Jornal Estado de Minas

ENVELHECER

Ciência a favor do envelhecimento

Inevitável: passagem do tempo (foto: Gerd Altmann/Pixabay )

A idade cronológica não define mais a velhice, diz a psicóloga Sirlene Ferreira. "Convivemos com senhores com mais de 80 anos com projetos de vida, interagindo socialmente, com a saúde física e psíquica em perfeito estado. A velhice pode ser compreendida pela dificuldade psicomotora, ausência de saúde e de interação social", explica.




Para a profissional, os avanços da ciência são fatores facilitadores para uma boa velhice. "É mais fácil envelhecer hoje. A ciência mudou muito, a prevenção de doenças físicas e psíquicas corrobora para um bom envelhecimento, a qualidade de vida também só melhora para o envelhecimento saudável", salienta. Para a psicóloga, a juventude não é definida apenas pelas condições físicas. "É possível ter uma mente jovem para sempre. Basta ter empatia, serenidade, habilidade social e aceitar o próprio envelhecimento", continua.

Em tempos de pandemia, em que os idosos, por ser grupo de risco, precisaram ficar em casa, com pouco contato com o mundo externo, o isolamento, ao mesmo tempo em que protegeu essas pessoas do contágio pelo vírus, também as privou do convívio social, e são inegáveis os impactos disso. Para cuidar da saúde mental dos mais velhos, dessa maneira, Sirlene sugere estabelecer uma rotina que inclua, além das atividades básicas da vida cotidiana, também momentos de entretenimento.

Para a profissional, a sociedade machista sempre cobra mais das mulheres do que dos homens. "Mas as mulheres estão se permitindo envelhecer com menos cobrança do que ocorria tempos atrás. Um exemplo é a liberdade de escolha sobre as próprias roupas, sem protocolos, e a possibilidade de conviver com os cabelos brancos sem culpa", cita.




 
Nalva Nóbrega, de 94 anos, tem no piano um grande companheiro, tem seis CDs lançados, também já publicou dois livros, de poesias e preces e reflexões e mantém um canal no YouTube (foto: Arquivo Pessoal )
Preencher os dias de isolamento com diferentes atividades foi o que fez Nalva Nóbrega, de 94 anos. Durante o exercício profissional, foi professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e auditora do Tribunal de Contas da União. Tem cinco filhos e 12 netos. Extremamente independente, vive sozinha e tem consigo seus auxiliares, entre acompanhantes, motorista e cozinheira, mas o contato com os filhos é diário, eles estão sempre presentes. Gosta de receber os amigos, e só agora os saraus literários que fazia em sua casa foram suspensos. Está o tempo todo cercada de pessoas queridas.
 
Nalva também tem no piano um grande companheiro, inclusive lançou seis CDs com músicas no instrumento. Também já publicou dois livros, de poesias e preces e reflexões, e prepara o terceiro, uma reunião de crônicas. Mantém um canal no YouTube, por onde realizou lives durante a pandemia. Tem ainda aulas de pintura, faz atividades físicas duas vezes por semana e capricha na alimentação.

É acompanhada há muito tempo por um cardiologista de confiança. Chegou a ser infectada pelo coronavírus, e foi tratada em casa, com todo carinho e estrutura – entre os parentes, há médicos. "Essa pandemia nos mostra a importância de cuidar da saúde, de respeitar as vacinas", diz.



CAUSALIDADE


Nobolo Mori, de 98 anos, médico cirurgião geral, é dono de uma autonomia invejável e com uma vida extremamente produtiva (foto: Claudio Gatti/Divulgação)
Nobolo Mori, de 98, é médico cirurgião geral e fundador de um hospital e maternidade em Mogi da Cruzes, na Região Metropolitana de São Paulo. Também é criador de uma escola de moralogia (estudo da moral), chamada Instituto de Moralogia do Brasil. Com a escola, aborda como um dos temas a causalidade. "Tudo o que fazemos e pensamos tem resultados", diz, e essa é uma verdade evidente com a pandemia.
 
Descendente de japoneses – pai e mãe lavradores que vieram do Japão para o interior de São Paulo no princípio do século passado –, Nobolo tem dois filhos e quatro netos e, viúvo, mora sozinho. A rotina no hospital mudou com o isolamento social, assim como foram interrompidas as atividades na escola. Mas, para ele, apenas uma mudança – concretamente, não se isolou.
 
Deixou de atender seus pacientes e participar das reuniões presenciais na escola e agora joga golfe todos os dias, desde o início do lockdown. O campo de golfe fica, inclusive, nas próprias dependências do instituto, onde Nobolo pratica o esporte entre cerca de 40 pessoas, com idades entre 45 e 60 anos. "Sempre estou em meio a pessoas. A prática do esporte me deixa jovem e com saúde. E nunca fico parado", conta.




 
 
 
Outra alteração em seu cotidiano foi também parar de ir a lojas, sítios, visitar os amigos ou frequentar o cinema. Mas nada tão grave. Dono de uma autonomia invejável e com uma vida extremamente produtiva (parou de dirigir há apenas três anos, por exemplo), a harmonia emocional que encontrou para estar bem durante a pandemia também vem de seu hábito de leitura, e por estar sempre estudando, atento ao que acontece no Brasil e no mundo.
 
É extremamente atento a tudo que lhe interessa, como as vacinas – nunca perde a data. Para Nobolo o que importa é se manter ocupado e em movimento. "E sempre ouvindo os mestres. O coronavírus trouxe problemas para o mundo inteiro. A medicina ainda não consegue lidar com o vírus. É preciso estudar mais. Aproximar mais o pensamento de Deus", declara.