Jornal Estado de Minas

SAÚDE MENTAL

Como superar a desmotivação



No início da pandemia, ainda em meados de março de 2020, quase todo mundo pensou que a quarentena duraria cerca de duas semanas ou menos, porém, com o avançar dos casos e o caos sanitário instalado, o tempo foi passando.



De repente, o mundo estava imerso em incerteza, e isso já há cerca de um ano e meio. À medida que os dias e meses se passaram, o desânimo foi tomando conta do dia a dia de muitas pessoas. Mais que não poder sair de casa por medo, as pessoas passaram a não ter motivação para realizar atividades do dia a dia.

E isso por muitos motivos, segundo o psicólogo comportamental Leonardo Morelli. “Nós não podemos ir e vir como antigamente fazíamos. Não podemos mais ver, abraçar e estar em contato com amigos e pessoas que amamos. Estamos incertos com relação a quando tudo isso vai passar e, mesmo cumprindo nossas obrigações com relação ao estudo e trabalho, tudo acaba se arrastando, mesmo que a gente não perceba. É óbvio que o distanciamento social e medidas restritivas são importantes nesse momento.”

O psicólogo observa que a ausência do convívio com outras pessoas, a incerteza com relação ao futuro e a falta de controle com a situação faz com que a gente se sinta, de alguma forma, desestimulado.





Por incrível que pareça, esse desânimo intenso pode atingir pessoas de várias idades, incluindo crianças, jovens e idosos. “Se para nós, adultos, que temos conhecimento sobre o porquê nossa vida mudou, tudo parece ‘difícil’, imagine para uma criança, que, de repente, não pode mais ir à escolinha, conviver com amigos, primos e vizinhos? Os adolescentes, da mesma forma, não podem mais conviver com os amigos e estão, de certa forma, receosos com relação ao futuro estudantil e provas de vestibular.”

No caso dos idosos, por mais que tenham se vacinado, “infelizmente ainda não estão isentos dos riscos da COVID-19 e não desfrutam de um futuro tão longo, se formos pensar pela ordem cronológica, quanto crianças, adolescente ou adultos. Ser privado de ver a família, amigos, ir às compras, dentre outras atividades do dia a dia, acaba sendo motivo para desmotivação”, explica Leonardo Morelli, que destaca, também, que esse quadro merece atenção, uma vez que tem uma série de consequências na saúde física e mental das pessoas.

Ainda que, segundo ele, não seja possível mensurar os danos a longo prazo, os prejuízos já estão sendo sentidos de alguma maneira. Isso porque a falta de motivação prejudica a concentração, aumenta os níveis de ansiedade e irritação, causa estresse e pode desencadear quadros de transtornos depressivos.





SINAIS 

Para a psiquiatra Jaqueline Bifano, fazer terapia auxilia na busca por identificar a origem das questões e dos problemas que atormentam e desanimam (foto: Arquivo pessoal)
 

A psiquiatra Jaqueline Bifano destaca a importância de que os sinais sejam reconhecidos a fim de buscar ajuda profissional, uma grande aliada do combate a desmotivação. Entre os sintomas característicos, tem-se exaustão, cansaço, desmotivação e dificuldade de concentração. “Quando isso passa a ser constante, é sinal de que algo mais sério está acontecendo, e isso já é motivo suficiente para buscar a ajuda de um profissional”, reforça Leonardo Morelli.

Saber mais sobre si é fundamental para vencer o desânimo, afirma Jaqueline Bifano. Isso porque, segundo ela, para identificar a origem desse sentimento é necessário exercer a auto-observação. “Por isso, buscar se conhecer e se reconhecer diante de fatos e situações pode ser o meio mais eficaz de superar uma fase em que nos sentimos desestimulados. Para isso, a ajuda de um psicólogo e, em alguns casos severos, psiquiatras, pode ser necessária, tanto para ajudar a identificar a origem do problema como fornecer subsídios para sair dele.”

“Afinal, fazer terapia nos auxilia nessa busca por identificar a origem das questões e dos problemas que nos atormentam e desanimam.”
 
 
EM AÇÃO 

O primeiro passo para superar a desmotivação está em reconhecer o desânimo e os sinais apresentados. Isso porque, se uma pessoa entende que algo não vai bem ou que algo está fora da normalidade, com funcionamento prejudicado, ela entende que é hora de agir e buscar ajuda, colocando em prática hábitos para mandar a falta de motivação para bem longe. “As atividades físicas feitas diariamente, pausas durante o serviço ou estudo, mesmo que para alongar, alimentação equilibrada e horas de sono de qualidade podem ajudar a melhorar os níveis de ansiedade e estresse”, afirma o psicólogo Leonardo Morelli.




 
 
Além disso, segundo ele, uma dica preciosa é colocar metas diárias para serem cumpridas. “Quando conseguimos cumprir nossos afazeres, aumentamos os níveis de motivação. É válido que essas metas sejam diárias e possíveis de serem realizadas para não gerar frustração. Algumas mudanças no dia a dia também são importantes, como fazer algo gostoso e diferente para comer durante a semana, assistir a um filme, ler livros ou ouvir músicas. Se além das metas diárias, começarmos a enxergar os resultados, passamos a nos preocupar menos com os obstáculos.”


PREVINA-SE!

 
Todas as pessoas podem passar pelo processo de desmotivação quando aspectos da vida estão em desequilíbrio, como autonomia, competência e relacionamentos. Ou seja, vai muito além da pandemia. Afinal, ao longo da vida, as pessoas passam a se verem com menos controle sobre áreas importantes que influenciam diretamente no bem-estar. Mas, é possível se cuidar e evitar que o desânimo chegue com tudo, se cuidando e se autoconhecendo, afirmam o psicólogo Leonardo Morelli e a psiquiatra Jaqueline Bifano.

*Estagiária sob a supervisão da editora Teresa Caram

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