguem ver imagens muito fortes”, adverte. “Já no caso do HIV, o cuidado é pelo lado social. É necessário atenção para não estigmatizar os pacientes.” (VS)


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